VV 41

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............. Coroada de névoas, surge a aurora
............. Por detrás das montanhas do oriente;
............. Vê-se um resto de sono e de preguiça
............. Nos olhos da fantástica indolente.
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......... Para não deixar de usar mais esta estrofe, do ainda e constante Manhã de Inverno de Machado.
......... É cedo, a fantástica indolente tem seus olhos de fato: de sono, de preguiça em resto. O parque tem suas luzes ainda todas na ativa. Olhos amarelos, rútilos, despendendo energia, devassando os caminhos. Ainda mais claros pois o dia é nublado ­­– ao contrário do que vi previsto no papel de jornal ao sair de casa: sol em todo o Estado – por enquanto nublado mas também chuva por enquanto não tem.
......... Quase ninguém também não tem: um ou outro a largos intervalos, dois ciclistas que eu pensei serem dois mas não, é o mesmo, duas voltas já deu, e para não dizer só isso há um minuto passou um trator, o homem que o conduzia o dirigia e ao seu barulho e fez entrá-lo no caminho, túnel dos bambus. (O túnel, aliás, hoje bem túnel mesmo: escuro – a luz o devassando um pouco, principalmente nas pontas, boca e fundo.)
......... Pouco a pouco os caminhantes escasseiam menos.
......... É engraçado estar aqui de novo, hoje. O mesmo banco. De há anos. Quantos? A quantidade do tempo é aquela que dá a impressão de ser há muito e ao mesmo tempo ontem.
......... A cor do papel nessa luz mista – de luz de poste, de nuvem, de sol distante, de umidade – tem uma luz agradável, azul-cinza, azul-clara quase, transparente, acende sutilmente a folha, sutilmente se escreve e as frases se notam.
......... Um mosquito para na mão e pica.
......... Tapa.
......... À entrada pelo Manequinho aquela árvore que eu adoro, baixa e de galhos exóticos, soltara muitas das suas folhas grandes que se depositaram no chão ou na cama do do solo, como bichos – dormindo, sonhando.
......... Dois limpadores passam vestidos de verde e bonés e conversam e puxando cada um uma palma seca de palmeira ou seria uma palma de palmeira seca, o XXXXXXXXX do arrasto aumenta e decresce no segmento em que cruzam como se usassem o balance de duas caixas de som. No fim conversa e palmeiras em palma emudecem, não estão mais à vista.
......... Bem mais gentes; mas as luzes de poste continuam acesas.
......... As árvores estão todas quietas, claro que só podem estar quietas sua besta, mas não é isso: estão especialmente hoje, já, quietas. Tranquilas. E se não me enganam olham em todas as direções.
......... Recendem tranquilidade. Poderia ser uma frase boa dependendo do uso, lugar e hora: as árvores recendem tranquilidade.
......... Ops. Fim da luz dos postes.
......... Só Sol.
......... As linhas em laranja dos objetos do parquinho, as cercas dos troncos novos das árvores na Paz, aquela bicicleta alguém estacionou-a no poste de ferro e deixou-a sozinha, um perfume e penso ser de alguém que o passou muito e está a passar na pista, levanto a vista, ninguém.
......... Aquele sabiá está resolutamente parado com sua barriga laranja-barro no caminho, calçada entre o asfalto e esta grama.
......... Uma abelha vem e fica me analisando, seu zunido com ela, não me pica nem se interessa mais, some.
......... Me dou conta, a copa dos bambus e de algumas árvores tem um tom prateado que julgo nunca jamais ter visto antes.
......... Há milhares de frases possíveis a serem coletadas acerca de uma manhã ou todas, só de Guimarães Rosa tem um meia dúzia de toneladas, fiquemos por exemplo para ser mais simples e sucinto com... esta:
......... O sol cresce, amadurece.
......... De “Sarapalha”.
......... E botemos para ser incontrolável por exemplo mais...:
......... A manhã era indiscutível. Tantas vias e retas.
......... “Hiato”.
......... E para ser mais absurdo, mesmo sabendo que o excesso no conjunto enfraquece os detalhes:
......... Amanhecia – cantando o galo, em pleno desfraldamento, no redor redondo. Não há poeira arcaica.
......... “Os Chapéus Transeuntes”.
......... E aquela moça passa no trote do seu cooper e deve ser dessa luz especial porque é de uma nitidez de binóculo, e aquele passarinho passa de um galho mais baixo a um mais alto da árvore e transfere com ele o balanço, e aquele casal com a maior parte das roupas em branco tem o andar mútuo, quer dizer, sincronizado, mas creio que naturalmente inconsciente.
......... E como vou fechando, e como não há poeira arcaica, tasco o selo desse já desse agora – auróreo – usurpando de mais um poema de Machado, o seu, o nosso, o senhor Joaquim Maria Machado de Assis:
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............. Era naquela doce e amável hora
............. Em que vem branqueando a alva celeste,
............. Quando parece que remoça a vida
............. E toda se espreguiça a natureza.
............. Alva neblina que espalhara a noite
............. Frouxamente nos ares se dissolve,
............................. Como de uns olhos tristes
............. Foge coo tempo a já ligeira sombra
............. De consoladas mágoas. Vida é tudo.
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31 12 01
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* De todo canto de vestígio que eu saio, quando me afasto olho com a sensação de ter deixado ou esquecido alguma coisa. Foi o que reaconteceu agora.
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