VV 9

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(de um quarto do Einstein – o hospital – acompanhando meu irmão, operado) ..... Madrugada, madruga, o dia sobe, abaixa a noite no janelão de vidros automáticos. Os vidros não: as persianas (de ferro, alumínio-aço-inoxidável, gelosias metálicas) que sobem e descem com um botão, aqui quase tudo é a botão, menos a gente, enfermeiras, médicos, sobretudo o paciente acamado. Hospital moderníssimo nesse mundão de Brasil pobre. Pobre não – esculhambado, desprezado e talvez portanto desprezível, é o que diz uma outra voz que aqui vaga, no crânio. Deste sétimo andar vê-se o outro sétimo andar e os outros do outro prédio a uns cem metros, também do mesmo hospital, extensão. As luzes nos corredores, nos saguões, uma ou outra pessoa passando; as plantas com vasos repetidos empilhados na pilha dos andares nos mesmos cantos; as pessoas de mentira, daqui tão pequenas mas com braços cabeça e tronco e em movimento. Para lá, onde a vista se abre, se acha o Shopping Butantã na Raposo Tavares; o eme amarelo do McDonald's; o vermelho da lanterna dos carros tremendo sobre a avenida. Nunca pensara que o Butantã e o Morumbi fossem de certa forma assim colados. Na área lá fora entre os quartos a janela de uma das pontas dá para o Estádio (vê-se bem uma parte da arquibancada) a da outra ponta enxerga os fundos do Palácio do Governo. Meu irmão está deitado; um lençol o cobre, ronca, convalesce. As cinco cicatrizes na barriga estão com ele pela cirurgia tripla, vesícula, hérnia, um quisto. O toque de um telefone ou campainha de um quarto vem lá de fora (ou lá de dentro do corredor fechado). O dia que sobe. A noite que desce. O céu parece estar limpo. Isso só se verá mais daqui a pouco. Apesar da vedação dos vidros ouve-se o motor da cidade.
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(manhã; mesmos vidros) ..... O voo de um pássaro despenca, rápido, que não parece ter sido contínuo, retrato vivo, quadro, chispa, etéreo. Tão rápido que não se sabe se foi pombo, curió, canário, corvo ou as penas de um empalhado jogado do andar de cima.
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(cf) ..... O sol faz outro sol na mesa redonda branca de plástico. As cadeiras, ao redor, também acesas, assistem à incandescência.
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(“) ..... Uma estrela teima, vibra, no chapadão azul muito escuro. O céu não está nublado, está “limpo”, mas só essa é visível num céu assim noturno de metrópole. Mesa e cadeiras recebem uma luz oblíqua, fria, da cozinha, que as pega só aos pedaços – e se apaga (não está mais na cozinha quem estava) o que ainda as deixa com uma outra luz, de algum lugar ou lugares, na penumbra. Resvala-as. Como esse maldito mosquito na nossa pele, como esta temperatura quente, como esta brisa (desejada) que não aparece.
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19 04 01
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