VV 17

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(cozinha) ..... Estar de manhã nesta mesa, e é manhã de domingo quando um bocado do turbilhão parece ter sido varrido, é como um momento – pode ser um momento – em que o silêncio e a não companhia dos lados não é estar sozinho, é mais estar no mundo do que em meio a uma multidão em festa ou revolta. Principalmente porque o vitrô em seis vidros seccionado filtra a luz do sol aberto junto com o verde das calanchoês nas jardineiras do lado de lá; a luz de dentro fica macia, amostragem da manhã maior; cada 1/6 de vitrô é riscado de quadrados, uns com mais quadrados dentro outros lisos, intercaladamente e de pé, melhor dizendo inclinados, ponta a leste ponta oeste ponta ao norte e sul, como losangos só que quadrados, todos não deixando a luz passar transparente mas opacos atravessados por ela translucidamente deixando. E o certo calor de alimento que se exala do forno. E não é silêncio... resquícios de pássaros, e a baixa frequência do motor urbano na sala de máquinas onde estamos todos. E a promessa, ou crença em, de que é possível passar o portão e ir ver e atravessar sobre e atravessar entre as velhas novas sombras das árvores, à luz, copas e troncos; e inclusive o passeio o levar a por exemplo a feira, com sua cheia de gentes, sua vazante de vozes, pseudofesta ou revolta, cheiros e subtons.
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21 10 01
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