VV 21

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(vestígios da casa – dentro) ..... Acho que essa foi sempre uma das minhas horas preferidas, em que a luz transita, hora de nem lá nem cá, dos dois: 5 e meia, 6h... em que as primeiras pontas das pontas das pontas dos raios do sol varam a sala, as primeiras sombras – primeiras configurações de espaço e profundidades, o primeiro rouge das cores; lá fora é o primeiro e logo os seguintes pássaros, um ou outro carro que se insinua, o primeiro ônibus; e a hora de “suspensão” incontrolável, suspensão de trincheira que só uma fronteira sabe ter, entre uma subida-e-queda, um ida-e-volta, lá-aquém, estive-estaremos, está. Claro que alguma luizinha é preciso para escrever; ou intercaladamente: acende a lâmpada e uma frase, de volta à penumbra, acende a lâmpada e uma frase, de volta a penumbra, e assim vai... Há trinta e quatro anos minha família se mudou para essa casa – meu pai, vendo a data de hoje na agenda, se lembrou ontem e me disse. Há 34 anos, exatamente; segundo ele e a estampa da data na agenda. Isso quer dizer que aquela divisória de madeira não existia, por exemplo; nem a silhueta dos enfeites em cada estante dela. Muito menos aquela planta, nascida quem sabe há um mês, nem aquela outra de plástico ou folhas de pano mais durável e antiga mas não tanto quanto mais de três décadas ou quase três dúzias de anos. Nem essa mão de pintura, não sei qual acamando a parede; nem aquela porta, trocada, nem a samambaia, nem o abajur; nenhum dos quadros, nenhum dos porta-retratos nem a maioria dos momentos fotografados neles, nem eu. Não poderia haver uma máquina-diagnóstico do Tempo, catalogando os seus descaminhos, formação, que fibras? É, eu sei lá que bobagem haveria de ser isso. O mapeando. O definindo. Histórietizando, dissecando as origens. E antevendo os ramais do futuro... Daqui a 34 sabe-se lá. Não só nós vivos, mas esta porta, aquela mesa da sala de jantar, o espelho atrás, o corrimão de ferro com seu desenho delgado. A silhueta daquele jarro faz uma curva ao lado da vertical da do vaso reto. Mais pássaros; carros os ônibus inclusive avião. Latido; sequencial. O toque especial de um pio mais encorpado, redondo, em seções, como se de um mocho mas deve ser um outro pássaro que não reconheço. Mais sombra-e-luz, clarescuros na sala e os seus rincões. Mais o mocho, outro ônibus. Daqui não se ouve o tique-taque do relógio sob o telefone do qual com certeza chegando-se perto é provável que se possa ouvir. Na silhueta da samambaia é possível ver verde. A tampa da caneta sobre a mesa. A pirâmide de enfeite, três elefantes. E nada como poder ir dormir.
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(telhado) ..... À tarde, na verdade é um dia frio e nublado, aqui é para o lado de dentro da cf e não subi lá, faça-se de conta. As telhas se imbricam, numa descida a nordeste outra a sudeste – tenho uma bússola comigo que trouxe na mão e agora posta na quina elevada entre as duas descidas. Há uns 15-20 anos vinha mais àqui em cima; havia um acesso fácil pelo telhado do vizinho, hoje ele é um galpão alto e inteiriço o que facilita à preguiça, pra chegar nesse aqui de casa só pelo forro e levantando algumas telhas, passagem de rato. Mas via o que ainda hoje mais ou menos vejo: a cidade nas direções da bússola; mais ou menos porque alguns prédios brotam sem que a gente nem saiba, como ou quando, algumas casas sumidas, algumas reformas destacadas, à noite aquelas luzes da avenida são amarelas quando há muito eram brancas, a residência do outro lado da rua não é mais um terreno quase baldio e de barro, as torres com a eletrificação ainda cortam antes da Hípica. Paisagem matutina, paisagem com neblina, paisagem de dia de noite ensolarada, paisagem pólis-valente: sempre, de cidade. Um ou outro e mais ali algum resquício de arborizada; em algum lugar existe uma cifra que é o número das árvores que existem. Número móvel, ambulante, de repente talhado à queda, muitas vezes para baixo, afincadamente subindo aos poucos. As árvores da cidade. As árvores do mundo. As das madeiras dos móveis, dos caibros, do carvão do contrabando, dos papéis irrecicláveis. Por que digo isso sentado aqui no topo? Topo confluente das duas águas de embricamentos. Topo pequeno. Se essa é uma das “farsas” ou transposição imaginária de lugar ou ocupação fictícia, o telhado lá do início bem deveria estar em itálico – telhado – mas deixa estar.
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4 11 01
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