VV 38

.
.
.
(fc, 19h) ..... Eu não sabia mas podada a árvore da calçada da vizinha agora sei que aquele edifício da H é visível daqui. O traço em vermelho, dividindo-o em pé, o azulado dos vidros em cinco dos seus últimos andares praticamente de frente pra cá acima do telhado do açougue. Sua luz não é como dantes, os fachos projetados para as nuvens ou no céu vazio delas – por conta da economia de energia da nação racionada (racionada a nação, a energia, a economia?), a economia de energia da nação racionada.
.
*
.
(pessoa, 2) ..... É um senhorzinho com seu 1 metro e uns 60, 60 centímetros não anos, talvez uns 80 é o que mostram os seus documentos. Já vi umas mil vezes passando na minha rua, cabelos brancos e calvo no meio, um pouco mancando, anda ligeiro, o ombro direito mais baixo que o esquerdo, recurvo abaixa o olhar mais que os ombros, olha o caminho, olha sempre o caminho. Mas hoje eu nunca sabendo onde morava soube: ia à minha frente na rua e de repente para, tira um molho do bolso e uma das chaves na fechadura do portão de ferro; mora numa daquelas casas de esquina entre as ruas Dr. Octávio de Oliveira Santos e Kansas. Por que dizer isso? Para dizer: é um senhorzinho, com seu 1 e uns 60, de altura.
.
*
.
(fb, 22:54) ..... A janela da sala no escuro – só tem a luz branca, do poste, e a amarela atrás do postigo da porta de madeira do vizinho – pode ser um túnel para o inamovível espaço entre as margens do asfalto iluminado. Inamovível – no entanto via, para tráfegos. Iluminado também: os meios-fios, as grades, tanto de cá como a de lá adiante, a cerca branca a proteger a árvore mais ou menos nova, crescendo.
.
*
.
(cf, 00:00) ..... Nada a dizer. A não ser aquela luz vermelha sobre o prédio, a outra luz vermelha sobre o outro prédio. Árvores-vulto, sombra na parede em silêncio, – vento? –, cadeiras vazias, ou: sem gente por enquanto. As nuvens são uma só única; coletividade unida.
.
*
.
(janelão fundo, 3:15) ..... Duas estrelas inesperadas riscam um segmento de reta no céu aberto depois de há dias não. Enquanto se as olha a respiração embaça o vidro, daí a tanto é a visão a embaçada pelo filtro da névoa na presença do vidro e seu liso frio. As estrelas ainda se distinguem entre o desfoque que as peneira. Se desloca um pouco a respiração; a neblina passa. A alamanda na “mata” entre as plantas sobre o muro – é nítida apesar do escuro, e nitidamente em amarelo-penumbra na escuridão, só, assim visível pela luz que vem da rua e atravessa o corredor até chegar aonde está a acendendo.
.
*
.
(cf, + ou - 4) ..... Um pio ou um canto também é nítido. (E depois de segundos: um avião longínquo.)
.
*
.
(“, 8:00) ..... Hosana. É o sol, é o azul, é o vento brando, brísio. E pela passagem entre as cortinas de uma só fresta de uns dois palmos balançando pouco o sol subindo põe um pingente de luz na parede de dentro.
.
*
.
(fb, 18:45) ..... A vizinha da casa verde lavava o quintal em volta da roseira e para lá da sua grade; afastara a cadeira do vizinho e ela olhava abaixo do degrau da varanda, oca, com os pés plantados na molhadeira do chão. Ela a cadeira, não a vizinha; oca pode ser a cadeira e a varanda (oca por sem ela). Lavava apesar da nublagem do dia e iminente possibilidade de chuva, e agora está lá: de volta no lugar de praxe, sua tradição específica; cadeira na varanda, para o homem. Um sabiá cruzou a passo-a-passo o caminho entre as roseiras do portão de entrada à porta na varanda. Um outro (não um sabiá, um pássaro pequenino, pequenininho mesmo) assenta cada pata sobre a cornija de uma das pontas do muro e cisca ou se espreguiça ou se seca sacudindo algum banho tomado; passa um carro, 2, 5, rápidos fazendo barulho e um vento, não o espantam.
.
*
.
(ruas) ..... É em itálico – porque não estou acintosamente em nenhuma – mas não é bem imaginário porque elas existem, existem enquanto visão que delas tenho, evocação pode ser dito, rememoramentos: por exemplo quando digo umas do Belenzinho, Iperana e Azorica e Limonita e Dr. Ronaldo Porto Macedo (depois vi no guia, as nomeando), de uma vez em que às suas portas passei rápido e passageiro tive a impressão de vilas, de ruas de moradia e muito simpáticas, nem sei se todas ou duas das quatro; e depois os topos das sepulturas do Quarta Parada sobre o muro, e aquela que é uma alça da Av. Morumbi formada pelas Caetano José Batista e Pedro Noel com ligação à Carlos Buzzi que vem da Pássaros – um dia não esqueço de ter andado lá e a tamanha calma; e a Augusto Severo em outra visão rápida de sua boca que tive hoje, os seus prédios lá dentro, fachadas mais de outros séculos, os carros entrando, curiosa; e ontem em não sei qual dois homens atravessando e sua caminhada apesar da distância era como se focassem uma câmera de alta precisão na luz fraca mas bem delineada do sol; e em tantas tantas tantas tantas tantas calçadas, mendigos, uma gente abandonada, mais de uma, mil, às vezes famílias, pode-se dizer comunidades, são sociedades inteiras, são a sociedade, sociedades; e nem hoje nem ontem, um dia desses: no verão quando os pingos grossos de uma chuva vêm e decantam e você numa rua anda pode-se sentir as diferentes temperaturas, de metro em metro ou meio em meio, um vento novo ou nova história contada de chofre, os perfumes de cada chão. Mas enrolo? Isso, cabo a rabo, é para inserir o que quero, um trecho de texto que não resisto e me conquista pra ser posto por inteiro os seus quase cinco parágrafos – de João do Rio, originariamente publicado em 1905, incluso em suas crônicas A Alma Encantadora das Ruas:
.
............. [...] Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. É fatigante o exercício?
............. Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja...
............. É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela, como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem das Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.
............. É uma espécie de secreta à maneira de Sherlock Holmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite ou numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai. Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.
............. O flâneur é ingênuo quase sempre. Para diante dos rolos, é o eterno “convidado do sereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo, sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tanto ver o que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observações foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...
.
......... E temerariamente extenso mas sendo, posso ainda acrescentar da Barra da Vaca de João Guimarães Rosa: [...] a rua, imponente invenção humana.
......... (As imagino. Continuo imaginando. “[...] era só na cabeça que achava algum vestígio, reminiscências, cousas truncadas”, como a D. Paula a personagem de Machado de Assis, “farejando o ar agreste da noite” no seu conto homônimo.)

.
*
.
(cfefcefbejanelão..., sem hora inscrita) ..... O apito do guarda-noturno, seu som se movendo. O apito do guarda-noturno ele e o seu som se movendo.
.
*
.
(fb, 5 para as 5) ..... O mesmo túnel ao mesmo caminho branco. Grades, meios-fios, cerca da árvore, postigo. São mesmo os mesmos?
.
*
.
(“, 6) ..... O mesmo branco do caminho. Azulado.
.
*
.
(quintal/janelão, 0 e pouco) ..... Uma lua – não nascente, não nova, não minguante, inopinadamente cheia e se mais cheia explode – aparece e está sobre as nuvens, as acende, bastante: porque não tão grossas e com muitas fendas, itaimbés, tapete céu pano de rachaduras, charco por sobre, paul celeste. E embaixo, nós, a folha, galho, calha e telha, a cidade, tudo, recebe os seus reflexos como um outro céu ou anticéu a espelhando, refletindo os desenhos do bordado luminoso que passam. (E o disco gaseificado, redondo, redondo, redondo.)
.
*
.
(cf, 21:34) ..... As nuvens, muitas, e num único rasgo a Lua derramando em cheio numas águas em estado gasoso, mentira: tem mais rasgos, vários e neles o céu liso-fundo mas só naquele, rasgo-ao-meio, não de todo aberto, a Lua é luz num rapto porque é onde: o luar branco atinge e pinta.
.
*
.
(idem, + uns 10 minutos) ..... A luz do quintal acesa, nas cadeiras, na mesa, pelas sombras delas, nos vasos, é mais forte do que a do luar à distância. É mais forte aqui, nesse ponto, e pouco, e para olhos próximos; o dele é menos forte mas forte ao longe, para muitos, para muito – apesar de cadeiras e mesa e vasos serem brancos (e tão brancos quanto?) – e o contorno de pelo menos um quarto do nordeste do disco já é visível na nuvem rareando – se rarefazendo.
......... (E dá-lhe mais uns 10 minutos e Lua: absolutajanelaadentro.)

.
*
.
(pessoa) ..... É um garoto, um rapaz de uns 20 anos, talvez seja mais na aparência jovem. Cabelo preto muito magrinho. Magro ele, não os cabelos. Passou e já passou umas mil vezes como aquele homem, passa e também ligeiro, passo-a-passos curtos acelerado-constante, olhar baixo. Só que assim que vê um outro – qualquer outro – e os olhares se cruzam, para cumprimenta oferece a mão para aperto puxa um papo. Dependendo do interlocutor o papo dura, dependendo dura pouco, mal dá liga. Seja como for ele quando se retira prossegue na calçada em que vinha e no mesmo ritmo, cadência, levada e empenho – passo-a-passos curtos, constante-acelerado. Há quem vá pensar ou pense, ou tenha pensado à custa dos muitos encontros, que seja bobo, pancado, “perturbado” ou cientificamente com distúrbios patológicos de natureza neuro-psíquica; há quem possa pensar que, perturbadamente, anomalíaco, seja muito mais avançado do que qualquer outro de nós, “normais”. Pelo menos passa e cumprimenta, para agrados, para espantos e até indignações, pelo menos faz o que fez há três dias: ali a um quarteirão costuma parar um carro de polícia, geralmente um ou os dois policiais saem e conversam com o pessoal da consertadora de TVs e geringonças eletrodomésticas, nesse dia a policial ficou ao lado do carro na calçada do outro lado da rua de colete à prova de bala mãos postas nas costas entrecruzadas os cabelos de mulher de um comprimento não à mostra num coque sob o quepe revólver no coldre cinto com cassetete os pés bem plantados; o nosso amigo chega e sem um senão reticente a aborda esticando a mão num cumprimento. Eu não sei se ela já o conhecia de outras, porque a reação foi séria e dura como num susto ao máximo controlado – mas não disse alto mãos para cima palhaço, pés afastados e ameaçando à queima-roupa um tiro: estendeu o seu cumprimento ao cumprimento, foi ouvindo o moço, até quando deixei de vê-los ficaram conversando. Ficaram conversando.
.
*
.
(fc, 22:39) ..... O vizinho lá da esquina faz uma ré e embica o carro, com algum botão faz o portão de ferro se mover e como um castelo dos nossos tempos abre-se a ele e ao carro, nheco-nheco-nheco-nheco. O vizinho da frente... não está sentado. A cadeira, o jardim bem cuidado, a casa verde ainda é verde, quando e se for de outra cor mudará muito. Quem diria que eu ainda seria aquele que disse “através daqui não se terão mais notícias”, disso, dessa casa, esse verde, jardim e cadeira. Roseiras. Há poucos meses esse vizinho sofrera uma nova crise e com seus problemas cardíacos foi novamente à beira da morte, parece que nunca tão grave, cheguei a me imaginar: a cadeira mas sem ele, ou “sem mais cadeira e para sempre”, “a casa é para sempre diferente” – mas acontece que de novo é de praxe ele sentar-se, está vivo, revê sua paisagem, ontem e anteontem andava no corredor entre as flores, é fácil ir de repente e se deparar: a cena que lhe concerne; e concerne à rua, à casa, aos que ou ao que passa, a mim quando passo ou parado o olho; sentado na cadeira na varanda na varanda senta-se à cadeira e sentado olha. Outro dia mesmo: chovia a cântaros, ele lá, assistia à água (a rua rio). Assistia e com a mesma aparente inexpectativa de antes dos infartos ou descompassos cardíacos. O vizinho. As roseiras. A rua.
......... A janela fechada para lá das rosas é um quadrado, quadrado compacto. Verde.
......... Mais de ruas. Pode ser dito: se se vai pela D. Pedro I (avenida) o prédio do museu e o monumento vêm vindo e são cada vez mais nítidos por entre as aleias das árvores na reta dos canteiros; à frente da Rua do Fico o rio é muito feio, feíssimo, não é rio: corrimão de ferro sobre as margens, margens de concreto, concreto em colunas como dormentes os ligando – e cobrindo o que ainda há ou houvesse de rio; rio e museu: do Ipiranga; aquela escadaria visível à direita da Radial Leste sentido Centro que segundo um mapa talvez seja a Rua Oliveira Monteiro ou é perto, aquela rua sem saída que sai da Piauí pouco antes da Dr. José Pereira de Queirós é inusitada e tem uma casa bonita e atraente ao fundo ou ao menos inusitada também, a Rua Florenville e a Avenida Vítor Manzini logo à subida da Ponte do Socorro são ligadas por um beco, autêntico beco, beco: rua estreita e curta como diz o dicionário. Pode-se dizer: muitas, tantas, que talvez redija ao ver, só mentalmente, num futuro. Pode-se dizer: Um dia, a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. – ainda de João do Rio, ibidem (Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida. / Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça. – Murilo Mendes, “Mapa”)
.

26e7e8e30 12 01
.
.

Nenhum comentário: