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(Memorial do Imigrante) ..... Brás. Dependendo da referência há a que diga que é Bresser, outra que é Móoca, outra que é Belém, digamos que é Móoca digamos que é Bresser, digamos que também é Belém, digamos que é Brás. É um prédio de térreo e primeiro andar, amplo, há cerca de doze arcos à direita e à esquerda da entrada principal, na varanda, hoje todo pintado de bege-magenta em dois tons; entre a tal entrada e uma outra na rua ladeada de grades uma área, jardins, árvores, pequeno estacionamento em curvas, bancos brancos de ferro, aqui está-se em um deles, e escreve-se, ou tenta-se. O dia deixa. É limpo de sol e céu, calor mas bom, a rua ali além da grade é sem saída, por isso calma, no seu fim cruzam uns trilhos, de vez em quando passa trem, audível, seus sacolejos. O ingresso é 2 reais; acho que nesse momento (último dia do ano a visitações) sou o único visitante, de vez em vez passam funcionários, uma moça que toma conta, um dos seguranças, um da administração com um papel... e piam os pássaros. As duas estátuas ante o pequenino espelho d'água ante a fachada são paradas e olham como estátuas, uma quase ao céu, a outra o chão. Na água cágados sobre pedra, tartarugas que tomam sol. Muita gente, moradores atuais da cidade, milhares, tiveram antepassados hospedados aqui, por aqui adentrando na megalópole, época em que nem era tão mega, tão megadoida assim. Japoneses italianos espanhóis árabes libaneses alemães portugueses dos quatro cantos e ascendências gente dos quatro cantos e nações... A construção do prédio é de 1886 a 88. Ali há salas de exposição. Objetos. Passados pelas mãos, agora sem seus afagos, entre vidros, sobre bufetes ou estrados, minipalcos. Um porta-joias do Sião (1887). Um porta-rapé, um porta-pó-de-arroz, um porta-creme. Lornhão. Óculos. Bacias. Estojos e uma bolsa de água quente de metal, Itália, 1930. Espelhos, malas, a inestática do rádio e gramofones, um casaco e a maquete de uma caravela. As prensas as balanças as panelas cujo trabalho agora é se mostrar; um arado sem data idem, idem uma semeadeira artesanal; em silêncio, ou aram e semeiam parados no tempo. Numa imagem fotográfica centenas de pessoas em Salto em 1920 olham para o fotógrafo assim que ele as clica, é uma “saída de operários da indústria têxtil”. Numa outra um outro também olha, sozinho, mas com o mesmo olhar direto ao foco da câmera e ao clique como as centenas no futuro, no futuro porque este está com seu bigode e detrás da mesa entre frascos no Laboratório da Hospedaria dos Imigrantes dez anos antes, 1910. Nesta ninguém nos olha; são dois, num “atendimento da Enfermaria dos Imigrantes”, uma enfermeira atende um paciente padece, talvez se olhem entre si trocando assuntos, a enfermeira atende ao enfermo o enfermo é por ela acudido, cerca de 1930. Cigarreiras – com cigarros impecáveis – nunca, para sempre inusáveis; cartas; documentos; letras a mão e caligrafias de origens várias numa mesma cercania emolduradas; o belo samovar e também da Rússia a série de bonecas (Matrioska), do shamishen com uma das cordas rompidas não sai som e as outras duas esticadas não são tangidas nem tremem com a brisa que aliás na redoma não entra. O dia é mesmo bom (conquanto: pouco a pouco as nuvens vão ocupando o cenário). (O trem apita; passou, apita de novo, passa, apitou de novo, de novo.) Ali a uns quarteirões tem aquela ruela, rua/vila – Dias Grillo – cuja cara é engraçada, com suas casas simpáticas, parece ser de um tempo, parece querer ser de um tempo em que a civilização tinha um quê, mesmo, de civilidade. As ruas; os galpões, botecos, a estação. Bresser. Brás-Belém-Móoca. Aqui um ponto da cidade de São Paulo, região: Leste.
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(do viaduto 9 de Julho) ..... O mastro da Praça da Bandeira hoj'está com bandeira, é uma imensa, brasileira, muito bonitamente balançando a um vento lento mas forte (não é necessariamente questão de pátria, é estética: o verde predominante, a mais no amarelo, a mais no azul, um verde vivo de tom luminoso mas claro que iluminado pelo dia, e o sol faz nele verdes, e o vento faz deles dobras, macias, de verde, verdes, em pleno ar (azul (melhor: transparente))).
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(memória) ..... Na Praça da República, os canteiros em linhas curvas, as grades que marginam, uma e outra fonte, as águas, pelas beiradas pelos cantos, nas muretas ao redor das árvores, muitas pessoas, sentadas, agachadas, esparsas, em silêncio.
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21 12 01
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