VV 36

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(memória) ..... Há meses na tela do computador meu pai me mostrou uma imagem, era a de uma foto antiga, preto-e-branca, início do século XX, na qual de frente se via uma casa ou quitanda naquela esquina pontuda da qual cada uma de um lado sobem as ruas Riachuelo e a do Ouvidor. Um homem passava à porta, ou conversava com outro ao balcão, não lembro. Há uns dois dias passei lá e do mesmo ângulo revi a esquina, hoje tem um prédio, a casa ou quitanda sumiu não sei quando, as duas ruas ainda sobem. Não sei que ligação: mas parado por um momento, lembrando, revivendo, é como se uma e outra imagem se intercruzassem, mais, as locações de que são e eram feitas, tanto o preto-e-branco daquela quanto o colorido ao vivo da outra, tanto ainda o momento da tela do lado de cá do computador – os tempos delas –, fazenda tecido fio. É porque na cabeça é que o novelo embaralha, bobão, é porque é da memória ser afeita a negaças, bocó, você não sabe? É, vá lá que seja, mas não é isso só. E hoje, relendo um texto de Guimarães Rosa, aquela frase que me depara: O contrário do aqui não é ali... É uma onda, funda fusão. É uma corda – não só a atar imagem a imagem, em cauda de pipa ou cadeia ou correnteza de anéis ou elos de papel crepom, mas revivem os seus agoras, recíprocas, apenasmente juntas – corda que de dentro se estica com um vrim ou um vrom e essa sua tonalidade dela tem o tom da explicação. Explicação que se eu pudesse dar mais decente eu daria.
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23 12 01
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