VV 32

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(F) ..... Lugar público cercado de edifícios, largo, mercado, o conjunto das casas comerciais de uma cidade ou o seu comércio, circo leilão alistamento militar soldado sem graduação ou patente, vila ou cidade fortificada, espaço de navio para transporte de gêneros, alarde – esses são uns dos significados que o dicionário dá a praça, eu sei que esta é aquela, a F, a dos prédios em volta, dos carros, daquela piscina redonda sempre vazia hoje não cheia mas com uma água, o suficiente para um fino espelho dela, e treme com a brisa. As árvores estão da mesma forma que estavam quando não estive aqui ontem, com a diferença de mais um dia de vivas. As cestas verdes de lixo. O sol em peso na leveza luminosa. O fosso do teatro agora claro, no mais como o resto. Naquela esquina, no quarteirão entre aqui e aquela outra esquina em que havia aquela casa de madeira com café e mesas aliás fechada, havia uma grande construção com salão e janelões de vidro, ora à venda de carros ora vazia, falida ou à venda ela mesma, hoje: demolida. As colinas de entulho formam o relevo e a alvenaria em pó e aos pedaços dá os tons de terra e cinza-pardo-pedregulho. Vá saber o que vai ser isso, outro edifício, outro salão com vidros quase idêntico ao destituído, outra praça impossível. (Isso sem falar na demolição de muito antes: no ex-“salão e janelões” era uma fábrica, a qual fez da Alessandro Volta a primeira rua com luz do bairro; naquela casinha de esquina com a Michigan ainda lê-se a placa: ALESSANDRO VOLTA / pioneiro da eletricidade / 1745 1827.) Outras demissões, mais que possíveis, logo possíveis quando acontecem: o Pepino, aquele transeunte da minha rua que um dia se esgoelou e quase vomitou na sarjeta, dizem que adoeceu, morreu, vez ou outra o seu cachorro ainda passa sozinho; o banco da B, petelecado pelo gigante e com sua ponta a pique, não mais existe semidestruído, consertou-se ou o consertaram, ou consertado pelo mesmo gigante depois do remorso vencê-lo; na G a “arena” perdeu a cor, sua cor pintaram-na de azul e amarelo, amarelo em faixas sobre o azul com azulejos, azulejos por sua vez também pintados, cada um com um colorido de tintas que uma criança executou – três que de relance eu lembro: um sol vesgo, tartaruga sobre azul escuro, estrela de 6 pontas e 2 triângulos sobrepostos assinado Daniela... – e do outro lado da rua outra mudança de área em pó de caliça para provável construção de outro prédio; fora os crimes, banais, como muito ou todo crime na cidade, como esses: na R. Kansas existia uma árvore cujo tronco parecia A Valsa, escultura de Camille Claudel em que o casal se abraçando sai e descai do metal volumoso – decepado, resta só o toco, base fixa da dança, anasarca; e o ipê-amarelo do quintal da minha vizinha – um dia desses... decepado idem. Viva a mudança viva o progresso, viva a temperança, do volátil; já que nada se cria tudo se transforma a cidade está se criando, transformando-se. Aliás cemitério pode ser casa dos mortos mas o que é mesmo é do grego, koimetérion, “dormitório”, pelo latim coemeteriu, como diz um outro dicionário já que afinal iniciamos aqui hoje com definições passando a seguir a mortes e reformulamentos. O poema não trouxe; ainda não foi de hoje. Mas por falar disso, ponho o trecho de um outro, de outro poeta de outro livro, a ver com esses lampejos de palpites urbanos: “A cidade é o pelicano / que amargo se devora / e expele os resíduos / de fumo e de alimentos / e o sal triturado / na máquina das horas”. É de Bueno de Rivera; seu livro: Transcendência do Lixo. Do caminho: quando vinha àqui, a quem (que não se diga que “à qual” é que é certo, já é mais que tempo em que as praças pra mim são pessoas) a quem agora me somo na paisagem, um carro com dois senhores e uma senhora idosos me parou e perguntou Onde é que é a Rua Soberana?; fiquei zonzo, logo eu, que deveria saber e já, é aquela rua da C, o senhor do banco da frente murmurou não tem uma praça...?, m'esclareceu, indiquei o sentido fácil, eles seguiram e eu segui, eles lá e eu cá – eu cá: onde ao redor com essas ruas, de que não faço ideia de me lembrar dos nomes. Mas estou a vê-la: aqui, nesta; praça ao vivo na clara tarde. Adeus, F.
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(calçada) ..... Acho que já falei disso mas repete-se, há anos que está lá e não descora, é um deus – DEUS – pintado em pequenas letras sobre o concreto, em tinta azul a pincel ou a dedo, de esguelha a quem passa indo ou quem passa vindo mas legível, não sei desde quando não sei a razão de o terem feito não sei quem ou qual foi a vez que o vi primeiro, vai ver veio da pausa quando pintavam outra coisa, vai ver foi promessa ou sobra de uma frase apagada, vai ver foi só casual por quem ou por que ou quando não sabe-se nunca; est'ali, quem quiser comparecer compareça, é uma calçada à direta da R. Texas entre as Geraldo Bourrol e Capimirim, a comprovação é certa e não sai com a chuva, a evidência não sai com a chuva é o que quer se dizer, se ainda houver quando a quem lá chegue.
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(rádio) ..... Pelas ondas dele a voz da locutora: a média de vida do brasileiro aumentou, 2 anos e meio, mulher 72 o homem uns 64, no hospital municipal do Campo Limpo houve uma quota elevadíssima de mortes naturais em pouco tempo, vão investigar, no Cultura Artística estreia a montagem da ópera Os Sete Pecados Capitais de Kurt Weill e Bertolt Brecht. Ingressos: 80 reais os mais baratos, de 80 a 120 o resto. Aposto como a maioria dos pacientes vivos do hospital do Campo Limpo não sabe e pouco se importaria de saber disso, como a maioria esmagadora do povo brasileiro, seja além ou aquém dos 70 anos. E à maioria, se soubesse, com certeza seriam os menos caros, não os mais baratos os R$80 do primeiro preço. Chiado, mais notícias. Chiado. Volta a música.
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(cabeça) ..... É de noite mais uma vez, os atores devem estar em cena (não no palco da F, no do Cultura Artística)... eram cerca de 60, acrescentava a notícia... eram mais de dezena os ex-pacientes do hospital... a água da piscina redonda (será que a Lua a enche?)... a cidade-turbina... O sal, dos suores, na máquina das horas.
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3 12 01
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