VV 18

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(da Luz – o Parque) ..... Aqui é um banco mais ou menos no centro, fica de frente para o coreto bonito, é de cimento com dois pés desenhados ao lado do lago em forma de cruz-de-malta. Mas esse vestígio não começa aqui, começa de onde vim, R. Lopes Chaves 108, antigo 546, esquina com a R. Margarida: antiga casa em que morava o Mário de Andrade, hoje tem numa placa à porta: CASA MÁRIO DE ANDRADE – Oficina da Palavra. (...) Mudei de lugar, o sol lá não estava prestando, aqui é bom, é uma pequena ilha que uma pontezinha liga à margem, o chão de dentro indica a direção de uma outra mas que por enquanto não há, talvez seja para ser só assim imaginária, invisivelmente é possível vê-la chegando em arco até o outro lado; nesse miolo há esse único banco: cimento em forma de heptágono com um furo no meio, sete pés o baseiam, sendo seis mais ou menos nas pontas um outro mais ou menos escondido; a essa hora (13, 13 e tanto...) esse sol de primavera esbarra nas palmeiras se esfiapando um pouco em sombras ralas sobre o heptágono; a frente da ilha, como uma proa, dá para aquela palmeira imperial, alta, ao lado do poste antigo. Voltando: é a, mantida, casa de Mário de Andrade, da R. Margarida veem-se as doze janelas, quatro em cada andar, porão térreo sobre-o-térreo, uma das do de cima está tapada a alvenaria não sei se do tempo dele. A cor é magenta-forte, um caramelo moreno, também não sei se desde lá, mas de uma ou outra foto que acho que vi acho que era mesmo em branco. Havia um guarda à entrada; perguntei se estava aberto a visita – Sim, mas só a partir do meio-dia e meia... além do mais parece que lá em cima faziam um teste para “o filme do Carandiru”, deve ser o Estação Carandiru baseado no livro de Drauzio Varella, mas mesmo assim o pacífico guarda me permitiu a passagem e entrei. O saguão; a escada de madeira que se dobra quando sobe (e quando desce – quando fica parada); a descida de uma outra sob o primeiro lance da primeira, menor, estreita, entre sombra, que dá para o subsolo. A porta à esquerda se abre a uma sala com três das janelas que se abrem à R. Margarida. Puseram uma pequena plateia de cadeiras numa ponta e o resto vazio com a famosa foto da Semana de 22 com os integrantes olhando a lente ampliada na parede oposta. Saí, agradeci ao guarda, parti/vim para a Luz. Quem sabe ele, o nosso Mário, o senhor Raul de Morais Andrade, em uma de suas andanças por São Paulo não tenha vindo até cá pelo mesmo caminho que tracei a pé há pouco: Lopes Chaves – R. Barra Funda – Lopes de Oliveira – Vitorino Camilo – Eduardo Prado – Adolfo Gordo – Alameda Glette – Cleveland – R. Mauá – General Couto de Magalhães. Algumas casas do trajeto parecem ser daquele tempo – aquela da Al. Glette 685, da Adolfo Gordo 280, da Eduardo Prado 705, por exemplo – mas a maioria (das poucas) dispersa e mal cuidada, pra não dizer estropiada e esculhambada a maioria. No estirão da Lopes de Oliveira a visão de um predião que com certeza Mário de Andrade não viu em vida; vestígios da Cantareira que com certeza não eram tão esporádicos por entre as fendas das construções; lá para o fim da rua hoje com o nome dele – Mário de Andrade –, transversa à Lopes Chaves e paralela à Margarida, as ondas brancas dos tetos do Memorial da América Latina, o que ele também não viu vivo; o dirigível, ou o zepelim, que logo vi ao sair da casa, que sobrevoava os Campos Elísios e guinava, o que ele possivelmente viu mas não desse jeito – com o Goodyear no costado oblongo. Na Rua Camaragibe hoje tem feira ocupando inclusive um braço da Lopes Chaves, o qual com pastel e caldo-de-cana; os pasteleiros de feira parece que tabelaram o preço, mas a cana na Barra Funda é mais barata, apesar de pouco gelada. Já há algumas linhas saí daquele lugar; da ilha pulei pra outro banco, do banco fui andando, andando fui à gruta, essa caixa d'água recoberta em cima da qual tem-se a visão mais alta do arredor, mas lá apesar do sol também vir ameno a amenidade dele é mandada pro espaço depois de um tempo e o melhor é tomar um refresco no bar-lanchonete da Pinacoteca e escrever na mesa e daí dar mais uns giros por aí. Giros como as prostitutas, que desfilam, às vezes se apoiam num poste ou tronco, às vezes olham uma aleia ou o lago, às vezes fecham os olhos como se não estivessem de serviço; giros como os outros, outras mulheres, outros homens, crianças correndo falando passando como só crianças correnfalampassam, giros como os policiais sobre os cavalos, como as babás empurrando o carrinho, como aquele senhor bem velho e encurvado, lentamente anda, as mãos às costas e uma à outra dadas, lentamente anda (parou um pouco), lentamente anda. Me enxeri por último aqui nesse canto de degrau à margem de uma das pontas da cruz-de-malta, espero daqui não sair até que esse texto de todo saia. Mesmo porque já acabo, dizer mais o quê? O Parque é do século retrasado, de Horto Botânico passou a jardim de recreio e foi aberto ao povo como Jardim Botânico em 1825 (aliás a 29 de outubro – pelo menos é o que diz o painel com sua história impressa e exposto em um dos corredores –, daqui a três dias fará 176 anos); foi reformado e reaberto há poucos meses. 'Tá bonito. Pouco banco pra muito público é um porém; e vários sob o sol, desabridos, o que quando o dia resolve puxar apenas um pouco o verão pela mão se torna um troço no mínimo insensato; aqui um banco livre e assombreado é mais difícil que visto de ir-ou-vir em país confuso. Outro – porém – pode ser o triste engradeamento, delimitando como delimita a maior parte de tudo quanto é parque e espaço popular dessa cidade, triste e natural, ainda que a cara dos calendários diga estamos pra lá de 2000, é a plena exuberância de 2001 no moderno “terceiro milênio”. Muitas esculturas, algumas lindas, muitas árvores, algumas lindíssimas, mas tapo minha boca como à quarta janela do andar de cima da casa da rua Lopes Chaves. Só deixemos passar... a figueira-branca, aquela monumental, num dos lados da entrada antiga, oposta à guarita, com seus braços cheios de seiva de vida, crescendo implicitamente, sondadores-insinuantes em sua extensão imóvel; a escultura do Brecheret – o senhor Victor Brecheret – aquela beleza de Portadora de Perfume, sua imponência de equilíbrio escuro, metal compacto e liso e leve, só leve para carregar um sub-líquido no bojo (bojo de corpo, a prumo, de cabeça e cântaro); vejo se ainda passo uma vez lá, antes de ir; e: mais troncos da senhora Bracher esses pra mim os mais bonitos – são quatro grandes prismas de madeira entretomados (madeira angelim, diz um aviso), e dos pinões metálicos que os atam veem-se as cabeças salientes no plano emadeiramento da pele do toro, e quando vistos à contraluz desse sol alto: especialmente; e o senhor Franz Weissmann: sua bela bem muito bela escultura que tem gente que não gosta e eu não sei como é que não vê nada nisso: Fita Vermelha, ferro, déc. de 1980; chapa vermelha, em dobras, só vendo. Chega mesmo. O sol desceu mais um tanto e aquela outra palmeira não o cobriu, já estou em cheio sob o seu foco. Vamos, de um pulo, à portadora...
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(da Luz – a Estação) ..... Sobre a segunda das três pontes de ferro sobre as duas raias de trilhos com uma plataforma entre. Gente, gentes, gente. À espera, de frente aos trilhos por enquanto vazios, aquém em cima e um pouco além da faixa amarela de segurança a uns centímetros antes da margem, de mãos na cintura de conversas lado a lado de rostos cansados de um rosto rindo de uns rostos serenos na multidão, de roupas de um monte de cores de cabelos de um monte de tipos, de esperanças introspectas em sabe-se lá que conformações, esperanças pelo trem, que não vem, que ainda não chega (o rítmico rangido, pistões e giros), que ainda nem dá sinal. A bonita abóbada em arcos de ferro, costura de segmentos, estruturação; um grande vão ao norte um grande vão ao sul, de chegadas de saídas, os dois. Vou m'embora, saio para a rua. (...) Da Luz: o dia. O ramerrão das avenidas, motores, mais pessoas; há exatamente 176 anos deviam estar se preparando para a inauguração. Um trânsito parado. Um pombo no chão. Aquela mulher sentada no degrau está de costas para a rua, olha ininterruptamente um espaço indefinido, não pisca, não foca. Abóbada. Sol primaveril de dia azul de abril mas é outubro.
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26 10 01
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* Estou aqui no ônibus, voltando pra casa. Acontece que no banco da frente uma mulher lê um livro, espicho o pescoço de curioso e meto os olhos na fresta entre o banco e o encosto de cabeça, olha com que parágrafo me deparo: No dia seguinte Frederico Paciência... – o que só pode ser do conto do Mário de Andrade. Eu sei lá se as coincidências existem se elas inexistem. Eu sei que é verdade – isso –; é e não foi, porque ainda estou aqui agora mesmo, a dona ainda abre o livro à minha frente com o parágrafo que percebo, e eu juro.
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