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(Aeroporto de São Paulo – Congonhas) ..... Aeroporto em meio à cidade, nela incrustado como um jade. Jade é para compor com cidade, naturalmente, aqui não há nada de verde se é que jade é mesmo verde, não estou certo, além do quê imagino que o aeroporto é quem foi incrustado pela cidade, à época da construção talvez mal houvesse moradores nas bordas. Este saguão tem um quê de simpático, não sei se é por remeter a não sei quê da minha infância, se é da arquitetura, se é acolhedor mesmo, confortável. As colunas cilíndricas de azulejíolos cinza, pastilhas de mosaico; uma, duas, três, 10, 12, 15, mais de vinte. Os corrimões característicos; faixas de metal prateado com bolas as vazando. O chão xadrez, quadrados em branco e acinzentados, feitos de quadrados, 16 dentro de cada dos maiores. As cadeiras para os passageiros ao centro sobre um chão mais escuro; para os passageiros e sua espera pelos voos ou por outros que chegam, por outros que ainda não saíram ou não vieram buscá-los. A livraria, as lojas de produtos, cafeterias e balcões de atendimento. Os anúncios de voo computadorizados. As câmeras escondidas no núcleo daqueles globos negros. O busto de Alberto Santos-Dumont – inscrito: Pai da Aviação – no canto um tanto umbroso do vão sob a escada. As placas de anúncios bilíngues, DROGARIA/DROGSTORE, CORREIOS/POST OFFICE, CÂMBIO/EXCHANGE, as setas numa língua só. O teto entre três margens salientes, círculos de diferentes diâmetros com buracos e outros furos o cercando, abajures, presumo, mas é de dia e um dia luminoso, e não lembro como é de noite de modo que de novo não estou certo. O movimento; sábado de várias viagens. Talvez num desses cilindros podia-se sapecar um cartaz; mas aqui é um lugar de passagem (como o Terminal), lugar de passagem como o cemitério (que não deixa de ser um terminal), lugar de passagem como todos os lugares. Talvez por isso mesmo, lugar de passagem é em que é bom; vem-se vê-se lê-se e passa-se, lugar de passagem como àquelas árvores no parque. Tu-tuuuulll... o chamado do alto-falante antes do informe mas definitivamente esses informes não informam claro ou meus tímpanos de pó não os enredam e os não transformam em sólido. Truth-truth-truth-truth-truth... a mulher ao carrinho de mão com as bagagens, mais malas, mais malas. Perfumes. De outros estados, de infindos frascos, de outros países ou vá saber que mundos, as pessoas gostam de estar cheirando bem ao sair de suas casas. Um comandante lado a lado ao comissário passam conversando não sei se depois do pouso ou antes da decolagem. Comissário e comandante são meros epítetos, são dois símbolos para calharem com os uniformes, com este azul-e-branco, com estes chapéus sobre o andar elegante, não sei bem o que significam. Aeromoças vira e mexe, funcionários da limpeza (também vestidos de azul), civis ou à paisana, nas escadarias sobe-e-desce, eu ia escrever “nenhum animal doméstico” quando passou um pequeno cachorro preto desgarrado e sem coleira, talvez vira-lata e vindo visitar o aeroporto como eu (parece mesmo vira-lata porque aquele homem de crachá com toda pinta de segurança passa atrás e parece segui-lo), muitos tu-tuls mais, carrinhos com e sem malas, malas a tiracolo, malas sobre os ombros, malas sobre os colos dos sentados ou à mão do chão ao lado para qualquer eventual salto afoito, o dia ainda é muito claro e ativo, não acendem os furos que são esses círculos constelados entre as raias do teto. Lá fora quando vim vi o que nunca reparara: a um canto tem uma espécie de altar, minissantuário, nele a imagem de uma santa, é a Nossa Senhora de Loreto, para ser rigoroso: ao lado mais uma placa e ela conta: NOSSA SENHORA DE LORETO GLORIOSA PADROEIRA DA AVIAÇÃO ABENÇOADA POR S. SANTIDADE PAPA JOÃO PAULO II OFERTADA AO AEROPORTO INTERNACIONAL DE SÃO PAULO PELAS COMPANHIAS AÉREAS BRASILEIRAS SÃO PAULO 16 DE OUTUBRO DE 1981 – gradeada e ela com o seu vidro gradeado também gradeados, naturalmente. Mais um tul que não entendo, mais passageiros indo e vindo vindo e voltando, os letreiros luminosos indicando voos parecem os mesmos mas são sempre outros e enchendo as telas das centrais de computação despachados. (Curioso: daqui não se ouve avião nenhum, tamanho o som dos outros barulhos.)
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(composição) ..... Na A de passagem, ali àquele canto onde um dia um girassol levantava-se (su-sudoeste se se toma a Marginal como norte), entre a luz completamente primaveril da tarde grande onde a rampa dos raios desce obliquamente entre as árvores, e entre elas sobre aquele banco: um par, lado a lado, dois sapatos; dois sapatos femininos marrons de salto alto, aparentemente incólumes, dois sapatos marrons e de salto alto femininos lado a lado sobre o banco entre as árvores no vigor primaveril da tarde grande sob os raios obliquamente ensolarando. Composição; não sei de quem ou por quem composta.
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(idem ou rua também ou outra coisa...) ..... Os prédios em construção, laranja-ensolarados, acesos com as teias de proteção que balançam um pouco num insuflo de velas aos farrapos ou grande mortalha ao vento, parecem também como aquele destroncamento da K uma escultura só que mais do que bela inusitada e possível se vista desse outro modo. Mas a visão vai querer demonstrar e demonstra: são dois prédios, em construção, ensolarados e por isso acesos, a teia não é, nem vela em farrapo nem mortalha velha, nem teia, a teia é rede de proteção antientulhos ou restos-de, antitambém quedas de homens trabalhando, quem sabe.
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(ontem (por que então não escrito ontem?)) ..... A Lua explosiva de luminosidade e círculo, sobre um telhado, sobre e através as franças da árvore, sobre e através uma moderada nuvem a quem o vento lhe disse: esgarço. Como num filme, como num quadro, como numa visão homérica de telescópio, como quando só a Lua pode ser e de novo, real, na noite.
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1 12 01
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