poemetos, quarenta e dois

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.......... a dor
.......... a dor como uma laranja, plena
.......... dolorosamente a dor. Isto
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relógio
.......... mais que o tempo
.......... parado. Nunca mais. Aqui
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túnel envolve-me
.......... vivo
.......... vida a calcinar
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.......... calma. O pavor
.......... morte
.......... naufrágio e Lágrima
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por quê?
.......... não é fácil
.......... o som. Escuta
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te quero, tudo
.......... o medo
.......... e olhos nublados
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passos
.......... uma expressão, olá
.......... a marca espalmada do dia
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na gaveta
.......... a poeira acumulada
.......... o passaporte para Boston
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silhueta no telhado
.......... pôr-do-sol laranja
.......... aberta ao meio. A gente
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parto
.......... no outro mundo do espelho
.......... espelho o espelho
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onda explode mar
.......... um sorriso flor relâmpago pássaros
.......... agora

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ruínas no armário
.......... a estação do trilho sem margens
.......... foto da unha roída
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olhos dentes cegos
.......... o contato das veias mortas
.......... balões soltos como vácuos
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a janela abre-se
.......... repentinamente deixa-se
.......... ser entrada por um vento
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transístores de choque
.......... a vida vê-se
.......... ossos que estalam
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entre o estio chove
.......... algumas palavras
.......... esse esconder-se
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.......... a pulga pula
.......... no pulo
.......... principia o absurdo
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de novo
.......... crosta de sono que nos embota
.......... um nada consistente
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amor e a luz
.......... buraco negro branco
.......... imediatamente
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escalo submerjo percorro
.......... 100 mil léguas
.......... o alívio no riscar um traço
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encontro
.......... a palavra feminino é masculina
.......... o contrário
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parada à abertura
.......... o quadro acontece
.......... cheiro de pedra
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e a certeza
.......... no instante
.......... existe um fundo de mar
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.......... rua saindo pela casa
.......... massa corrida que fica, a vida
.......... um poço
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paredes habitam dentro
.......... do frágil
.......... saio para entrar à vida
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o telefone faz trim
.......... absorto no lado interno de um quarto
.......... não toca
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chama
.......... um calor de incêndio e bolha d'água
.......... a necessidade brutal de te chamar
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disso
.......... só um pouco uma lâmina um naco
.......... não esse bolor de imortalidade
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caminho longamente infinito
.......... em que teu alô ecoa
.......... ecoaecoaecoalizadoramente
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morro de tão alto
.......... beleza na nossa vista
.......... não vista
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nossos quarteirões abertos
.......... sobre o espaço
.......... desta luva aberta sobre a mesa
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de podridão é certo que o céu da boca se abrirá
.......... mas um casal de namorados
.......... do enterro interessa-me a vida
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lágrimas de raiva quebram o chão
.......... o acesso ao acesso, onde
.......... sinto e tantas cascas mal aproveitadas
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súbito sopro celeste
.......... foi para o inferno?
.......... o que era outrora isso envolto pela camisa?
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duas dúzias de badaladas mudas
.......... uma porta semiescancarada
.......... e o hálito seco da despedida
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enxugamos gelos
.......... e sorrimos correndo
.......... incrédulos da imbecilidade
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solitário
.......... de rosas estreitas
.......... a suportar tuas amargas multidões
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o bafo penetra o vidro
.......... a vítrea impressão estala-se
.......... arrastados os anos e o azar
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regamos plástico
.......... e saímos à rua de escola de samba
.......... de papel machê à chuva
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um fruto deste cemitério de ideias
.......... mordo e morro
.......... rindo a barriga ao vento tristemente
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o diamante unindo
.......... passa
.......... Para quando iremos?
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há um couro potente, intenso
.......... entre teu dedo e o mundo
.......... há uma fina pele

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14-15.07.91
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