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(fc) ..... Uma moça está dentro do ônibus quando ele passa com o sol lhe batendo no teto e no lado e nas costas, laranja de fora e mais laranja filtrado pelos vidros, na pele das pessoas, no metal de apoio do corredor e sobre os bancos. A passagem não dura mais de uns (3) segundos. Ela, a moça, está muito sentada, as mãos no colo talvez segurem alguma coisa, mão com mão, perna com perna, olha em frente espigada, toda reta em ângulos mas incrivelmente relaxada, apenas espera / sente a viagem / balança à medida em que balança – uma faixa azul faz as vezes de tiara no cabelo mais ou menos comprido. (carro, rua) Ruas da Pompeia, numa curva com ladeira uma visão nunca vista, lá na subida do outro lado um conjunto de outras ruas com casas, deve ser outro bairro, deve ser um dos mil estados da cidade continuando, deve ser o sol que ainda laranja e no fim da tarde dá assim esse espanto novo, o erro está em se pensar que São Paulo é uma, tem pelo menos umas 20.000.000, a que cada um conhece em partes, a de cada um a tendo viva de um jeito, com a sua vida a impregnando, lhe deixando rastro, marcas, influência, será que alguém já conheceu daqui rua a rua rua a rua rua a rua (aqui, que nunca se encerra), será que alguém retrucaria: mas é como em qualquer uma, toda cidade é assim viva ora, ao que outro re-retruca: mas aqui é diferente, pela grandeza, pela bagunça, pela efervescência, pelas calamidades. (de pessoas, 1) É a mulher simpática que há anos, dezenas de meses, vende qualquer coisa ali no farol – cruzamento da Bandeirantes daqui de trás. Digo qualquer coisa porque sempre muda: já vi bala, guarda-chuva, biscoito, brinquedo, refrigerante em lata...; mas sobretudo rosa. Muitas vezes vem de rosas, embaladas uma a uma em cones de papel transparente com outras flores pequenas enfeitando, e desfila entre os carros, atravessa, procura quem compre ou queira se interessar. Procura não é bem procura; ela (parece) não tem nenhuma ânsia; sorri, oferece as coisas, mostra e se aprouver a alguém que esse alguém se meta a pedir. A perdir-lha. Tem os dentes estropiados com um olhar sofrido e profundo mas profundo e singelo com o sorriso sempre aberto e luminoso apesar dos pesares; ia dizer apesar dos cacos; não são cacos: são dentes, luminosos sempre porque o sorriso é aberto, apesar de tudo. Se você sorri de volta ela sorri mais, comenta qualquer coisa, deseja sorte ou paz com compra ou sem compra, e continua. Deve ter uns... 35-40 anos? é negra, o cabelo às vezes desgrenhado, às vezes com um lenço, com um chapéu, com gorro, às vezes tem um filho que a acompanha e quase sempre fica no canteiro a esperando. Hoje estava sem filho; hoje de passagem a vi apoiada no poste e sob o famigerado laranja solar ela tinha um olhar perdido porém ainda assim singelo em meio ao barulho do trânsito em volta e segurava à altura da orelha duas garrafas de água de plástico azul enquanto esperava a saída dos carros que em filas rugiam e pareciam ir morder a qualquer momento. Cf: já mais tarde, a noite de frente. A nuvem que passa sob a linha alta que a moldura da janela enquadra leva quase cinco minutos a passar; como é que um negócio tão enorme, tão físico e presente, se movimenta e nos cinco minutos que passam passa com tanto silêncio? Depois mais tarde, noite grande. No céu não passa nada, nem nuvens, nem estrelas, uma só: brilha menos que o riso da vendedora, que o sol daquela tarde, no ônibus, na moça, sendo franco algumas nuvens passam sim, mas pequenas e quase imóveis, anêmicas, incomparáveis àquela.
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1 03 01
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