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O que será que a menina tá pensando no banco da praça
Olha só que engraçado aquele homem comendo uva-passa
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André Abujamra / Karnac, Velho no Metrô
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(Vilaboim) ..... Cidade, particularmente a capital, é também uma das definições-praça do dicionário, mas aqui é pequena, é um canteiro em triângulo entre as ruas Piauí, Aracaju e Armando Penteado, pequena porém de certa forma famosa, num dos bairros mais ricos de São Paulo, árvores e plantas e grama dentro de cinco canteiros, vários segmentos de grades esverdeadas de mais ou menos 1 m os contornam, entradas para os bancos, de madeira com uns encostos para braço de ferro preto. Desse em que me sento tem a fachada da FAAP lá a uns 500 m, tem a banca de revistas aqui à esquerda, tem de todas as árvores a maior que é esta (figueira?) no centro, um círculo de duas faixas de paralelepípedos lhe é base, os (jacarandás?) também são grandes, cerca de uns seis nas calçadas – os jacarandás são maiores a figueira é mais larga, maior de tronco (mais grosso) e maior de área de copa. As muitas lojas, aquele prédio de colunas e são dois blocos de banda (se olham suas janelas) unidos por rampas. Cilindros as colunas; LOUVEIRA é a palavra escrita com letras de metal na base da parede do bloco de esquina. Alguém canta não sei quê, sons de uma melodia sem palavras ou palavras que a melodia suprime – muezim? – e eu não consigo saber de onde vem. Aquele casal de senhores bem idosos de mãos dadas andam, quase se sentam naquele banco, mudam o rumo e na conversa um aponta ao outro um outro prédio comentando o que, eu não sei. O tempo não anda firmando; cada planta dança com o vento num ritmo dependendo do seu peso que tem; nublado, às vezes um furo e o sol, como é o caso agora. Aquela pomba desde o início enrodilhada dorme sobre o galho grosso da figueira, chão pra ela. Não morre, pois encolhida desse jeito só pode estar viva e se mexeu um pouco. O casal com carrinho de bebê; param e aqui na frente o ajeitam (carrinho e bebê) põem um pano como cortina. A folha seca dura raspa o chão. O chão é de ladrilhos quadrados com aquele motivo do Estado de São Paulo, aves estilizadas sem asas de costas ao leste. Do galarim dos mais altos galhíolos desce o canto dos pássaros, do galarim do asfalto os pneus e motores em giros, sobem e se propagam. Fim de ano – a cidade tranquiliza-se. Agita-se também pela passagem mas o agito não é o mesmo do resto dos meses. Rojão. Fogos ali em direção ao vale, do Pacaembu, depois mais outro e a direção indefine-se. Talvez porque não sejam mais fogos: trovões. Um batuque – tambor, bumbo e tamborim – parece vir descendo a Aracaju e são mesmo: cinco rapazes, cada um com um instrumento, vêm quase em fila e na praça adentro se sentam naquele banco dali; tocam, ensaiam, tocam baixo e não se falam, as cinco caras sérias apesar do ritmo parecem esperar o resto da banda que não vem, que não desce a rua com cem zabumbas, surdos, foliões, infantaria de cuícas, tropa de agogôs. Eu ia escrever: a pomba ainda dorme; olhei e só o galho vazio, se foi. Venta. Tapou-se o furo. Naquele banco em que os senhores não se sentaram se senta uma mulher que com a mão no queixo e a bolsa no colo olha um ponto talvez sem foco e o mira pensativa. As lojas, o prédio com as rampas, o tabuleiro da triangular área de canteiros com o seu recorte. (Um lugar, diz Lyotard, tem de ser como um templo para se fazer paisagem. Mesmo uma praça, numa manhã de inverno, tomada por milhares de veículos. Um tempo, espaço-tempo neutro, sem história nem geografia. Onde o caminhante solitário pode impor silêncio à intriga dos desejos e da inteligência. Não é preciso ter experiências ou opiniões sobre a paisagem. Ela existe sem associações ou sínteses. É preciso emudecer o espírito para que possa aparecer a paisagem. – Nelson Brissac Peixoto, “Ver o Invisível: a Ética das Imagens”) Não é inverno nem há milhares de veículos a tomando. Não sei se é templo e não sei se poderia impor silêncio a qualquer intriga de desejo ou paisagem transeunte. E não creio estar tendo nenhuma opinião precisa sobre aqui, sobre esse agora existindo. Calo o espírito. E mesmo porque o texto citado continua: Aqui não há, definitivamente, como falar dela. Como, então, retratá-la? – Chego a retratar? Não, não retrato. É só ali aquelas ruas, o vento maior, uma mulher vem com o bebê no colo, um ônibus, os bumbos, aquele sujeito de uma das frentes das lojas ajeita a gravata e aperta o nó, retapou-se o buraco. O sol em cima, escarafunchando o solo. Mais rojões, rojões sim, fogos, não trovões. Algumas placas espetadas no gramado indicam as plantas; essa diz: Raphis excelsa, Palmeiras rapis; Família das palmáceas, Origem: Ásia e norte da África.
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(Buenos Aires) ..... É praça mas não é praça, “parque” diz a placa e é bom que se diga, vai que se ofende os moradores ou frequentadores assíduos que se orgulham de que parque seja. Mas é uma passada rápida – pensava em vir aqui e com calma escrever muitas linhas, não vim, não escrevo – só: a escultura branca da MÃE no alto e no centro, os prédios residenciais que as copas mais ou menos trespassam, tapam, mas eles se enxergam, aquelas três senhoras conversando no banco. Um longínquo som de rádio – acho que é de um de pilha de um daqueles dois homens de um outro banco. As crianças nos brinquedos, o garoto mais velho dá uma estrela de costas, numa capoeira se imagina, este mirante com uma mureta, que é uma espécie de proa sem quilha e aqui não navega. Sol de novo.
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(a todos, ou quaisquer) ..... “O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.” – Machado de Assis Conselheiro Aires de Esaú e Jacó XLI
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30 12 01
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