hospital

.
.
.
.................. As portas rangendo
.................. Os homens de branco
.................. Pessoas de todas as raças e credos
.................. No mesmo difícil edifício
.
.
.................. .................. +
.
.
.................. Lugar de sussurros e assepsias
.................. (nem sempre assepsias)
.................. A branca esperança encardida
.
.
.................. .................. +
.
.
.................. Radical de extremos
.................. Dá à luz e a escuros
.................. E ainda consegue abrigar
.................. O meio-termo modorrento
.................. Do desânimo
.
.
.................. .................. +
.
.
.................. Vá lá
.................. A salsicharia científica
.................. Revitaliza-vida
.
.
.................. .................. +
.
.
.................. O prédio onde as pessoas passeiam
.................. Saem mortas ou duram mais um pouco
.................. Como no mundo
.
.
.
jul.98
.
.
.

atestado

.
.
.
O ciúme não é uma besta, o ciúme não é aquela gota intensiva e vermelha que se destila pela pipeta caindo dura como uma pedra, o ciúme não é a seta cega que dilacera, não é aquele cavalo selvagem de repente cheio de puses que se revelam em pleno dia, o ciúme não é vivo, não espera à espreita, não arquiteta como um homem, o ciúme não se enfeita nem desce do morro atrás do samba nem teme a cadeira elétrica, o ciúme não é aquela alma-gêmea do medo ou da incerteza ou da violência do estóico ao próprio corpo, o ciúme não é um copo, não é alcoólico, não é tóxico ou beco sem saída, o ciúme não é metafórico nem no entanto enciclopédico ou ciclópico como julga o senso imediato, o ciúme não dá chance ao abstrato e não se nutre do concreto como um enxame, o ciúme não tem três olhos, ou seiscentos de mosca, díptero, arcanjo caído, o ciúme não renova sua boca seláquia nem chupa toda a pouca água que resta dos selenitas, o ciúme não viaja, o ciúme não ri, o ciúme não respira, o ciúme não se diz energia estática nem reduz à bateria atada a fluidez de cem mil pilhas que agoniza, o ciúme não contemporiza, não avisa a próxima chegada não sendo um trem-bala, o ciúme não fede, o ciúme não encobre com seu deleite o mundo em sombra escura de mão gigantesca, o ciúme não é asteca, não é inca, não é carioca e não é natureza, o ciúme não é a pátria de chuteiras nem a China às avessas, o ciúme não tem pachorra nem diz-ao-que-vim nem precisa ter pressa, o ciúme não está na piscina como um cloro sem ética, não está na ferida que o batom deixa, não está na garra invertida do gavião selando a presa, o ciúme nem está na espinha otélica do esqueleto das festas, nem se negará ao coração de desdêmonas, o ciúme não tem sua meta, não usa beca nem dá bola ao status, quo de covardes num julgamento que não se enxerga, o ciúme não está no deserto futucando o eremita, nem na insolação da cidade ou em sua multidão prolífica de gestos insulares, o ciúme nunca beija, o ciúme não é o rabo entre as pernas de um dragão do extremo norte arrasado num átimo pela umidade súbita, o ciúme não é o Bósforo, nem a tundra no frio sólido, nem a Emília manquitola desejando mais macela ou um reino mágico, o ciúme não está a par da geografia, o ciúme não é raro, não rasteja na igreja como um rato nem rói premeditado as vestes das vestais sacerdotisas, não fuça o turibulário, não vasculha o desempregado atrás da nódoa na polícia, não degusta ou arrota, não chia, o ciúme, sem função precisa sem nome sem um clone que o descanse, não sai da linha, não incita nem proíbe o camelo de passar pela agulha fina, a areia fina da ampulheta não joga pra cima nem espezinha o tombo lento, e não mete o fórceps em nenhum tipo de rebento nem lava as mãos na bacia, o ciúme não é nojento, não é um hino sem nada por dentro, não é a rosa convertida em espinho, não é o bumbo aflito atropelando o ritmo nem o corvo necrófilo pedindo aumento, o ciúme não é a água, todas as águas imagináveis, se encrespando, o ciúme não é a faca, do centro do cofre da sala da casa entre grades, em movimento, o ciúme não é a tática, do engodo do pânico do vil da vileza, prevalecendo. O ciúme é uma doença, uma doença crônica de estado grave que afeta todos os sistemas, imunológicos do espírito do físico da alma e do que mais seja.
.
jul.98
.
.
.
.

na encosta subversiva

.
.

.
.
Não dou uma risada há quanto tempo?, perguntou o marreco à beira da encosta imprevista. Eu não sei, disse o mentecapto, o mentecapto era um bicho indefinível muito amigo, os dois, bem amigos um do outro. Não era aquilo que fazia um ventinho?, tentou ainda o mentecapto. Não, isso é o volteio que faço, pra gente comer aqueles frutos, esses poucos que ainda tem, nossos preciosos frutos, quando eu bato as asas e pulo e pego, lembra? Lembro. Então... era aquele negócio, o movimento, que dava uma agitação violenta, mas tinha assim uma outra agitação por dentro... Não! Isso era quando nos caçavam. Lá embaixo. Puxa, como é que foi que você foi esquecer isso? Eu não sei... eu não sei, é tudo o que eu sei. Mas o que o marreco e o mentecapto não sabiam, era que a encosta, no fundo, não era imprevista, era é quase totalmente imprevisível. E isso incomodava muito. No momento. Não era “bom” ali na beira, a brisa mesmo envenenava. Bem, mas paciência. Os frutos ali estavam. E o riso?.
out.10
.
.

A Love Supreme

.
.
.
.
.................. O número quatro feito coisa
.................. ou a coisa pelo quatro quadrada,
.................. seja espaço, quadrúpede, mesa
.................. está racional em suas patas;
.................. está plantada, à margem e acima
.................. de tudo o que tentar abalá-la,
.................. imóvel ao vento, terremotos,
.................. no mar maré ou no mar ressaca.
.................. Só o tempo que ama o ímpar instável
.................. pode contra essa coisa ao passá-la:
.................. mas a roda, criatura do tempo,
.................. é uma coisa em quatro, desgastada.
.
................................. João Cabral de Melo Neto, O Número Quatro
.
.
.................. Nos tempos presentes pressões internas revelam que ainda está faltando algo para que o processo de alargamento da consciência continue a desenvolver-se. O que estará faltando à Trindade? Está faltando o quatro. Que significação tem o quatro? Quem o representa? O quatro é o princípio feminino, é a mulher. «O três significa o masculino, o paterno, o espiritual; o quatro significa o feminino, o materno, o concreto.» (C. G. Jung, C.W. 12, 26)
.
................................. Nise da Silveira, Imagens do Inconsciente – O Tema Mítico da União de Opostos
.
.
.................. 4 letras é nada
.................. 4 letras é tudo
.................. 4 letras é o dedo
.................. que é a língua do mudo
.
................................. Júnior Blau, Quatro Letras

.
.................. Conheci alguém que, um dia, ao ir adormecendo, ouviu bater quatro horas, e fez assim a conta: “uma, uma, uma, uma”; e, ante a absurdez de sua concepção, pegou a gritar: – “O relógio está maluco, deu uma hora quatro vezes!”
.
................................. P. Bowidin, apud Brunschvicq, citados na Lógica de Paul Mouy, citado tudo em Sobre a Escova e a Dúvida, João Guimarães Rosa
.
.
.
.
Ajeitam-se umas poucas pedras, assim que surgidas, do Nada, da Substância, rápidas pela energia da certeza, sem mediações pois têm a preponderância, a forte e simples e fácil preponderância com elas; surgem já redondas, arredondando as arestas, depositam-se em curva, uma curva ciranda que as agrupa, as reconecta (a primeira vez fora há quantas mil eras?), as põe mútuas que a solidez da fogueira se inicia, sólida gema, o calor é um corpo e corpóreo tanto que infla imperceptível a olhos vistos de veias de brasas da chama, a temperatura é clara, e dança, dança – a dança. Agora eu sei: quatro pedras. O frescor da temperatura altíssima logo procura as sendas do investigamento, com a procura produz-nas – senda o céu, senda os largos, senda o ar, senda o baixo os lados o alto, os cantos de água brotando, a conformação dos espaços sempre em sequência de seguirem seu rumo, o instinto ladeira ao vácuo, à volta do próprio elo, as origens. Tanto que se torna quatro, retorna não sendo nunca mais o início, repete-se mas em dança, corporificada, o ritmo. O ritmo não existe, enquanto nome, o ritmo com os estalos que lhe são base, as fagulhas, os lampejos, é o tato tingindo de cores as dúvidas as setas entrelaçando os caminhos abertos os caminhos e fechos os caminhos os caminhos os caminhos... – ondes; às vezes ásperos, às vezes puros, às vezes as estampilhas de prosseguimentos, ora se propagando ora no sobe no desce de pausas que as ligam. E então a voz das palavras, no Eco. O eco luminoso dentro da robustez do quatro, parece brincadeira mas acenderam a luz do Universo. Pode-se ter calma, pode-se se ir pousando na rosa-dos-ventos multifacetada, todas suas pontas brilham no silêncio expressivo que injetam.
.
.
As papilas da antena. A antena é uma estrutura imensa plantada no deserto grande, e suas células tremem – primeiro tremeluzem depois a luz gera a tremedeira física, veja todas as hastes requerendo a frequência, seu direito a vibrarem-se revertendo o espaço em conquista. Digo primeiro depois depois mas é como num mesmo bloco, para: agora as antenas (são mais de cem! pluristrutura das hastes num só uno que se planta) agora as antenas todas se projetam em espadas em direção ao céu, impetuosas lâminas que não cortam: perfuram, singram, navalhas de faro devassando o vácuo em que tem muito, o escuro profundo de velocidade no seu bojo espacial. As pontas fazem barulho quando raspam rápidas os escuros prenhes de expectativa. Singram fundo, voam, contínuas – continuidade do seu hereditariamento –, vão certeiras, multissetas; de repente assim, sinuando, saliências (sim, multísceas ainda), serpenteandamente como a seiva nas selvas serpeia – mas c'o vulcanismo das lavas violentas. Ainda contínuas. De repente nas retas de novo; encetam. Sempre, sempre no seu avanço, avançamos, avancemos juntas. Como vão longe. Meu deus, como é tanto. Tanto que se produzem um silêncio, e nele mesmo usado como base permitem-se florescências, trocas de algumas cores (depois do coloramento na estrutura branca) e pingos do seu branco cedidos ao caminho pela estrutura. São mil tatos em que as transparências se trocam. Digo transparências pois o branco assimila o escuro e os ex-escuros se abrem e abraçam o avanço negro e colorido da estrutura alterada; e vice-versa – continuum –, o positivo e negativo alternam-se enquanto vivos e agem. O caminho fica todo pingado. (E daqui não dá pra ver mas lá longe onde deixado cada pingo deve dar em mais pingos multiplicados em hastes novas que singram outros percursos. – o que é comprovado pela força desse ramalhete de pingos que ficou fincou no caminho) Reagrupa-se a estrutura. Nova espádua originária, a tal ponto reassumida que pode ser reta e linhas curvas e colorida e na cor básica e pinga às soltas, todas no maior grau de intensidades, enlaçadas. A tal ponto provoca, espicaça a infinitude; ora numa afronta rouca, ora um balanço espesso de cabeça; não como desrespeito, mas tendo no Infinito um amigo, sabendo o seu limite nos ilimites dEle – brinca portanto. Períodos, sequenciais gritos, urros soltos, até e para atingir o auge deste alvo lapidado. Lapidado em conjuntos de ciclos onde os módulos se emolduram para o centro. Lapidado como halos de silêncio ao pouco a pouco revelando-se. Lapidado como um feixe de raios (raios mesmo, desses, meteorológicos, da tempestade) tornando-se líquidos e líquidos amoldando-se nas margens que os recebem. Recebem e adormecem, recebem e sorriem, num suspiro.
.
.
Agora tudo são pedras, todos somos pedras, vindo em cascatas, brotando em falésias, saindo das ventas das frestas das rochas de que são feitas a este rompante de pari-las, algumas estilhaçam uma explosão de lascas, vidrilhos, de contas que quando se abrem são coloridas, e as pequenas cores invadem as rosáceas que têm consigo, as rosáceas abrindo-se como coágulos num mar acídulo, aqui, mas, o mar é pedras, o ar é pedras, transmudando formas, ricocheias, batem as quedas e as dunas de empuxo em que saltam, transmigram e transbordam sua transmudância sensível de contactatos, tatismo – para (e dois ou três esguichos translúcidos anunciam) o mar, líquido, subir de fato; que mar, um de ferro, alumínioamalgado, o metálicolíquido: sua lisa linha de superfície engole conforme recebe e alaga os abismos, une nos vãos do ar que agora é ar mesmo as rochas se sedimentando, ainda se esboroando mas neste outro contexto, com os seixos grávidos da gravidade assumindo, sumindo ao mostrar-se na impregnação do desejo, o desejo de dizermos nos amarremos e a amarra repercute as rochas de outro jeito – não há jeito mais impreciso de dizer isso – outro porque o som não pode caminhar no mar líquido, como eu ou tu caminhamos, caminha do próprio; e abre um bolsão luminoso (mais dissolvido) para que os novos choques deslizem – e eles deslizam: às vezes vai ver e é um só, em reviravoltamentos e segmentos seguidos um a um e outro a outros, curvos (conjugados), retos (compridos mas rápidos); – até que se chocam tanto, trocam, oferendam o que é curvo aos retos e vice-versos do reto aos curvos (como um chuvão e mais dois, três passageiros), que daí o mar injeta no bolsão um jorro fino e se expande para a alegria de todos: a solução de dentro se redissolve e abrange o conjunto, mais líquido que sempre, mais sempre conjuntamente em retoques, ataques, encontros; até a cúmulos: em que a incandescência ondulante vara certos pedregulhos, descarregos, electrocortes; em que o mar se avoluma denso e sabe ser rápido como a liberdade, a mesma que lhe permite lançar afiados volumes como mensageiros, e volteios, e vômitos incendiados, de lanças, de números, de fraco-e-fortes (num mesmo impulso); em que até que: quer ser cíclico e dá um looping, sacode as anáguas do seu suco, desfralda-as; – para as pedras, as pedras precisam ser delas de novo, já não querem ser secas, já sabem ter uma aderência que as vai rolando... deslizam-se em chiclete, colam e pouco a pouco cedem, o corpo desmembra-se, as juntas já são de um outro, o outro as junta e passa adiante, gotas, tubos, estica e cresce, enrólo; as ligas (metal e fogo e luz e gases) definindo-se: metal e fogo e luz e gases, coligando-se, muitas torres, de repente estrados, arados de elástico; flores; encorpadas; cachos; nutritícios; e a paisagem está o contrário do que é estar solapada, a paisagem, postada com suas margens e planos e leves morros o cerrado sem sombras de dúvida, a chapada tem um vento manso como não-quase...
.
.
... Quando a chuva surge; e o sol, o azul se debruça no vasto. Lambe os terrenos. Se lambe ao banhá-los. (só vendo, é isso mesmo: lambe-os) Então o que se dirá, vivo? A procura e a resolução se encontraram... a gratidão de um reconhecimento... pode-se dizer a canção de louvor a? Deus – está, na frente dos arbustos, naqueles regos formando o lago, na unicolor projeção dos objetos que em si resguardam o multicolorido. O multicolorido caminhando como a carícia de um abalo sísmico. Abalo autêntico, mas tranquilo de tão sublevado. Suavevíssimo – o quê do paradoxo. Aflora percursos, como tatos, como faros reconhecendo os momentos já embutidos no espaço. O Espaço, O Espaço... Chega a oferecer espelhos, ou espelhos vazados, lentes de aumento, como se o azul do sol adventício chegasse a um topo. Chega a dizer que os caminhos não são de costume, os rumos viram um todo em que as setas transparentemente se combustam, sendo o indício, não indicando. Chega a dar um pinote ou parecer novos rumos ou retomar os percursos para redesfolhá-los de onde a rocha prove, mas só sugere, só açoda um desmoronamento em que as pedras de um vulcão completo caem numa alegria ingênua, arrebatadora no ato de caírem completamente. Chega.
.
22.08.00
.
.
*
.
. A Love Supreme, John Coltrane .
Elvin Jones, bateria; Jimmy Garrison, baixo;
McCoy Tymer, piano; John Coltrane, saxofone tenor;
gravado em 9 de Dezembro de 1964,
produzido por Bob Thiele, MCA impulse!
.
.
*
.



.
.
.
.