VV 3

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(sonho) ..... Eu estava num teatro que fazia parte de um hotel ou grande prédio de executivos; ficava no térreo, era chique, pequeno mas bem arrumado, moderno, as pessoas aos poucos chegavam e ocupavam o saguão, mais lentamente ainda entravam e preenchiam espaçadamente as poltronas. Eu conhecia os atores ou era um ajudante ou fazia parte da produção de algum jeito; me sentia ansioso, um pouco nervoso, na expectativa me sentava e esperava o movimento; dali a alguns minutos, meia hora se tanto, o espetáculo iria começar. (...) Saí. O prédio ocupava um lado menor de um imenso quarteirão retangular; onde não era prédio – uns 90% do quarteirão – era baixo, quase sem construção, quase um só terreno plano de cimento sem imóvel nem plantas, a não ser um conjunto de salas unidas por um corredor, espécie de ponte baixa fechada com janelas, na ponta oposta à do prédio, cobrindo toda a aresta. Anoitecia. Fui pela calçada do retângulo dando-lhe a volta no sentido horário. Passei pela “ponte” (debaixo dela, entre ela e um muro, numa passagem estreita entre os dois), saí do outro lado, na outra aresta maior, segui, já noite, pela calçada lisa e vazia. Uma luz fria mais ou menos de postes mas não havia postes [isso talvez tenha vindo do Entre Santos, conto do Machado de Assis relido há alguns dias, onde o sacristão encontra aquela luz “igual e geral, e de uma cor de leite que não tinha a luz das velas”]. No meio da reta, entre as duas construções no retângulo lavado, em direção ao prédio alto, com uma avenida larga mas quase vazia à esquerda – iam à minha frente quatro senhoras. Cada uma de um tipo; uma alta e gorda, outra baixa e de vestido, outra de calça e bengala, outra também de vestido mas não estampado... Andavam lentas mas as três se limitavam ao passo da maior, a senhora alta e gorda se movia menos, uma das outras lhe dava o braço e apoio, a sustentando e dando impulso ao mesmo tempo, as outras um pouco à frente ou atrás iam separadas, as oito pernas não se moviam iguais mas o quarteto formava um todo, ia mais ou menos junto. Cheguei no meu passo lento mas mais veloz que o delas e lentamente fui passando à direita, à minha direita o retângulo à esquerda as mulheres, e assim passando virava a cabeça e as via passar, lá atrás a avenida, aos poucos os seus rostos, elas continuavam retas e na mesma como se eu não existisse, ou para elas eu não existia de fato, ficou bem nítida a sua conversa, as falas trocadas com calma, falavam de assuntos corriqueiros, comentários sobre o dia ou a disposição de cada uma, mas de um modo, não sei se pela calma, pela clareza, que as tornava especiais – as palavras simples revelavam um sentido verdadeiro, profundo, profundeza que ignoravam ou iludiam muito bem fingindo não se importar. A grandona (também de vestido, e agora acho que também de bengala (à mão esquerda, a que não estava de braço dado com a amiga baixa)) talvez tenha dito alguma frase como não vale a pena – referindo-se a uma situação pela qual passavam ou à sua vida ou à vida como um todo –; em cada momento as frases nitidamente eram ouvidas: adiante do grupo, ainda andando, tirei um bloco do bolso e as anotei rapidamente, com medo de perdê-las ou mesmo já as perdendo naquele curto tempo, anotava para fazer daquele momento, daquelas mulheres e suas frases, um vestígio que redigiria dali a pouco. Anotei, devolvi o bloco ao bolso, me afastei das senhoras seguindo a reta. Volto à plateia: sentado na poltrona ainda olho o movimento, as pessoas ainda chegam, a peça começa-não-começa, não apagam a luz, não pode demorar muito e vai começar. (...) [Acordo e logo o sonho se exige ser um vestígio ele mesmo, o que não impede que eu esqueça, que se perca o que seria vestígio de fato, a fala das mulheres, ou principalmente a frase daquela, dentro dele.]
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5 02 01
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