condenado à vida

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“Ah... não m'importa mais as desforras, a ameaça de faca, a de tiro, o muro estendido que chicletiza com tudo, nem a tendência de se deparar com dez antipáticos a cada doze pessoas, nem o freio esculhambado da troca das estações denegridas, nem a persistência de encadeamento dos pensamentos errados; nem essa infusão de dor ressentida, nem esse músculo estripado, nem esse dente que perdido se cravou na cava da cova cardíaca; agora eu tenho o que m'importa, agora eu tenho essa importância: a cara nova que me foi concedida quando eu lhe disse aquelas palavras, a cara nova que eu nem sabia que tinha quando as palavras que eu nem sabia qu'eu tinha eu lhe ofereci, a consequência, das palavras, em cara nova revelando a mim mesmo e a ela (cara) o que nós ambos não sabíamos haver; – e isso só poderia vir assim do poço, depois do fundo, do momento oco em que parece não haver mais gancho a sair; ganchos de salvação; ganchos de salvamento; ganchos de se pegar para não cair no nada triste que se de repente é; então vêm com uma, só se pode dizer inesperadíssima gentileza, as palavras até então não ditas mas justas apesar de guardadas; saem, retas (mas não como setas, ou tapas, ou taconadas), saem, como a rotação da Terra, incisiva e lenta, gigante e delicadíssima na imensidão em volta; essas minhas palavras sentidas; na cara nova; essa cara nova dela a nos fazer sentir vida, re-sentir a nossa vida que já era nossa” disse, em riso, ao sair de onde estavam, a ala de tralhas da mina velha de onde estavam, ele e a outra pessoa, da qual conseguiu tirar, não sem espanto, não sem surpresa, esta nova cara, espantada, espantosa, espantosa/espantada e generosa.
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6junho01
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