VV 39

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(o Mercadão – Mercado Municipal de São Paulo) ..... À entrada, no alto da fachada, tem a cara dessa mulher em forma de estátua com cabelos e um vaso de frutas de pedra em cima – há reproduções dela a espaços, direita e esquerda, mas esta está bem no alto de uma das portas que é a principal embaixo –; Diana, Ártemis, uma Deusa? abençoando a colheita ou a fartura das ricas caças... ou mera entidade mundana, em pedra, abençoando as colheitas e ricas caças. De quando é a construção? eu não sei, vou ver se encontro em algum canto. A arquitetura é bonita com seus vergalhões e claraboias em cima entre os arcos de concreto no pé-direito vasto mas eu pensei que a manutenção estivesse melhor das pernas – tem infiltrações, tem camadas de tinta descascando, tem coluna em que uma mancha a pinta de umidade negra de carvão. Mas tem: a vida embaixo, do comércio passando, dos vendedores se ajeitando, dos animais mortos, de tudo quanto é fruto colhido e bem disposto em tabuleiro ou caixote. Os cheiros das azeitonas especiarias muitas pimentas, o cheiro da manga, do caju. Abacaxi. O cheiro das salsichas linguiças defumadas ou revestidas de uma fritura, presuntos. Lichias. As uvas. Aquelas melancias estão chegando dentro da carroça humana com uma cama de palha para abrigá-las. Porcos javali pernis, pistaches com casca pistaches sem casca iranianos e não, os corações de alcachofra estão em exposição dentro do vidro que os destaca na luz. Um faro de cachorro aqui ficaria ligeiramente ensandecido. Carregadores com carros de mão cheios de caixas cheias de produtos passam carregadores com carros de mão cheios de caixas cheias passam carregadores com carros de mão cheios, passam. Deus teve o cuidado de dispor em série as guelras daquele enorme atum que se revelam quando o cara da bancada lhe insere eficiente a lâmina do afiado facão abrindo em flor a cabeça do ex-peixe vindo à tona o esmero da disposição das guelras em feixe agora sem respiração nem água só em ar, o nosso ar. Peixes-espada com as espadas decepadas, olhares ictíicos: milhares, infinitos, a um mesmo ponto enquanto da claraboia cai luz? – sangue no chão. Camarões lulas polvo; polvo lulas camarões; camarões, polvo – e lulas. A simpatia de uns vendedores diz bom dia o que deseja pode provar à vontade o que mais que quer; um ou outro nem tanto, aquela mulher por exemplo, avental e monossílabos, cara fechada. Bebidas. Vinhos. Licores, uísques; a garrafa de aguardente é branca com um rótulo prateado. Lanchonetes cana e cocos, pastéis e sanduíches, a um canto além daquela esquina do Café chamado Machado há duas paredes de viveiros nas quais aves vivas piam chiam improvisam discursos e os itens assinalados atravessam e vão além do engradeamento; aí, em cima, um dos vitrais, este que mais me chama atenção: são uns mercadores retratados, ao ar livre, céu sobre, nuvens, colorido mas mais em lilás/violeta/azuis e tons de roxo, especialmente talvez pela manhã bem cedo pouco a pouco ficando não tão jovem que incide nele desse seu suave e homogêneo modo. A romã no caixote inclinado tem a cor que vem do matiz digamos assim da maturidade máxima. Se se juntasse lugar a lugar de onde se origina tudo isso quantos quilômetros milhas metros quadrados ou cúbicos ocupariam? de quantos estados, países, oceanos vem?
.......... Achei (em um endereço internético depois): como tantas outras da cidade a construção, em “arquitetura neobarroca”, foi projetada por Francisco Ramos de Azevedo e os vitrais são do artista russo Conrado Sorgenicht Filho; inaugurado em 25 de janeiro de 1933, através do decreto número 35.275 de 06/07/95 passou a denominar-se “Mercado Municipal Paulistano”.
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27 12 01
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