VV 25

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(rua) ..... A rolinha no fio telefônico e ao fundo o muro da casa com sua pintura de azul-céu. Só que o dia é nublado, e pouco depois a chuva estronda.
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(Rio de Janeiro) ..... A cidade, não todo o estado, peguei um táxi lá pelas 7 e o avião saiu às 8:25 de São Paulo, à chegada ao Galeão (hoje Aeroporto Antonio Carlos Jobim) é de cantar a alma realmente, como ao maestro quando a paisagem lhe sambou por dentro na aterrissagem litoral, agora com outro táxi – Antônio, o motorista – fui levado a passear pelo Centro, ali a Rua Pedro Ernesto antiga Rua da Harmonia, ali a Rua Vieira Fazenda antigo Beco do Cotovelo, passam-se a da Constituição antiga Rua dos Ciganos e a Rua da Alfândega antiga da Mãe dos Homens, na Rua das Mangueiras atual Visconde de Maranguape há um boteco com atraente comida caseira a qual mais tarde almoçaremos, na atual Juan Pablo Duarte antiga Belas Noites empreitam uma reforma naquele casarão bonito mas com grande rachadura, a Travessa do Ouvidor era Rua das Flores a Sacadura Cabral era da Saúde a Teófilo Otoni das Violas, como diria o Bandeira os nomes de antes é que eram chamados bonitamente, e agora estou na Av. Treze de Maio mas era Rua da Guarda Velha e aqui o Camilo, de Machado, viu-se num engarrafamento de tílburis encontrando-se com as janelas fechadas da cartomante, mais adiante mais o mestre porque na fachada da Academia Brasileira de Letras pode-se deparar com o seu verso virado dístico – Esta a glória que fica, eleva, honra e consola –, tomamos o sentido costeiro ao sul, olha a beleza dos perfis de montanhas sobrepostos, ah como Copacabana ainda é bonita, aqui é uma saudade que se mata, ali é um perfume que se resgata na maresia da alameda, a Lagoa, a Gávea, a pedra dupla dos Dois Irmãos e o Cristo – este abraço inconsútil sobre a cidade – e claro: o mar, não estou aí coisíssima alguma, foi inventado, ou imaginado, não estou com grana para tanto táxi menos ainda avião e então o Rio de Janeiro deveria também ser em itálico, consulto um apêndice de uma das obras de Machado (um “registro dos logradouros” da cidade) e não sei se os nomes “atuais” são mesmo de hoje já que a edição já é de 1959, nem se tais ruas são mesmo do Centro e se a Academia é por ali entre elas e se o verso continua à porta e é visível a quem passa, nem se há boteco com comida nas Mangueiras, nem se casarão que exista nas Belas Noites, nem Bandeira disse o que disse que disse na verdade ele diz “como eram lindos os nomes das ruas da minha infância”, e era no Recife, aqui é o Rio, lá é o Rio, aqui é São Paulo de onde dele rabisco uns vestígios porque deu-me na telha, de pura imagi-magem embora pelo que crê-se esteja existindo lá neste momento, com mais detalhes, piores e melhores, com menos ou mais maresia, os morros, a gente, carros, areia, com certeza a Gávea, os Dois Irmãos em pedra, sobre o Corcovado o abraço aberto, um tílburi estacionado na Guarda Velha, talvez um casarão e a rachadura.
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(sonho – quase certamente instigado, ebulido pela já então intencionada vestigice de cima) ..... Num ônibus, fretado, grande, de poltronas estofadas e confortáveis viajando na estrada, eu e alguns conhecidos e familiares indo todos para o Rio. O pessoal sentado, eu de pé no corredor entre as poltronas, pelas janelas já se via um fim de tarde, a Maira, minha cunhada, estende-me um objeto um relógio ou mapa, coisa que me certifica de que só chegaríamos não tão cedo quanto o esperado, fico emburrecido, meio decepcionado por um instante, “ah, gosto de chegar ao Rio de dia” digo.
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(mais tarde, espelho – na verdade do reflexo do vidro na janela da fc) ..... Esses meus olhos, com seu quê de ódio, de dócil, de triste, de profundamente ignorante na superfície, e os brilhíolos que rebatem ou é das pupilas que puxam uma umidade interna senão a gente não se veria vivo (porque para lá do vidro a leste um crepúsculo explode e lança sua luz entre as ex-nuvens de chuva agora em estiras sobre o azul verdadeiro).
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15 11 01
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