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(televisão) ..... A Mangueira desfilando. Muito rosa, verdes... muito verde, rosas. Os tons do samba e o bumbo. Bumbo. Bumbo. Mais tarde amanhece. Terça-feira gorda. A paisagem enxuta: (do céu simplesmente) azul, nuvens; (no quintal, chão) cinco formigas interrompem a linha do caminho consecutivas, catam juntas irrequietas o grão de um grão que caiu do meu prato de almoço, cercam-no, puxam, uma sobe no topo o que não impede o trabalho das outras, pouco a pouco se desviam mas mais de idas que de voltas chegam ao objetivo – que é a entrada, túnel, da saída de escoamento do canteiro. Outro grupo não se intimida em cercar a abelha moribunda – era uma que vinha decolando, mas o voo raso apegado ao ladrilho, agora está parada ao ímã, o ímã do fim sobretudo, imobilidade exaurida (ela e o chão são uma só coisa?), as formigas a vasculham. Curiosas, rápidas; comunicativas de antenas.* A gente, gente à beça (Ibirapuera, parque) seguindo várias setas de rumos entre as árvores, asfalto, gramados, vendedores ambulantes. As três garotas de cabelos coloridos em contas; o homem dormindo na sombra com o filhote de cachorro dormindo entre o braço; o policial de bicicleta ouvindo o relato da senhora para ela muito importante; dois garotos numa bicicleta a toda quase trombando com a de uma garota fazendo a curva à direita; o céu dissolve o cinza, o sol volta, se devassa naquela região sobre as copas, mais alto, atinge sem preferência; o amálgama de sons e vozes, falas, música – Babel de atividades dessa nossa área tangente, faixa de altitude –; a passagem do milho cozido, a roda em volta do artista de rua invisível lá dentro, o pai estende a mão ao filho mas ele de chupeta passa correndo e por um momento não lhe dá bola; será qu'eu já vira o parque assim tão humanamente em agito. (mais tarde, de carro na rua) A Lua uma fina curva viva, fina, viva, curva; a Lua em viva curva fina. (mais tarde, num rumo de volta pra casa) As ruas da Lapa, altas, descendo, o Pacaembu em curvas, outras – como sempre debaixo daquele passadiço ao lado do estádio pessoas entre trapos morando –, como seria a geografia disso tudo há 50, 100 anos? 500, 1800, o que dirá um século acelerado? (TV) Na Bahia o Carnaval não acaba, tão sem começo quanto sem fim talvez como as abas do Tempo, como as ondas que lá em Amaralina não param por trás da avenida dançando e nas cores dos pontos televisivos. Num outro canal o céu se reflete entre os vãos de gelo sobre a água e uma baleia emerge e mergulha sob o som sutil de uns acordes e piano. (das janelas, do quintal sem telhado ou tenda) O Cruzeiro do Sul ao vivo, a seu sudeste, a dois dedos, uma estrela quase vermelha (será Marte? outro planeta?) cintila oscilante/oscila cintilante o seu brilho fixo, concentrado. (sala fechada) Desde a rua o dia já ia, talvez desde a manhã ele se esvaísse, agora a cadência decai, diminui, míngua, ou melhor, a cadência não, fica sempre, diminui o volume, a sua intensidade suavemente, até um ponto inaudível, o ponto que não se ouve, em que aparentemente é completo silêncio.
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27 02 01
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* ...“as próvidas formigas...” como diz Brás Cubas (XXXI).
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