VV 23

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(sonho) ..... Não meu, minha mãe contando o que ela teve e com o seu memorável diz-que, diz-que aconteceu isso e tal coisa, diz-que aquilo e mais não sei quê aconteceu. Diz-que era a casa dela em Manaus, as amigas da minha tia Eneida chegaram cedo e esperavam no porão, minha tia não terminara de preparar uma festa ou lanche e daí apareço eu, vai sair pergunta minha mãe, vou, todo arrumado e tendo passado “um creme na cara” me despeço, minha mãe: mas você precisa cumprimentar as amigas da Eneida, elas querem te conhecer... ah, dessas coisas é qu'eu não gosto digo, a minha mãe acorda. Ainda comenta por último: era como se fosse a minha casa mas a Eneida lá como se fosse dela e as amigas esperando... essas maluquices que a gente sonha.
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(ontem) ..... Meu pai admirado, divertido, sentado à mesa de plástico com o amarelo dourado da cerveja dentro do copo ao alcance da mão, encanta-se com o progresso súbito do passarinho que mal alçava um voo (é um pardal que machucado ou nascido assim, de uns dias pra cá veio parar no quintal só num corric'aqui-corric'acolá e com um voo barulhento de um a três palmos do chão, meu irmão pôs água depois ração depois meus pais também de babá, o bichinho escalava o bambuzal, tentou decolar de encontro ao paredão, voltou, se protegia na cabana das folhas e caules verticais, bebeu a água, comeu a ração, vivia, o chamusco de uma das asas com penas pra cima indicava a anomalia do acidente de percurso ou disfunção) – e agora ali, parece que fareja o espaço novo, o analisa, em meio ao meio da copa da árvore da vizinha para o lado de lá do muro.
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(hoje, e o real – ou nem ontem ou ilusão (?)) ..... Eu poderia dizer do Elevado Costa e Silva, o Minhocão, e sua bizarrice particularíssima de corredor elevado sem teto e paredes cuja falta deles dá na floresta de prédios em que vai adentro e em que janelas e topos de frontispícios – próximos – não têm base (para os que nele elevados vão), poderia dizer do edifício do Banespa visto de frente e ao longe com o balanço da bandeira o mesmo edifício de cuja frente foi visto um dia este corredor, ao longe, e ainda pode-se ver assim que de volta lá se vai, poderia dizer da Cardoso de Almeida e a sua sensação de outra cidade com sua reta a apontar para a Cantareira uma fatia dela ao fundo, dos camelôs da Rua Direita e a mancheias no Largo da Misericórdia, da PUC com sua fachada e a igreja ao lado dela e os alunos atravessando a via como aquela: típica estudante embraçando um buquê de cadernos de colegas ladeada, das duas vendedoras na loja da José Bonifácio pegando a grito mais que a laço os transeuntes para que venham vejam é só 2 minutinhos do seu tempo olha a promoção que interessante, da mendiga mãe e a mendiga filha ambas agachadas na esquina da faculdade de Direito do Largo São Francisco a mãe ajeita os cabelos à orelha direita elegantemente com uma calma que combina com a mordida que logo dará na trincha de melancia que as duas comem elegante calma que combina com os olhos puxados meio de índias e a pele bonita pele canela pele de bronze que não combinam com as mesmas peles e saias e pés muito imundos e encardidos sobre a calçada imunda e encardida enquanto os gestos de orelha e melancia se executam, da fila indiana e em movimento dos motoqueiros no corredor entre as filas indianas dos carros, da Doutor Nestor Esteves Natividade aquela que é uma ruinha de casinhas e estreita em plena região central; – todos lugares por que bem ou mal passei há pouco mas não vou dizer nada nada disso eu vou dizer eu vou é pôr, só, descaradamente: (cf) quintal, Sol; quintal, Sol. (E o pardal não o vejo quiçá terá se ido. Diz-que foi-se?)
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8 11 01
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