VV 28

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(metrô) ..... No vagão do metrô um menino de uns oito anos experimenta se soltar do irmão ou pai moço e sente com os dois pés bem plantado o impulso e o pequeno balanço do chão enquanto que a locomoção do carro o pressiona mais um pouco, ora menos, ele flexiona de leve as pernas separadas, mais a da frente, aos poucos levanta os braços num particular voo simulado e sorri, descobrindo os movimentos. (Ao redor dele tantos outros, todos adultos, sérios.)
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(Tietê: Terminal Rodoviário) ..... Numa das áreas em que há as cadeiras laranja em tudo que é canto, passa gente com mala passa gente com valise passa gente com mochilão como não podia deixar de ser, passa aquele funcionário: saiu dos Sanitários (duas placas grandes os indicam, uma de cada lado e em cima da abertura no concreto) duas luvas cinza o cobrem até os cotovelos e carrega um balde, aparentemente cheio. Aquela moça com seu conjunto de malas faz uma cama nas cadeiras em que tenta se acomodar e quase cochila. Através do teto e pelo vão aqui de trás reverbera a voz maquinal dos ônibus quando os motoristas aceleram. Mas não tão alto. Estão por trás daquelas paredes de vidro, de seção em seção uma placa, 34, 36, 38..., em que embarcam, desembarcam. A fileira dos orelhões, telefones públicos em conchas lado a lado, amarelos, amarelo-limão. Paracolá as cabines de venda de passagens; uma tem grande um MOGI DAS CRUZES / SUZANO, outra tem um letreiro luminoso em que em pontos vermelhos ilumina VITORIA-ES – sem acento porque não cabe nos pontos. Embarque Plataformas 51 a 89, seta, Farmácia, seta, Lanchonete Restaurante; seta. O alto-falante tem um homem que pede e repete o chamado por um Silva, por favor compareça ao portão não sei quê. Um cavalete amarelo de plástico apresenta as palavras achtung attention cuidado ao redor de um triângulo, o qual com outra moldura dentro contém o desenho estilizado de um bonequinho caindo; o homem no alto-falante se calou. Esse amarelo, do cavalete dos cuidados, é vivo, amarelão, mais opaco mas mais chamativo que o dos orelhões; está ao lado da marca de chão que indica presença de um extintor de incêndio. Mais malas. Mais malas. Mais malas. Motor, os sanitários, muitas ligações. Faz um dia bonito, apesar do temporal reviravoltoso que deu ontem o dia inteiro na cidade toda e parecia ir durar se não sempre pelo menos até hoje; as luzes do sol entram por vários acessos, um é o desse telhado com placas translúcidas em parte em curvas e parte em 45º sobre o fosso central sobre as plataformas, outro é aquele que eu não sei de onde mas pinta três faixas solares, de viés, nas placas do concreto armado da grande parede. Há pouco o locutor – um outro – espichou um boletim informativo em forma de minidiscurso do qual não entendi absolutamente nada, ou bulhufas. Bulhufas como não são esses intercâmbios; essa ida-e-vinda, essas ida-e-voltas; essa transação de trânsitos – não para. Ond'é qu'é a plataforma 36 me pergunta um rapaz que vem com seu boné e cigarro; levo-o ao fosso: ali é a 35 ali a 37, deve ser ali [está atrás da escada]; beleza, ele agradece. O Terminal e suas viagens, o Terminal e sua rota, o Terminal e sua utilidade pública. Aqui, num ponto da cidade de São Paulo; Zona Norte. Uma mulher muito grávida desceu a escada segurando aquela sacola de plástico. O Terminal e cada passada. As rodas, o escape da pressão do ar das portas. Abre-se; fecha. Aliás eu não sei se se adéqua bem de todo essa palavra, terminal. Aqui também se inicia.
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(passageiro) ..... Na passagem do Anhangabaú o perfil dos passageiros no ônibus é projetado pela luz laranja do túnel, mas não é só uma, assim ele some e volta some e volta, fenece e ressuscita, se apaga quando de uma luz dista mas logo é reaceso por outra, isso rápido, cada um dos perfis como um único e o grande perfil multiplicado mas mantém a fôrma, linhas de silhueta em laranja na parede de fora em que atravessam – até que a parede se afasta, porque nessa hora é quando o túnel se alarga, lá há uma área de calçada; cabana de cobertores, atrás varal com roupas, adiante dois muros de trapos com um colchão entre ou qualquer coisa do gênero, em cima uma mulher suja e aos molambos, dorme. (...) A praça Pérola Byington – gradeada, como tantas. (...) Cruzar a Paulista e a sua grandiloquência parece incrível ao pensar que ao mesmo tempo existe aquela mulher dormindo no vale.
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29 11 01
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