VV 22

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(Incor, o Instituto do Coração, uma das suas áreas de espera) ..... Pode ser que no início do seu uso – inaugurado em 1977 segundo uma placa – aqui tratasse só dos corações, mas hoje é tudo, as demarcações no piso correspondendo à coloração de um mapa orientam a salas dos mais variados exames e especializações e gente de tudo que é tipo vem aqui e se trata ou pelo menos tenta e as máquinas com seus técnicos e doutores tentam ajudá-la. Passa um moço a passos curtos de máscara cirúrgica e cabelos ralos por debaixo do boné; passa uma moça de máscara cirúrgica e vai até a mãe ou irmã ou amiga ou conhecida sentada. Ali atrás da parede de vidro há outra sala com mais uma penca de cadeiras com mais um cacho de pessoas, no alto apoiada em suporte de ferro a televisão ligada ajuda a espera, passa uma mulher passa um produto e a propaganda de não sei quê numa praia, embaixo do lado de cá, de dentro da sala, muitas caras num grau em que o pescoço levanta a vista, olham sem quase um pisco e com um silêncio de deixar a imagem mais clara, aquela mulher tem os olhos semi-abertos injetados de neblina mas é certo que as pupilas miram fixas a tela. No livro antes aberto e agora semifechado no meu colo um sujeito disse há pouco através de um parágrafo: Ao contrário de uma função emancipadora, esse ambiente cultural instaura no indivíduo um exercício de conformismo imediatista, de recusa a qualquer dimensão reflexiva mais consistente. É de Bufonices Culturais e Degradação Ética: Adorno na Contramão da Alegria (o texto) e de Luiz Hermenegildo Fabiano (o sujeito). Mais a mim adiante, erguendo a visão em frente, o selo de um aviso em amarelo e vermelho acima da indicação de seção de Tomografia: RADIAÇÃO – NÃO PERMANEÇA NESTA ÁREA EXCETO EM CASO DE NECESSIDADE. Em uma esquina do corredor uma mãe com uma filha um tanto inquieta mas de inquietação bem humorada tenta segurá-la no regaço; uma enfermeira vai e conversa; outra atravessa calada. Entre o meu assento e a parede radioativa uma maca cruza com mais duas enfermeiras a empurrando, nela um homem – semiacordado, inconsciente, em coma? –, um cobertor o cobre, a barba mal feita, desalinho à cabeça, à perna da maca sobre rodas uma bomba de ar comprimido trabalha pois parece que do tubo que oferenda sobe um alívio a qualquer asfixia que chega em forma de máscara sobre o nariz e a boca do homem, focinheira aérea.
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(B) ..... Saudade desse canto, longe e dentro, a cidade ao redor grunhe, eleva os seus trâmites acende os compromissos ativa os seus percursos e também é isto. Aqui; ei-la. Poderia-se, ser-se-ia possível mais algo acerca dos caminhos ao Incor, de ida a ele, da volta dele, mas no mais seria rua: trânsito, ruas: trânsito. E o calor, pena que o sol aqui na praça já não está como estava, lá o asfalto o assopra imoderadamente pesando, aquece abafado. Chega (por um momento) de tanta gente hospitaleira de hospitalizada, de tanta gente transeunte de trânsitos, de tamanho calor apático, atávico da urbanidade, socado em sua têmpera. Aqui o que grunhe são os pássaros, até um galo, talvez o mesmo que por trás daquele muro de outra vez que estive aqui o ouvia. Um bicho sobe pela minha perna, barriga, braço: é preto com manchas de amarelo-vivo, seis pernas. Existe um livro aqui atrás no canteiro de terra, de pequenos galhos e resíduos coberto, parece um guia ou almanaque variado, vou dar uma olhada. ...É, é um guia mas não de ruas, de computação e programas tecnológicos; no alto de uma das páginas à esquerda: Advanced Fax Functions, à direita: Windows; em inglês, todo. As folhas estão duras e encardidas pelo provável tempo no tempo, aberto no meio o que resta do livro mal mais fecha e de um lado e de outro as páginas fechadas mal mais abrem. Ah um detalhe ainda do Incor-caminho-de-volta, na curva ligação entre a ponte Rebouças e a marginal Pinheiros a pichação na amurada bem visível a quem vem de carro: CORTE ÁRVORE – e à direita um número de oito dígitos para contato, iniciado por 9-1. Revoada de pombos; muitos, matiz de branco, preto, cinza, marrons. Um cachorro engraçado passa trotando, é todo branco de rabo levantado e curvo de orelhas em pé e só um dos olhos está dentro de uma única mancha escura da metade da cabeça e a coleira vermelha é ressaltada no pescoço. A dona lhe grita quando ele segue no rumo de um pastor alemão aparentemente tranquilo abocanhando uma bolinha: Nicola-au... vem! O sol volta para a felicidade entre as sombras. Afasta quase completamente qualquer empate de nuvens que eu nem vira se afastarem. Um casal japonês ou chinês ou será coreano chega falando entre si o que eu não entendo e se predispôs a fazer um tai-chi ou kung-fu lento ou outra arte marcial que desconheço e que aqui só tem na ação seu lado pacífico, aqui a uns dez metros, como se um reflexo do outro, dançavam, estava para escrever o pacífico e eles pararam, estão ali no banco falando e enquanto olham o dono do pastor alemão jogando a bolinha de plástico mastigável; ela, a guerreira lenta e reflexo do lento marido e guerreiro e reflexo dela o espelhando, balança os pés descalços idilicamente, os calçados no chão. (Atrás, sobre a mureta à direita, um casal dos pombos estava, também num jogo de espelhos, bico com bico, pescoço subindo e descendo com pescoço subindo e descendo, se cortejam, também dança, mas rápida, e não marcial.)
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7 11 01
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