condenado à vida

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O pianista se posta frente à cauda. Ativa a sinfonia, a sonata, a ária. É extremamente bonito. As notas se evoluindo brotam-se, despejam a melodia nos ouvidos que ouvem, escutem, ouvem realmente. Pode-se receber o brilho de cada corda quando os cabos das teclas martelam; pode-se perceber os pedais pisados e subindo e se emocionar com isso. Mas eis que inopinadamente, aproximem-se senhores é infalível e surpreendente como todo futuro: as músicas esmorecem. O pianista está num trem que sobe um morro onde não há mais trilho. A anemia musical é tão díspar, mas concreta. Todos apáticos. O silêncio sujo. O pianista se vê fechando a tampa, mas não fecha. No papel pautado as notas continuam, vão até o fim com as barras duplas. As pautas o olham mas ele não quer mais saber. Nem do público – que calado e imóvel é inútil –, nem dos focos – frios sem aquecimento (só o zim da incandescência, distante). Ele não vai mais querer ressuscitar as músicas com sono; ele quer a nota, A Nota. O pianista não é mais piano, o pianista sente-se bem no fraque mas é um homem. Afana-se, vai aos bastidores, traz os objetos para o empilhamento: barril, o armário, o livro de pontos, cordame, cortina, do baú e o baú dela, pílulas das bailarinas, uma delas viva, duas mortas, um passante das portas do fundo, figurinos, uma haste de um cenário, xaxins de plástico, batutas, um poste, estrados e uma colunata de mármore; na parte de baixo, na base de tudo deixa uma ponta: a quina que premirá a tecla. A tecla sozinha. Põe o acúmulo sobre o piano, Babel própria, o equilibra no modo que imprima com força. Com força e solta. Com força e a nota soa: com tanta força que o piano tomba, tomba mas continua abaixado na mesma tecla. A nota, A Nota atinge muito – até que declina como tudo, como toda música desfibra. Mas o pianista a ininterrup:
.......... nele a nota segue e pisa o chão que visualiza – e não é eco, é constante; constância em subida –, que visualiza como a plateia que já se foi há muito, impaciente, ainda assim a vê (como à nota) voltando na vibração do aclive, mas isso é só um detalhe. (O fraque em êxtase como ele, na imóvel mas forte música.)
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30setembro00
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