VV 33

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(E) ..... Há três dias sobre aqui havia um céu com grandes rombos, o sol acendia a borda dos buracos, o azul cobrindo os furos ao fundo. Anteontem também, mas não tanto; as nuvens já se grudavam mais e os furos não eram furos, eram rachadões, esporádicos. Hoje também mas nem grudado aos trancos nem aos solavancos dos rombos luminosos, hoje é mais espaçoso e entre os espaços montanhas de branco com cinzas de água embaixo, tudo é de água, em estado gasoso passando lento, passa também o sol, forte e bom, de chapa através dos espaços. (Uma sombra; uma montanha sobrevoa a incidência; incidência do sol nessa partícula do planeta.) A praça é cheia de luz. Os bancos quase todos vazios, digo quase porque naquele havia um casal, conversava se beijava e já não está mais, mas naqueloutro um homem se sentou e pensava ainda sentado está e pensa. (Montanhas; águas.) 3, 7, 5 são os números em vermelho daquela fachada do prédio. Esta árvore aqui atrás no canteiro é a única desfolhada, os galhos secos como se levara um raio, parece uma paineira e julgo sê-la, como costumo fazer com as árvores (paineiras) que costumo julgar. Num outro dia desses e também já a escultura da senhorita Elisa Bracher me pareceu a mais bonita das suas, inclusive do que aquela ao lado da Pinacoteca da Luz, que me pareceu a mais bela na hora, na hora de agora é com certeza esta – pela simples beleza, sintética simplicidade enxuta, que as outras não têm (tanto quanto esta, agora) – quem sabe ao voltar à Pinacoteca um dia volte a encontrar a primazia daquela. (Outra sombra; passa montanha; há áreas em que é camada, camadas de véu de gelo (estratos? cirros?), urdimentos de vapor rarefeito, vé'laltíssimos.) O chão multitracejado de ladrilhos e luz. O guindaste sobre um outro prédio novo, finalizando-o, mas hoje parado porque hoje é sábado e pra lá das 16. Os troncos nos gramados, os bancos (vazios mesmo, exceto este, assim), o sabiá passa a dois palmos do chão ladrilhado seccionando a praça numa diagonal. Falando em nuvens: ontem, na cf, via-se uma incrível, monstruosa, única, laranja-chegando-ao-vermelho pelo sol no fim da tarde, quase imóvel e inamovível com muitas ondulâncias nitidíssimas, só usando muito superlativo; o azul do céu em cima, liso, embaixo muitas outras, maciças, nas quais lilases e rosas se confundiam (muitíssimo) e relâmpagos, silenciosos, acendiam de vez em quando as mais cinza enquanto a de cima, acesa, se mantinha e pareceria para sempre ou diga-se logo: eterna – se não fosse essa passageira transitoriedade delas, que justamente lhes dá a beleza (marcante (marcantíssima)). Ah. Adeus, E.
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8 12 01
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