VV 31

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(corredor) ..... Os xaxins enfileirados com o dia de sol sobre, são as matrizes de sóis negros, suas sombras em círculos projetadas embaixo; no piso, lajotas, no cercado de sol enquadrado cercado por outras sombras, retas. (Cada sol negro tem uma poeira sideral que o emoldura, própria, dependendo de cada planta que abriga e sua textura também em sombra.)
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(binóculo) ..... Pela cf os aviões, nítidos, como pássaro, à solta, na floresta à solta e perto.
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(F) ..... Em itálico, porque não estou lá. As mesmas árvores de há meses, a mesma lixeira com lixo dentro provavelmente. A falta de luz cresce na vala do palco e sua ausência de atores, porque quem chega é o crepúsculo e hoje as luzes dos postes como nunca antes não se acendem. Tem um poema que li há semanas e no momento mesmo do fim da leitura pensei “que muito bonito” e cogitei virá-lo em letreiro ou um dos cartazes, como uma espécie de símbolo, “símbolo do espírito dos vestígios” que me pareceu no momento da leitura, quem sabe volte aqui um outro dia desses e o ponha, plastificado, datilografado ou colorido, à mão ou em letras de fôrma pichadas, como já o estou pondo agora imaginariamente. Sobre aquele tronco; no encosto do banco, no poste frente à rotatória, nas costas da banca de revistas; mesmo no lixo, na sua parte de fora. Uma gente que fosse enchê-lo poderia ler o texto antes; outra gente que lesse antes poderia se encher e juntá-lo ao lixo. Outra nem o lendo por não saber mas o respeitando; outra mal o lendo mas se ojeriza de bate-pronto, nem o rasgando, nem lhe cuspindo. Gentes de todo tipo. Como o daquele, casal que vem vindo a passo fagueiro, chega e se senta em um dos degraus do palco, talvez para assistir apreciando ao fastígio antiluminoso do espaço da cena. Não estão tão enamorados, nenhum desce a cabeça sobre o ombro do outro, mas estão juntos e isso não cedem, e assistem. Formigas. Os leves mosquitos. Não, aquelas árvores de antanho não podem ser estas, estas eram aquelas mas como todo ser vivo mudam. O trânsito de domingo é em definitivo diferente. Pouco carro, pouco ronco, pouco até mesmo domingueiros passeando. No azul, aliás, no céu, o azul é de um total descompromisso e amplo-espontaneamente, gasoso, verdadeiramente aéreo. Tudo ao mesmo tempo. Dilúculo, lusco e o fúsculo, delício, gulosêimico. O poema é do livro Íntima Parábola do poeta Afonso Félix de Sousa, chama-se Soneto XVIII, que venha e é para ir aqui inteiro:
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...... No campo vão pastar sonâmbulas ovelhas.
...... As nuvens, desde sempre os fâmulos da altura,
...... vão envolver o sol entre colchas vermelhas
...... – e em tanta paz da tarde um presságio perdura.
...... Do que haverá talvez por detrás do horizonte
...... golpes vibram, mortais, qual de um chicote eterno.
...... Por detrás do destino há de perder-se a fonte
...... que tem água do céu e tem água do inferno.
...... E em tudo o que hoje traz a beleza e deslumbra
...... o tempo há de deixar a marca de seus dedos.
...... Em torno de qualquer luz sei que a espera a penumbra,
...... no mel de toda fruta há ressaibos azedos.
................... A noite já desfaz as nuvens e as ovelhas,
................... e a amarga flor do amor já se cobre de abelhas.
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(binóculo) ..... Lua, luar. Crateras. Disco.
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2 12 01
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