VV 8

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.................... Olho para a porta, em vão. A salvação não entra. Também lá fora nenhum
vestígio. Nem sinal. Às vezes fica tudo vazio. Meu cérebro, mancha escura sozinha no vazio.
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P. Klee; Diário I, 110
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(prisão) ..... Se a cela é apertada pelo menos não tem 50 ou 100 espremidos nela como a gente sabe que tem por aí e deixa estarem. Aqui tem cerca de 20, 16... e não vou falar deles, não vou falar da gente – aqui apesar da estreitez a gente consegue estar todos de cara virada, quando sem querer ou por última opção algum rosto olha uns outros olhos nem se crê mais que a gente é bicho ou máscara ou monstro, de tão acostumados em não se ver –, eu vou falar da janela: um retângulo fino, deitado, gradeado lá no alto, no alto das barras que se enxergam aqui debaixo uma luz fraca (porque nunca é direta, é reflexo de reflexo de uma saraivada de paredes segundo três dos presos que um dia se empilharam dizem) uma luz fraca roça por trás os cilindros e às vezes bate do outro lado no canto e às vezes dá até a ilusão de que não existem (os cilindros) porque o pó que de repente levanta é aqui dentro mais grosso que a visão das barras, e ele que se ilumina e as cobre e não elas ficam iluminadas. Janela que não é, janela: fresta, barras, que deixa a gente não morrer sufocado, pelo menos é nisso que faz a gente acreditar. Agora um dos 20, ou 16, jogou um bagaço; ele bateu numa das barras; um pouco passou parte ficou presa, parte caiu de volta.
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(praia) ..... Sentir a areia é como se pra sempre um momento novo. O dia anoiteceu mas não anoitece: uma sobra de sol na barra enfaixa o horizonte, e aqui ele é grande, não se vê o fim da margem como ao lado o da mata, é a mata ao sul é mata ao norte, sem fim ao oeste, a leste é o mar. Pôr-do-sol no oriente? É o que parece. Ninguém na extensão aparentemente; nem algas, nem galho, estrela-do-mar morta que a maré traz. É tão ninguém que nem mesmo eu estou presente, não me fio na sensação da pele (ela se dissolve como os primeiros grãos quando o ar fica forte), vai que de repente os pés não existem, mais membros tronco e tudo, só os olhos, ausentes, veem mas não só: sentem qualquer vento mesmo antes dos fortes que os derresseca um pouco. Sentem o cheiro constante (só com o tempo perceberam a permanência), cheiro de oliva, de vinho...? logo esclarecido pela intuição de uma futura visão que o comprove: é de ferrugem; a ferrugem com sua cor ocre, chá-mate, cobres, vai e vem na ondulação baixa, a constrói, é dela que ela é feita. O oceano inteiro, ferrugem? Os olhos não se arregalam com a pergunta. Esse seu estado ausente, vendo, é naturalmente esbugalhado. A resposta ainda não pode vir no vento. E a mata, em conjunto, dá um mesmo balanço repentino, único, oscilantemente.
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(farol não no molhado) ..... A placa lá debaixo diz 30 m mas daqui parece mais. Também diz: granito, duzentas e vinte e cinco pedras recurvas encaixadas e dentro a escada caracol é de ferro, a data... logo aí está gasto, como se uma lasca rompida por alguma fraga a cavasse, gesto de ferragem de xilogravura feito por quem. A impressão mais alta vem da falta de referência, só do sol, o chão, nem dos brilhos da água que de certa forma são proporcionais em si: aqui, daqui, é o seco que se avista, plantado no árido; a torre sobe do terreno dispondo os rumos disponíveis do seu ponto, isolado, no vasto deserto – a quem que de algum lá aconteça; a quem que de um longe veja, cisco, zinho, de pé mínimo traço preto no espaço imprevisto, sujeira na lente da vista? Este sol não se move. Quem há de chegar nunca chega. Há quantos mil anos? Estou há dois minutos. Cume sem brilho: me abaixo conforme o espelho gira, para passar o reflexo; (o movimento provavelmente dará cãibras mas isso é de adiante e no mais necessário); mas não envia, a luz é fixa: por tanto deserto escancarado, franco, exposto, a luz não chega a sair; é sugada antes; por estas matérias, esta matéria, que a circunda e chega a encostar-se no vidro, tamanha a presença, tamanha a força fisionômica, tamanha a abertura dos poros (poros do seu semblante, seus tele-orifícios). O estrangeiro vem vindo; não verá a luz apagada; a verá acesa, do avesso como uma falta, brilho oco, pensará com sorte ter visto um cisco, e continuará, até ter mais sede. Sentirá nem por um segundo quando o deserto freme, seguindo ao ponto sísmico em direção a esta base? Passa ao largo; homem, turista, oásis; pássaros que imaginam. E infernal aqui de perto e em cima esta música fiel ao espelho quando este se dá os giros...
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[vestígios como esses, com o entre os parênteses em itálico, podem se dizer ou se chamar de imaginários ou de fantasia ou fictícios; quem sabe se de restos de sonhos, se de embriões de imágeneses (que vieram a dar neste porto), se de “acessos lúdicos”; ou da inconsciência, inconsequentes, ou mesmo só imaginários, de fantasia, fictícios]
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.................... Com frequência ressurge o tema da comparação entre meus estados de espírito e os das paisagens. Baseia-se na minha concepção
poético-pessoal de paisagem. “É outono. O fluxo de minha alma deixa um rastro de neblina.”
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P. Klee; Diário I, 109
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(ruas) ..... O azul. Eis. O. O outono limpa o céu despudoradamente, energético, leve. Não existem as tristes nuvens. Nem as de felicidade. O azul é completo, teto, referência acima, o superior da gente, nossa absolutabóbada, abóbada-luz, peneira de luz, para o consolo, para o nosso espanto, para estar dizendo a vida existe sempre. Tem dias que têm um bum de prosperidade. Todos os lugares em seus lugares, as gentes neles; embora só aparente; as prolíficas degradações espalhadas em toda parte, desgraça+imundície, barbárie, a aparência também existe, deve ter de algum jeito uma base. A base deste leve. Céu chão da gente – parece slogan de algum protesto público. Céu: chão da gente. Emborcado, jarro gigantesco de anil e nós o líquido interno. Índigo. Abismo de ar claro.
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(depois) ..... Depois os laranjas, não no céu, só quando ao bater das coisas, o avião, a parede de um prédio, uma nuvem, só, de dentro a soprando, de dentro a insuflando como uma injeção de luminosidade.
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Do Sr. João Cabral de Melo Neto, do seu Outro Rio: o Ebro: hipnose de sol e azul
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16 04 01
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