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(Cemitério da Consolação) ..... Somadas, quanto haveria de ser tudo o que é tumba, ocupando os espaços? Não como as insônias mas como elas só que ao contrário, sonos concretos. Faz um dia bonito, o calor chegando. Daqui – ao lado da “necrópole” mais ou menos no centro, num banco – parece grande o cemitério; e é; não tanto quanto o do Araçá, mais ali subindo, na Dr. Arnaldo, muito menos tanto quanto o da Vila Alpina, um dos, talvez, mais extensos do mundo. Cemitério vem do latim ou grego e quer dizer casa dos mortos? Eu não sei. Imagino. Aqui seria um bom lugar para “cartazes”, algum desses textos interessantes ou curiosos colado de improviso e temporariamente numa lápide, num enfeite, numa curva, numa árvore, se não for ofender nenhum espírito ou família dona de jazigo... pelo menos é um lugar a que as pessoas vêm para parar e olham. Tem túmulos de vários tipos. Suntuosos, simples, altos, mondrongudos, rasos ou modernizados, antigos e clássicos. Escultóricos. Pesados. Retilíneos. Claros e escuros. Faz lembrar o passeio daquela Sabina, personagem do livro de Milan Kundera, a pensar sobre as vaidades, vacuidades dos monumentos fúnebres... Em contraponto lembra também aquela beleza de estrofe de Machado de Assis que por acaso me vi lendo anteontem, quatro decassílabos que de certa forma ressaltam o contrário. Será tudo vaidade, sentimentalismo atrasado, só mesmo muita ocupação vã de espaço? Vá saber. Vejamos se um dia sabemos. Eu havia lido não sei onde que Mário de Andrade fora enterrado aqui; foi mesmo (ao contrário do que pedia a sua Lira Paulistana, espalhando-o pela cidade). Vai-se à administração, que fica no lado oposto à entrada com a necrópole entre, e dão-lhe um mapa, com algumas indicações de famosos sepultados; me deram. Mário de Andrade foi ali, rua 17 quadra 27, ali não... aqui, pronto, voltei. É um túmulo de mármore escuro com um anjo branco de pedra em cima, ao braço esquerdo um caule com flores (também de pedra, e brancos), a mão direita tem todos os dedos quebrados sendo o indicador e o polegar os que existem mais. À esquerda quatro nomes, à direita três. O de Mário de Andrade é o segundo dos quatro, de baixo pra cima, os outros foram certamente parentes, outros Andrades, os de cima, Carlos de Moraes e Maria Luiza de Moraes, creio que irmãos. O primeiro dos três à direita é apenas Renato (6-2-1899/22-6-1913), um jovem talvez Andrade, morto sabe-se lá por que doença ou que fatal ocasião. No meio: “Carlos Augusto de Andrade / 14-IX-1855 = 15-11-1917 / ‘AD DOMINUM CUM TRIBULARER CLAMAVI: / ET EXAUDIVIT ME’ PSALMO 119”. Era o pai? Curioso esse hífen duplo entre as datas de morte e nascimento, sinal de igual. Poderia ter trazido alguma flor ou lembrança... nem pensara nisso, não trouxe. Um inseto passeou no peito do anjo, ele mantém-se olhando calmo para baixo (para um Jesus Cristo crucificado também em negro numa cruz deitada sobre o tampo), das suas têmporas escorrem uns rastros lacrimais, lágrimas podem ser mas com certeza do tempo e das chuvas. Logo ali atrás do muro está a cidade, sua Paulicéia, Mário, e são nítidos os seus muitos sons – hoje especialmente com os apitos dos policiais, fazem uma blitz e revistam os motoqueiros, o que vi quando cheguei. Aqui do lado, de esquina, fica esse mausoléu (abandonado?); o pó e teias cobrem o nome da porta – Família Francisco Parisi –, em alto-relevo há a figura da Paz representada com sua venda grande espada e balança, abaixo em letras furadas no ferro a palavra, PAX; na lateral tem uma janela quadrada e lá dentro algumas camisas sinistra e engraçadamente penduradas em cabide, talvez tenha virado o escritório de um dos coveiros. Nesta mesma rua 17 (túmulo 17) foi sepultado o corpo de Oswald de Andrade. ...aqui; é em mármore branco, há uma coroa de flores (pedra) à frente de uma cruz e ambas no alto sobre uma espécie de obelisco que é uma das partes sobre outras partes, em cada face nomes, quase em todas; numa: ‘OSWALD DE ANDRADE’ / JOSÉ OSWALD DE SOUZA ANDRADE. Plantas verdes contornam o quadrado-base; uma borboletinha lilás passa em ziguezague; com um vento folhas secas se arrastam. Volto para o banco. Ideia para um livro: um editor convida escritores ou pessoas que queiram escrever, solta-os num lugar desse e cada qual pode escolher qualquer jazigo ou qualquer epitáfio ou qualquer detalhe para o seu texto (para o seu texto nascer). Por exemplo esta (saí do banco), é uma sepultura em quadrado, cercado por uma grade enferrujada cheia de pontas, dentro plantas inclusive uns dentes-de-leão pequeninos, nenhuma indicação de gente morta, nenhum indício de datas ou adeus; provavelmente estará vazia, possivelmente estará esperando novo inquilino. À esquerda uma com uma placa aos pedaços na qual se lê o nome mais ou menos apagado de D. Josepha Bernardina de Souza... à direita a da Família José Rudge Ramos. Não qu'eu tenha escrito história ou relato digno de edição, mas um texto não se deixou de ter nascido. A ideia é boa. Não é boa? E pode-se, qualquer problema, pedir ajuda ao Popó. Popó é um dos funcionários que logo no começo me viu escrevendo lá no banco e simpaticamente puxou papo dizendo acerca da vida desse mundo que ao que parece ele conhece à beça. Você mexe com jornalismo?, ah vem muita gente assim como você pesquisar, outro dia vieram uns querendo fazer um filme, eu dou a maior força pra essa gente assim, que vem aqui e vê de uma forma diferente, mais alegre, com outros olhos, divulgue o seu trabalho hein, boa sorte aí tudo de bom, desculpe incomodar, até, palavras dele. E: qualquer coisa é só ligar aí na administração e chamar o Popó, se quiser pode ser com mais gente e a gente faz aí uma excursão pelos pontos de interesse. Editores, interessados, olhai. O sol está a pino. O trecho por extenso de Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser, parte III, décimo capítulo) é: “Segundo seu velho hábito, tentou acalmar-se indo a um cemitério. O mais próximo era o cemitério de Montparnasse. Era composto de frágeis construções de pedra, de miniaturas de capelas erguidas próximo aos túmulos. Sabina não compreendia por que os mortos desejariam ter em cima deles imitações de palácios. Esse cemitério era o orgulho feito pedra. Longe de serem mais sensatos depois de mortos, os habitantes desse cemitério eram ainda mais tolos do que em vida. Ostentavam sua importância através dos monumentos. Ali não repousavam pais, irmãos, filhos ou avós, e sim gente importante, funcionários de administração, pessoas carregadas de títulos e honras; até um funcionário dos correios ali oferecia à administração pública sua posição, seu nível, sua classe social – sua dignidade.” E a estrofe completa do belo, muito belo Manhã de Inverno de Machado, é:
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.......... Névoas enchem de um lado e de outro os morros
.......... Tristes como sinceras sepulturas,
.......... Essas que têm por simples ornamentos
.......... Puras capelas, lágrimas mais puras.
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Lá perto do banco, à margem de uma das quadras, escavavam uma cova, a terra marrom-clara crescendo quando as pás a jogam numa caçamba enquanto o buraco ficando e ficando mais fundo. O cemitério não para de ter trabalho. Já ouvi dizerem que ao sair de um é bom que se o faça de costas, para evitar que almas tendenciosas ou inclinadas a um apego se ponham a o seguirem. Bem, está na hora de ir. Vamos ver como é que eu saio.
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22 11 01
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* Chego em casa (é quando preencho as citações com os seus conteúdos) e vou ver nos Salmos e encontro a possível tradução para o epitáfio em latim: “Clamei ao Senhor na minha tribulação, e atendeu-me”. É o primeiro versículo do primeiro dos cânticos das ascensões.
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