atestado

.
.
.
O ciúme não é uma besta, o ciúme não é aquela gota intensiva e vermelha que se destila pela pipeta caindo dura como uma pedra, o ciúme não é a seta cega que dilacera, não é aquele cavalo selvagem de repente cheio de puses que se revelam em pleno dia, o ciúme não é vivo, não espera à espreita, não arquiteta como um homem, o ciúme não se enfeita nem desce do morro atrás do samba nem teme a cadeira elétrica, o ciúme não é aquela alma-gêmea do medo ou da incerteza ou da violência do estóico ao próprio corpo, o ciúme não é um copo, não é alcoólico, não é tóxico ou beco sem saída, o ciúme não é metafórico nem no entanto enciclopédico ou ciclópico como julga o senso imediato, o ciúme não dá chance ao abstrato e não se nutre do concreto como um enxame, o ciúme não tem três olhos, ou seiscentos de mosca, díptero, arcanjo caído, o ciúme não renova sua boca seláquia nem chupa toda a pouca água que resta dos selenitas, o ciúme não viaja, o ciúme não ri, o ciúme não respira, o ciúme não se diz energia estática nem reduz à bateria atada a fluidez de cem mil pilhas que agoniza, o ciúme não contemporiza, não avisa a próxima chegada não sendo um trem-bala, o ciúme não fede, o ciúme não encobre com seu deleite o mundo em sombra escura de mão gigantesca, o ciúme não é asteca, não é inca, não é carioca e não é natureza, o ciúme não é a pátria de chuteiras nem a China às avessas, o ciúme não tem pachorra nem diz-ao-que-vim nem precisa ter pressa, o ciúme não está na piscina como um cloro sem ética, não está na ferida que o batom deixa, não está na garra invertida do gavião selando a presa, o ciúme nem está na espinha otélica do esqueleto das festas, nem se negará ao coração de desdêmonas, o ciúme não tem sua meta, não usa beca nem dá bola ao status, quo de covardes num julgamento que não se enxerga, o ciúme não está no deserto futucando o eremita, nem na insolação da cidade ou em sua multidão prolífica de gestos insulares, o ciúme nunca beija, o ciúme não é o rabo entre as pernas de um dragão do extremo norte arrasado num átimo pela umidade súbita, o ciúme não é o Bósforo, nem a tundra no frio sólido, nem a Emília manquitola desejando mais macela ou um reino mágico, o ciúme não está a par da geografia, o ciúme não é raro, não rasteja na igreja como um rato nem rói premeditado as vestes das vestais sacerdotisas, não fuça o turibulário, não vasculha o desempregado atrás da nódoa na polícia, não degusta ou arrota, não chia, o ciúme, sem função precisa sem nome sem um clone que o descanse, não sai da linha, não incita nem proíbe o camelo de passar pela agulha fina, a areia fina da ampulheta não joga pra cima nem espezinha o tombo lento, e não mete o fórceps em nenhum tipo de rebento nem lava as mãos na bacia, o ciúme não é nojento, não é um hino sem nada por dentro, não é a rosa convertida em espinho, não é o bumbo aflito atropelando o ritmo nem o corvo necrófilo pedindo aumento, o ciúme não é a água, todas as águas imagináveis, se encrespando, o ciúme não é a faca, do centro do cofre da sala da casa entre grades, em movimento, o ciúme não é a tática, do engodo do pânico do vil da vileza, prevalecendo. O ciúme é uma doença, uma doença crônica de estado grave que afeta todos os sistemas, imunológicos do espírito do físico da alma e do que mais seja.
.
jul.98
.
.
.
.

Nenhum comentário: