améliavante

.
.
.
.................. Amélia na rua, surpreende-se, não sabia que podia.
.................. De repente Amélia vai à floresta
.................. De repente Amélia em cena
.................. uma plateia se lhe oferece

.................. Se Amélia é que aprendeu, se ofereceu
.................. A cada passo, dose a dose, sensitiva
.................. Por que agora a surpresa
.................. Por que não a cena, a floresta, a via?

.................. A lua vê a rua, a vira em estrada
.................. Amélia no centro dela:
.................. Sente-se uma gávea

.
fev.98
.
.

.
.

condenado à vida

.
37
.
.
Pensou em agir... (diversas maneiras) (impossíveis – dizer as impossibilidades) mas tinha a sensação do impulso – voltou a ela, sem a qual nada mais haveria de.
.
7fevereiro01
.
.
.
.

.

s.e. XXVII

.
.
.......... Astronautas senegalizam a tua vitória. – O que quer dizer isso? Não faço a mínima ideia.
5jul01
.
.

condenado à vida

.
38
.
.
No grau de velocidade que se executa não é possível saber se é redonda, se se arredonda quando roda, se tem cerdas como postulam, se é de arestas-lâmina, quatro, um só quadrado vazado ou vários, interpostos como camas-de-gato de arames e pontas – tudo é possível (possivelmente tudo, a soma dos palpites já que os boatos não são absolutamente criados): a peça saiu do seu início (o seu início não é localizado ou zável mas sua existência ei-la é um fato aceito, orgânico) a peça saiu do seu início e desde aí com sua veloz acuidade sobredita segue o seu tiro; irá rebater sempre, se na direção do céu volta ao perder o impacto, roçou a nuca de Olofertes ao sair do cabeleireiro quase a degolá-lo, ricocheteou num prédio e chispou sobre um mercado cheio, chegou aos pés da cama de ferro de Juliana e levantou a ponta do travesseiro em que sua cabeça estava, bateu em dois dos duzentos alicerces da ponte de concreto a ligar à cidade baixa, por pouco não cortou cerce as pernas de Luís quando saltou ao descer da rampa, fez um floreio por influência do vento no candelabro do restaurante egípcio, ia mas desviou-se a troco de outra lufada acertar de frente a arcada de Matilda enquanto escovava os dentes diante do seu espelho preferido no banheiro, mergulhou no lago e foi revidada do fundo, se não fosse por dois pinos do estacionamento atingiria o peito de Arturo quando levava no garfo a polpa do seu ovo frito à boca enquanto comia na lanchonete. A peça rasga a carne com a facilidade de faca sobre espuma, de helicóptero na névoa fina, de precipitações sobre a luz do dia, essas pessoas correram risco e nem chegaram a cogitar, nem chegaram a intuir o rabo da sombra de um perigo, o perigo de no lapso perder a vida. A peça continua, zunindo, a zunidora (mas tão rápida que não a ouvem). Continua, apesar das ocorrências particulares, dos clímaces nas redondezas, na cidade, no país e no planeta em que continua a existir – por exemplo, aquelas pessoas (que, aliás, eram conhecidas entre si diga-se de passagem) praticamente num mesmo dia aconteceu de estarem distantes mas vivenciarem cada uma extremos tangíveis. Luís no meio da tarde acendeu todas as luzes, abriu todas as portas de armário e gavetas, sentou-se afastado da mesa e ficou olhando; Matilda arreou seu cavalo e saiu com ele a galope, ao que parece reta, sem planos; Juliana cortou seus balanços da casa de campo, fez uma fogueira com os despojos, fez novos e pendurou-os, cortou os novos e lançou-os no fogo, fez outros novos e pendurou-os, cortou e alimentou a fogueira, assim seguindo, ad infinitum enquanto pudesse; Arturo cercou a cerca viva do vizinho, cercava-a tanto para que a casa sufocasse, o vizinho não estava e quando chegou e foi conversar disse-lhe que a casa era sua, não dele, ao que o vizinho retorquiu mas não havia argumento, para ele era logiquíssimo, o vizinho cedeu um olhar compassivo e acendeu um cigarro feito plateia e à espera da polícia chegar; Olofertes quis arrancar sua conta bancária, sacar cada níquel, esvaziar a poupança, sangrar a conta-corrente, se possível também as de quem estivesse em volta, no mínimo incitar a que o fizessem, no mínimo que vituperassem o gerente ou mandassem o banqueiro-mor às favas, detalhe: Arturo não tinha nem nunca teve conta bancária. Não que, depois de anos, tenham se encontrado agindo de tal forma pela peça ter-lhes compartilhado o caminho. Há infindos casos, e a todo tempo vivos, de seres quer com peça quer sem peça passando perto no passado, agindo tão ou mais estranhamente, vendo-se vivendo-se em situações antes tão díspares e agora de suas próprias naturezas, não-impossíveis. A peça compartilhou e compartilha caminhos – compartilhará, incessantemente. Consta, segundo um depoimento, a visão do cavalo de Matilde, sozinho, cavalgando de passagem num campo.
.
8fevereiro01
.
.

.
.
.

intranálise

.
.
.
Quando passo na rua tudo o que é cachorro late. Isso prova que há em mim alguma coisa de besta, alguma coisa de branco-e-preta, alguma coisa infrassonora. Acabo sorrindo ao ser assim reconhecido, e afinal quão triste seria se eles só me ignorassem.
.
fev.98
.
.
.
.
.
.

condenado à vida

.
39
.
.
I, a prova
.
Primeiro, o que é primeiro?, aquela inclusão, ser incluso, consumação do verbo, a ser, ser/estar, o que é um ponto: dois, o seu estado dentro e o entorno, depois o crescimento, em decorrência a ininterrupção disso, sentir-se líquido, sentir-se em líquido, líquida respiração, ir se excedendo para o sólido, descobrir-se ramo, ramos (em conjunto), desvendar-se – vestindo-se – como se fosse em bolsos em bolsos em bolsos, a bolsa sendo, espécie de oco ocupado, embora os próprios conceitos, oco, ocupado, são experimentados agora; ser experimento; o calor morno (o morno é a medida exata), o ajuste o acomodamento, a ambientação que apalpa, a alma em face a face, o testemunho, prático, e no centro um labirinto e o primeiro ponto, talvez o verdadeiro primeiro, pul... sam, pul... Para continuarem só que agora de ajuste tanto e tanta rama e justiça habitada a pressão cede o calor vira a liquidez se desgarra – num instante –, a luz, luz que coisa é isso, a brutalidade faz parte pois está-se com ela no momento, o grito para apesar de tudo, o grito para abrir o prosseguinte, o som saído no ar diferente (o primeiro ar do mais novo tempo).
.
.
II, à prova
.
Adalgisa mandou dizer: venham que eu estou afrontada, a dor no baço está que é uma coisa, já vejo tudo errado, assim como o Seu Pedro sem tempo de aviso, imaginou o bilhete, ah já vou tarde?, similarmente: Abel e Mário Júnior, quando a última onda que veriam subiu, Anacleta a menina de brinco de visgo, quando a sua roupa ia pegar fogo depois da explosão, Maria Silvana Sá, a senhora muito deitada naquela antepenúltima respiração da cama do hospital, o Jorge que depois da topada viu-se indo de testa na ponta aguda de pedra no chão, o Lucas, o garoto de sardas, que depois das 12h e 17min passou a sentir que o vírus que se-lhe-inoculara era e estava a mais do que pensava estar e ser, a Paula Helena que na sua expedição à mina deixou cair a lanterna e teve de relance a última visão que foi o sangue da palma cortada na fenda pois a lanterna caíra por causa da queda dela mesma, o boi, antes da pancada, o torturado, antes de dizer nunca, o acróbata de piscina, antes da pancada da nuca na cambalhota em queda ao sair do trampolim, o senhor atravessando a rua (ônibus), o garoto na overdose entusiasmada (enfarto), a turista imprecavida (dormiu profundamente na praia), ou então aquele meu primo de quinto grau que não via há meses, que na hora H irracionalmente lembrou de um poema que jamais julgara ainda estar na cabeça e não foi só como se o relesse mas como se de alguma forma também soubesse que estivesse sendo lido por todos aqueles: Morte a princípio / nos apercebemos dela / é deleite imortal está além / de nosso entendimento foi sempre assim. // Agora pela última vez possamos ter consciência. // Que nada e nada acabou dando errado. / Jamais é uma questão de crença. / É a lacerante e perpétua / brevidade da dor. – todos, todos por um momento (oco vento?) sentiram o sopro do que não puderam deixar de dizer que é: eterno – eternidade – este exatamente este breve estado perpétuo, lateja-dor, em si.
.
24fevereiro01
.
(poema de Richard Otram em “À espera de um eco: sobre a leitura de Richard Outram”, No Bosque do Espelho, Alberto Manguel, trad. Pedro Maia Soares - Death at first / it is borne in upon us / it is immortal delight it is past / our understanding it was ever thus. // Now for the last time may we be made aware. // That nothing and nothing went wrong. / It is never a question of belief. / It is the harrowed lifelong / brevity of grief.)
.
.
.
.
.

.

ver-se

.
.
.
..... RETRATO
.
.......... Eu não tinha este rosto de hoje,
.......... assim calmo, assim triste, assim magro,
.......... nem estes olhos tão vazios,
.......... nem o lábio amargo.

.......... Eu não tinha estas mãos sem força,
.......... tão paradas e frias e mortas;
.......... eu não tinha este coração
.......... que nem se mostra.

.......... Eu não dei por esta mudança,
.......... tão simples, tão certa, tão fácil:
.......... – Em que espelho ficou perdida
.......... a minha face?
..........
Cecília Meireles, Viagem, 1939
.
.
.
Mais je n'ai jamais ressemblé à cela! – Comment le savez-vouz ? Qu'est-ce que ce « vous » auquel vous ressembleriez ou ne ressembleriez pas ? Où le prendre ? A quel étalon morphologique ou expressif ? Où est votre corps de vérité ? Vous êtes le seul à ne pouvoir jamais vous voir qu'en image, vous ne voyez jamais vos yeux, sinon abêtis par le regard qu'ils posent sur le miroir ou sur l'objectif (il m'intéresserait seulement de voir mes yeux quand ils te regardent) : même et surtout pour votre corps, vous êtes condamné à l'imaginaire.
..........
Roland Barthes, Roland Barthes, 1975
.
.
.
Mas eu nunca pareci com isto! – Como é que você sabe? Que é este "você" com o qual você se parecia ou não? Onde tomá-lo? Segundo que padrão morfológico ou expressivo? Onde está seu corpo de verdade? Você é o único que só pode se ver em imagem, você nunca vê seus olhos, a não ser abobalhados pelo olhar que eles pousam sobre o espelho ou sobre a objetiva (interessar-me-ia somente ver meus olhos quando eles te olham): mesmo e sobretudo quanto a seu corpo, você está condenado ao imaginário.
..........
Roland Barthes, Roland Barthes, 1975
trad. Leyla Perrone-Moisés
.
.
.
Lo que pasa es que se creen sabios –dice de golpe–. Se creen sabios porque han juntado un montón de libros y se los han comido. Me da risa, porque en realidad son buenos muchachos y viven convencidos de que lo que estudian y lo que hacen son cosas muy difíciles y profundas. En el circo es igual, Bruno, y entre nosotros es igual. La gente se figura que algunas cosas son el colmo de la dificultad, y por eso aplauden a los trapecistas, o a mí. Yo no sé qué se imaginan, que uno se está haciendo pedazos para tocar bien, o que el trapecista se rompe los tendones cada vez que da un salto. En realidad las cosas verdaderamente difíciles son otras tan distintas, todo lo que la gente cree poder hacer a cada momento. Mirar, por ejemplo, o comprender a un perro o a un gato. Esas son las dificultades, las grandes dificultades. Anoche se me ocurrió mirarme en este espejito, y te aseguro que era tan terriblemente difícil que casi me tiro de la cama. Imagínate que te estás viendo a ti mismo; eso tan sólo basta para quedarse frío durante media hora. Realmente ese tipo no soy yo, en el primer momento he sentido claramente que no era yo. Lo agarré de sorpresa, de refilón, y supe que no era yo. Eso lo sentía, y cuando algo se siente... Pero es como en Palm Beach, sobre una ola te cae la segunda, y después otra... Apenas has sentido ya viene lo otro, vienen las palabras... No, no son las palabras, son lo que está en las palabras, esa especie de cola de pegar, esa baba. Y la baba viene y te tapa, y te convence de que el del espejo eres tú. Claro, pero cómo no darse cuenta. Pero si soy yo, con mi pelo, esta cicatriz. Y la gente no se da cuenta de que lo único que aceptan es la baba, y por eso les parece tan fácil mirarse al espejo. O cortar un pedazo de pan con un cuchillo. ¿Tú has cortado un pedazo de pan con un cuchillo?
.
Julio Cortázar, Johnny Carter en "El Perseguidor",
Las Armas Secretas, 1959
.
.
.
Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta.

Machado de Assis, Bentinho em Dom Casmurro, 1899

 
 

condenado à vida

.
40
..
.
“Ah... não m'importa mais as desforras, a ameaça de faca, a de tiro, o muro estendido que chicletiza com tudo, nem a tendência de se deparar com dez antipáticos a cada doze pessoas, nem o freio esculhambado da troca das estações denegridas, nem a persistência de encadeamento dos pensamentos errados; nem essa infusão de dor ressentida, nem esse músculo estripado, nem esse dente que perdido se cravou na cava da cova cardíaca; agora eu tenho o que m'importa, agora eu tenho essa importância: a cara nova que me foi concedida quando eu lhe disse aquelas palavras, a cara nova que eu nem sabia que tinha quando as palavras que eu nem sabia qu'eu tinha eu lhe ofereci, a consequência, das palavras, em cara nova revelando a mim mesmo e a ela (cara) o que nós ambos não sabíamos haver; – e isso só poderia vir assim do poço, depois do fundo, do momento oco em que parece não haver mais gancho a sair; ganchos de salvação; ganchos de salvamento; ganchos de se pegar para não cair no nada triste que se de repente é; então vêm com uma, só se pode dizer inesperadíssima gentileza, as palavras até então não ditas mas justas apesar de guardadas; saem, retas (mas não como setas, ou tapas, ou taconadas), saem, como a rotação da Terra, incisiva e lenta, gigante e delicadíssima na imensidão em volta; essas minhas palavras sentidas; na cara nova; essa cara nova dela a nos fazer sentir vida, re-sentir a nossa vida que já era nossa” disse, em riso, ao sair de onde estavam, a ala de tralhas da mina velha de onde estavam, ele e a outra pessoa, da qual conseguiu tirar, não sem espanto, não sem surpresa, esta nova cara, espantada, espantosa, espantosa/espantada e generosa.
.
6junho01
.
.
.
.
.

cena

.
.
.

.
.
.

condenado à vida

.
41
.
.
Seu olho se abriu naquela manhã como um sol para a luz do dia. Tudo já havia ajeitado de antevéspera; o capote, a capa, as chaves sobre a mesa, prato e talher lavados e enxutos e guardados no armário com o copo, seco. Sai da cama; pontualmente. Na hora de pôr o chapéu, que era a última peça depois da arma no coldre sob o paletó no colete, percebe-o imediatamente roído por inteiro no seu entorno. De raiva pega uma haste do encosto de sua cadeira de ferro, encurva-a, e prega no coco que sobrara com uma mistura de graxa e cola instantânea e banha em lata, sem se sujar. Sai finalmente. À chegada no prédio – no grande vão livre interno de muitos elevadores ao qual os andares abrem sacadas até o telhado – espera à porta de um dos muitos (elevadores) e quando este se abre antes de dar o passo sente o tinir violento que faz tremer sua testa: uma moeda fora caída lá de cima e lhe atingiria em cheio se não fosse a nova moldura sobre os cabelos. Abaixou-se para catar o elemento logo parado na parte de dentro do elevador ainda aberto; abaixara-se e – kstrank! – as portas duplas com outra violência se fecharam no momento mesmo de sua cabeça no caminho; mas a haste em aro evitou o aperto, mesmo o esmagamento, e do obstáculo encontrado as portas voltaram a, corrediças, abrir-se. Com o abalo que enfim não deixara de ser um, caiu para trás depois de dois passos em desequilíbrio ao tentar levantar-se rápido, caiu justo onde os degraus da larga escada de incêndio se iniciavam, iria de nuca na quina: mas a moldura nova com sua férrea curva evita o atrito que fatalmente lhe fraturaria o crânio o pondo indefinidamente leso por anos, em sono. Três acidentes de a um só tempo salvo: moeda/elevador/ tombo, tranco da queda dela, tranco das portas, tranco do tombo, e de a um só tempo não, sim por uma só peça: a haste em curva nova, seu ferro da cadeira em casa enxertado ao resto do chapéu danificado em redondo. Salvo por um rato, portanto (fora evidentemente um rato, o rato esporádico do seu apartamento que ressurgira àquela noite para roer unicamente o seu chapéu). E quem sabe não sendo acidente o primeiro: a moeda a chapa a pequena massa metálica pode não ter caído mas ter sido caída lá de cima com mira, sabe-se lá por quem e qual razão imaginável. Não sem antes realizar seu compromisso – recuperou-se dos choques, tomou aquele mesmo elevador e subiu com a arma e chapéu e sua roupa r'espanada – no fim da tarde já havia requerido o B.O. e pretendia oficializar um processo triplo pelas três consequências culpáveis. Via-se a sair da delegacia resmungando o que só adiante lhe viria à consciência ao rememorar: ah a vida como é falsa, parece absurda, ridícula, por mais qu'eu me ponha em pé e passe a planejar seus lances. No boletim por extenso a justiça da ocorrência: Salvo por uma aba.
.
28junho01
.
.

.
.
.

dia(s)

.
.
(poema desentranhado de um lapso)
.
.
.
.................... um dia flor, um dia parco
.................... um dia porco, um dia marco
.................... um dia olor, um dia charco
.................... um dia fétido e consumo

.................... um dia a dor, um dia alado
.................... um dia passo, um dia pássaro
.................... um dia arado, um dia árido
.................... um dia com couve e a flor, e como

.................... um dia oco, um dia arco
.................... um dia íris, outro cansaço
.................... um dia esbarro, um dia atolo
.................... um dia é o dia: sem limite

.................... um dia foi-se, um dia adiantado
.................... um dia janto, sem apetite
.................... um dia a fome, põe seus enfeites
.................... um dia a lampadazinha explodiu no lavabo

.................... um dia raro, um dia apático
.................... um dia parado, dá-se um impulso
.................... um dia desabo, escorregando
.................... um dia o salto e o teto é que se vire

.................... um dia soneto, um dia sem verso
.................... um dia silêncio, um dia coreto
.................... um dia sou neto, um dia avoeço
.................... um dia, cego, viajo para o centro do centro

.................... um dia é o medo, um dia é o sexo
.................... um dia resfôlego, um dia ambidestro
.................... um dia é exercício, um dia é esquerdo
.................... um dia é o desfecho do nexo ensimesmado

.................... um dia é raro, um dia é avesso
.................... um dia é arco, seta, acerto
.................... num dia parco, parto
.................... e os charcos recobertos de asas sem seus corpos

.
.
fev.07
.
.
.

dia(s) II

.
.
(poema desentranhado de outro lapso)
.
.
.
.................... um dia feneço, um dia arquiteto
.................... um dia ladrilho, um dia só escoro
.................... um dia regurgito, tipos esquisitos
.................... um dia escaras das pálpebras dos meus ossos roxos

.................... um dia sempiterno, um dia átimo
.................... que ótimo, um dia digno
.................... um dia que deu certo e um dia errado
.................... no dia que deu errado o erro no ensolarado meio-dia

.................... um dia descanso, um dia trabalho
.................... um dia trabalho, um dia desamparo
.................... um dia desamparo, inquieto
.................... um dia nem o polvilho esfacelado e flácido no ralo da pia

.................... um dia concerto, um dia o maestro
.................... um dia baqueta, menos sinfônico
.................... um dia radiofônico, do outro lado do mundo
.................... um dia o músico errando a melodia no quarto do hotelzinho

....................
.................... um dia alavanca, um dia eco
.................... um dia alivia, um dia pedregulho
.................... um dia peco e um dia peco
.................... um dia peco e logo quando: os pecados não existiam
....................
.................... um dia bravático, um dia coragem
.................... um dia corado, um dia nublo
.................... um dia nuvem, nuvem de novo
.................... e o sol é um lago sempre aceso atrás de tudo
....................
.................... um dia sonho, um dia solidifico
.................... um dia suo, um dia sublimo
.................... um dia sumo, um dia apareço
.................... e nas dúzias de pares em conflito um dia lembro, esqueço
....................
.................... um dia lampejo, um dia labirinto
.................... um dia morcego, pirilampo sendo
.................... um dia o manejo, faca luzindo
.................... e os brilhos os brilhos brilhos, noite adentro
....................
.................... um dia no discurso, um dia o verbo
.................... um dia cancelo, afirmativo
.................... um dia o mar vivo, infinito
.................... e os vapores emanando, até no dia extinto
....................
.................... um dia é vinho, outro sabugo
.................... um dia milho, ajoelho
.................... um dia hino, não canto
.................... um dia o galo e o vento e o campanário e o deserto
....................
.................... um dia, amigo, nos encontramos
.................... um dia esta marca no barro, rastilho
.................... um dia o pavio é curto, corto
.................... um dia é comprido, e não cortamos


.................... um dia o dia é 24h e até logo
.................... um dia o relógio está sozinho e os cômodos
.................... um dia badalo e um dia ampulhetas no escuro
.................... um dia é o som das areias infiltrado pelos canos nem tão subterrâneos da cidade erodida
....................
.................... um dia sossego, um dia aplauso
.................... um dia conserto, fechado para balanço
.................... um dia o vendedor de aço no cruzamento
.................... e a dureza repentina escaldada no dia, diário
....................
.................... um dia é o sabugo, um dia espantalho
.................... um dia é corvos, vomitando gritos
.................... um dia saem dos quadros, os corvos pintados
.................... e os gritos os gritos os gritos, um dia, até quando
....................
.................... um dia esbarro, um dia arremesso
.................... um dia tráfego, um dia entulho
.................... um dia carrego o documento
.................... semeio – um dia – o festejo público no campo aberto
....................
.................... um dia cinema, um dia ao vivo
.................... um dia concordemos: terceiro apito
.................... um dia não há circo, nem mastro
.................... um dia o consolo, só vendo, estará na chuva escorrendo a cada gota cada pingo
....................
.................... um dia o sol, um dia o jarro
.................... o jarro derrama o sol, na mesa a frio
.................... um dia tremendo, pelo conflito
.................... mas a mesa sustenta: o brilho, e o dia do jarro em fogo e o próprio jarro fixo
....................
.................... um dia lava, um dia lavo
.................... um dia frenético, findo
.................... um dia finda, o fim do dia, dia fim, um, absoluto, abstrato
.................... dia
.
.
fev.07
.
.

dia(s) III

.
.
.
.
.................... um dia claro, um dia escuro
.................... um dia a essencialidade
.................... claro dia, escuro
.................... as raias da adversidade, dias

.................... dia sim, dia sonâmbulo
.................... dia não, dia nonsense
.................... um dia aberto para os entulhos
.................... dia luz, abajur de barro, um dia consolidado

.................... um dia absorvo, um dia engodo
.................... um dia tubérculos reincidentes
.................... um dia chovo: brotos ao contrário
.................... um dia o estagiário pôs fogo no escritório – simplesmente

.................... um dia o judeu é turco, o turco do Líbano
.................... um dia o mundo é Oriente – somo-nos
.................... nem médio, nem mínimo, só o todo, dia:
.................... e a granada de mão pode despedaçar o argumento, a
sustos

.................... um dia a malacacheta caiu da bacia
.................... um dia a alforria liberou Melquíades
.................... um dia a rodela era o que prendia, prendia
.................... um dia, ao meio do dia, o sol virou escudo e não caiu como
antigamente

.................... um dia pi, um dia fá sustenido
.................... um dia a melodia é pelas arestas do canyon
.................... um dia vi, um dia eu estava indistinto
.................... um dia a mancha do vinho se espalhou na grande avenida

.................... um dia distorcido, um dia filme nítido
.................... um dia distingo, um dia contemplo com tanta burrice
.................... um dia viabilizo, dia de circos, discos, contexto
.................... um dia é o xaxim no vaso, e o vaso é solto felizmente

.................... um dia crítico, um dia não critico
.................... um dia crianças criam mudas no campo abastado,
eloquente.
.................... um dia fabricam poças de vidro mas elas derretem-se rebeldes
.................... um dia é utensílio, penduricalho delicado na noite
.
.................... um dia a noite é o claro, e o escuro
.................... um dia a noite é a essencialidade
.................... um dia farejando os átomos o cão descobriu o lucro
.................... o lucro do dia (ser claro, ser fosco) ser adverso nos
escuros do núcleo

.
.
fev.07
.
.

condenado à vida

.
quadragésimo segundo e último
.
.
É uma vitrine pequena, com mais duas em cima outras três embaixo, sendo a desta a coluna do meio já que com outras três de um lado mais três do outro, painel-parede de quadrados envidraçados, a luz passa pelos vidros limpos, quadricula a calçada, o calçamento, a calçada, o prédio do outro lado, os que passam – e ela; ela que, parada a olhar esta (vitrine do centro), repara na coleção de inverno, no atendente que sem querer deixou cair o troco, na blusa de lã trançado especialmente pendurada e com broche no enfeite do boneco novo. De repente sorriu, franziu o sobrolho, virou-se e esse virão salvou-a porque da esquina oposta, detrás de um dos janelões opacos atrás do qual há um bar, saíra um tiro perdido de uma briga que começara e veio a estourar exato na vidraça que olhava e antes na sua própria cabeça se não fosse esse se-virar providencial; deu passos rápidos, se sacudiu de susto e dos destroços mas seguiu sem um arranhão, livrou-se também quando na avenida principal com a linha de trem um vergalhão passou-lhe raspando, quando o cedro despencou podre sobre a ponte frágil do regato logo após a sua passagem, quando o enxame ensandecido de abelhas assassinas passou ao largo mas colado a seus cabelos e não quis farejá-la; foi fazer uma visita na fábrica de fogos, uma faísca, explodiu, mas saíra pelos fundos, foi correndo contar o ocorrido à amiga, encontrou-a estrebuchando, de febre amarela, de erisipela, de peste bubônica, deu passos de costas, saiu ilesa, foi à farmácia ver se achava uma cibalena e a matilha do canil ao lado se desgarrou furiosa, metade só a cheirou, encarou-a, depois seguiu desabalada a outra que já se dispersava pelas outras ruas (O engraçado é que, nos meios-tempos, na correria, foi – foram-se-lhe – nascendo ideias, esboçando histórias, além das que já sugeriam os quadrados de montra quando inocente os olhava com seu pensamento e ela mesma às soltas; como por exemplo a do herói, o herói deveria fazer não sei quê para salvar o mundo, todos à sua volta o olham dubitativamente, ele pergunta: nenhum de vocês acredita que eu possa?, só uma criança nos olhos o olha, lhe diz sim através do olhar sem palavra, o herói renasce como uma vela reinsuflada, diz à criança: você salvou a humanidade... e vai, fazer a ação. Como a do outro homem: à medida que viajava e viajava muito pois era um vendedor autônomo, descobriu que envelhecia mais, mais rápido do que se não; era uma teoria de Einstein ao reverso que se insinuava, ou real como fora teorizada pois nunca chegara à compreensão de fato de uma das teorias einsteinianas; e não só quando viajava: quando veraneava, quando se locomovia, quando se movia; no começo seria o retraimento e retraiu-se, diminuiu as viagens, as caminhadas, as passadas, fixou-se; atarraxou-se; mas depois decide... movente: de novo me locomovo, qu'é que tem minha velhice, envelhecimento não me é nada, tudo o que eu tenho tudo o que eu sou, tudo em que eu estou é o movimento, movimento meu.) ruas e ruas depois atravessou e um táxi não atropelou-a, identificou uma primeira rachadura de ponta a ponta na avenida e ignorou-a, quis ignorá-la, o balão já incendido caiu e se propagou no telhado da sua casa pouco antes de pôr a mão na maçaneta; não viu a roda-gigante quando ela veio às suas costas desprendida, não viu a vasilha de pizza cheia de óleo quente que sem mais nem menos lançaram da cozinha do restaurante, não viu a picareta que depois de caída da carroçaria do caminhão de transporte para indústria ficara fincada em posição de acidente, a roda-gigante fora ouvida mas não a tempo, engolfou-a mas no interstício entre duas traquitanas de cabine o seu corpo saiu ileso, nem a panela nem o óleo dela a atingiram porque no mesmo momento uma mudança abaixava um espelho do andar de cima, ele ficou entre uns e ela recebendo a batida e a queimadura de modo que ela só viu a si mesma se olhando tremendo quando virou ao espelho para ver o que era, a picareta manteve-se fixa mas por mudar de rumo por causa do susto dela nem chegou perto (Como a da moça, história mais amena, mulher que dormindo no seu próprio apartamento, alto, lá pelo treze, dorme e ressona no travesseiro, e chega a água pela janela; superfície de água como numa piscina, transbordando-lhe janela adentro; desperta, percebe, de olhos espremidos resolve se virar para o outro lado; a umidade chega aos pés da cama; então resolvendo sair correndo nada até o vão de entrada, sobe as escadas de emergência aos sobressaltos, alcança o terraço ao qual nunca tinha ido, proibida, vê a cidade submersa, vê a cidade submersa, continua a vendo; alívio para o frio: as toalhas ainda mornas do calor da tarde passada, estendidas no varal pelo síndico. Como a da mensagem, bilhete gravado, cravado em chapa, do urbanista que não se ateve ao luxo de se dar um nome ou a este acinte como talvez pensasse: “As estrelas, assim visíveis por debaixo da atmosfera, são também úteis para relembrarmos nossa condição pequena, para representearmo-nos com a lembrança de que a grandeza da Vida é muito maior, mais ilimitada do que julgamos ou que até então julgávamos. Na cidade, além de tudo, é portanto menor o índice a essa relembrança; pela poluição, e pela sua luz grande, que as apagam. Que as apagam; e é por isso que nós, com a nossa luz própria, precisamos acendê-las ou torná-las reacendidas”.) perto das empresas de alumínio um policial a achou estranha, quis prendê-la, quis intimá-la, quis intimidá-la com sua garrucha e o distintivo folhado de ouro falso ganhado há pouco quando promovido; um raio caiu-lhe sobre a cabeça, do policial, não dela; um esterco infectou meio mundo, um esterco infectou meio mundo foi o que o indigente de olhos agônicos veio-lhe dizendo da porta do cortiço e sujava-a de tinta, de caliça, de serragem conforme ia dizendo e se apegando a ela, e acariciando-a de sofrimento, e dizendo, e escorrendo os dedos no seu vestido, e dizendo, e dizendo; tropeçou (ela tropeçou na ponta de um trapo dele que a fez tropeçar por puxá-lo) caiu sobre uma mureta que não tinha visto que dava acesso a um nível de rua mais baixo, caiu sobre um elefante inflável que um pai levava sobre a cabeça já cheio de presente para o filho, o tal pai reclamou muito e ficou com dor no pescoço e teve ganas de assassiná-la num lampejo, ela caíra também do elefante e seguiu andando (Como a da hora selvagem, hora selvagem é um momento-chave em que o sujeito está pensando, parado entre muitos outros seres, atrasados, aquele desossa um frango vivo e os próprios dedos com os dentes, aquele isola um rinoceronte para fazê-lo asfixiar-se ao respirar só moscas, aquele o agride, o agride, em silêncio mas com os olhos, as pálpebras, os pelos e todos os poros e imóvel, aquele late mas gastou-se tanto que todo ele é um latido tóxico, rito de ódio, arcada nômade; parado o sujeito está pensando no que tem de enfrentar; um outro (por ora isento daquele conteúdo) lhe diz com todo respeito, atento e sincero pelo menos àquele que o escutará: “És capaz, todos nós somos vários, temos a hora-outra, essa hora-outra-coisa, de sangue e esguichamentos, de fúria túrgida, fúria bruta, ou bruta fúria, agora é a tua, é um período, uma etapa... vai”. Como a do cidadão comum, exemplar, digno de ser cortês e com cortesia ser tratado, consideração, que um dia atulhado de aperreios até o tampo ao chegar do serviço teve um clarão de intelecto ao se rever no cubículo ascensitivo do elevador lento, ideia que lhe daria o êxito para continuar não explodindo, não enlouquecendo muito, não morrendo e pôs-la em prática tão logo: mediu as laterais do piso, mandou fazer um vidro blindado não obstante transparíssimo, trocou-o pelo chão chapado do velho elevador até que sempre olhado mas nunca visto, e convocou a população do prédio com todos os pincéis e latas de tinta e para grafites possíveis; pintariam o fosso; pintaram; no lado de fora, na parte de baixo, acoplou holofotes nos quatro cantos, quando o elevador se fechava com gente dentro eles se acendiam e o passageiro morador do veículo assistia ao túnel de cores e figuras e imagens subindo ou descendo conforme descesse ou subisse; acrescentou ainda em todas as placas de VEJA SE O ELEVADOR ESTÁ PRESENTE ANTES DE INGRESSAR uma explicação do tipo este especificamente é desse jeito, assim e assado, prevenindo possíveis medos convulsos ou passageiros cardíacos ou terminantemente contra túneis luminosos.) andando creu estar sendo seguida a partir de um dado trajeto por passos invisíveis cada vez mais e mais altos, os passos a pegariam, cresceriam de volume e ritmo, eles a detectam certeiros, a encontrarão onde que com seus barulhos a induzem a ir, a farão rogar por socorro, um socorro pânico, no qual a boca é cimento, no qual não só o arame mas o Universo é farpado, eles dão os últimos passos e se apresentam, desmascaram-se materializando-se, revelam-se assenhorando-a para o precipício – mas nada disso passam é longe ou esmorecem sonidos chochos ou ecos de um outro caminho, ecos de um outro caminho; na Radial um bonde-fantasma a atropelou mas foi só o outro susto do vento a varando, na transversal uma procissão de ratos cruzou devorando o que encontrava mas pausaram para que ela passasse, do ritual de uma feira religiosa um descompasso se expeliu e a atacaria de pronto se não fosse vê-la assim harmoniosa atravessando a feira (E mais, não só histórias, debuxos delas, lhe vinham, mas também estalavam ou melhor pipocavam porque como pipocas, ideias das mais abstrusas, referências que já não pensava que tinha, por exemplo: epígrafes, sim, nítidas como se do rés da memória desprendendo-se, trechos que a ela pareciam tanto placas, convite de entrada para que as histórias minassem. “Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.” ou “Partimo-nos. Mais não nos vimos. Fui andando, fui pensando, já com outros intestinos. Eu, sobrevivente.” ou aquele que em outros tempos chegara mesmo a querer usar para explorar uns ângulos de si mesma: “Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de vida e de criação”.) atravessando a feira topou com um mal-estar do estômago, não sei se dela, não sei se meu ou de um terceiro que vinha a observando, tomou rápida uma cerveja da tenda de secos e molhados, roubada, mas para uma causa de urgência, de saúde pública, o mal melhorou; as caixas-d'água começaram a estourar como fogos, uma quase a atingiu inteira na rua de saída, saiu seca, seca do seu percurso, queria encontrar o depósito mas quando o encontrou infelizmente já havia sido triturado e felizmente chegara um pouco depois pois se fosse antes também triturada seria; partiu para a descida da encosta (E mais, de um escritor sobre um outro, o qual: “Pois é este o enredo do Castelo: um homem, K., é, ao que se supõe, chamado à aldeia de um castelo e chega uma noite a esse lugar. Quer ser hospedado, mas os que o chamaram não sabem de nada sobre o chamado: não é, portanto, acolhido, embora também não seja propriamente mandado de volta. Toda sua vida posterior – todo o conteúdo posterior do livro – consiste, então, nas tentativas e esforços mil vezes repetidos para ser aceito. Isto é: sua vida toda é um nascimento contínuo, um infindável ‘vir ao mundo’”.) encosta abaixo na margem encontrou o bote não encontrado no depósito – já estava para ela? o bote para ela e por ela amarrado? – deu um chute no dragão (tubarão, peixe-escorpião descomunal) emergindo de um salto louco, pôs de lado a vela em farrapos mas deu atenção à aguada do fundo, mais ainda aos remos que nela boiavam mas irretocáveis para um uso, seu no caso (E mais, não só esses excertos de completos órgãos para novos órgãos completos (as histórias, que talvez mandem indícios para que ela as pesque e as abra numa mesa-papel ou rebata-as em uma língua-oral), não só esses issos mas os seus autores e títulos de origem, em se tratando dos últimos quatro sabe e agora mesmo está ciente de que se trata da águia falando à outra águia acerca de Ahasverus no Viver! de Machado de Assis, de Sobre a Escova e a Dúvida de Guimarães Rosa no seu Tutaméia, de Clarice Lispector em A Bravata de sua Descoberta do Mundo, de Günther Anders em seu Kafka: Pró e Contra sobre Kafka, respectivamente, e quer mais? vêm também uma a uma as páginas exatas das edições que um dia lhe estiveram à mostra e os seus números, 550, 676, 150, 26, respectivamente também – e ela ri, riu constatando, revirando a memória brinquedo nas mãos, imenso, e ri depois de uma curta pausa: porque além do mais num retrocesso resgatou o porquê de ter se virado naquele começo em frente à loja de vitrines – porque de relance tivera visto uma inscrição na parede do lado de lá da rua atrás de si que no brilho do vidro aparecia ao contrário pelo reflexo, era um E trocado no início e uma espécie de exclamação sem pingo no fim, chegara a ler de frente ao virar mas só agora há pouco nesses segundos lembrava-se: 'CABOU-SE; 'cabou-se fora o que picharam no muro, um 'cabou-se de letras grossas de betume, o 'cabou-se assim, cabal, com apóstrofo. Ri e rema, rema e ri, como uma ampulheta sem reservas, como um parêntese não se fecha, como as suas pupilas filmando a ilha que deixa [tudo isso se passava na ilha, se já não se disse], a ilha que deixa a ruir, a ruir e rema, geleira quente desmontada, penedos dando ondas, fragmentos e espuma, ronco de trovoada, para baixo, afundando a toda, ela olha, ela lembra, rema, ri, sente as falanges calejadas as falanges calejadas os calos são benéficos ela quer crer e diz, ela, de frente para o naufrágio, ela de frente para o seu caminho arrastado na água, ela na noite na lida na ida de vestido liso ela: que ainda haveria de ser mãe, avó, bisa, tátara.
.
21e2e3agosto01
.
..
.

.

estás

.
.

.
.
Você está no fantástico instante. É este, em que dentro do fosso as frestas se umedecem, em que os nódulos dos troncos se movem imperceptíveis mas se movem, em que as pétalas rangem. O fantástico instante é este. Em que teu pulmão vai e vem no comando do que insabe-se. E a mesa é de lei, e a floresta a sente-se, e em Katoomba há um azul pelo suor dos eucaliptos com a luz do sol que o vara e decompõe-se-lhe. Você está no fantástico instante. (Na 23 de Maio, que é uma avenida grande com muitas faixas que vivem cheias, naquele lugar em que há um paredão o homem passa entre ele e a via, na calçada estreita, de chapéu e roupas finas com uma sacola velha, de cabeça baixa anda, a contrafluxo dos carros; talvez consiga se proteger da zoada, engrossar a roupa fina, ignorar a fumaça (essa mesma que os meus pais mastigam na sucessão dos dias ele mastiga), talvez consiga com força ser couraça – para viver; para viver se deter da vida; para sobreviver.) O instante é fantástico porque, grande, se prolonga em cadeias de portas iminentes. É o mar a se abrir agora. É os perfumes ao mesmo tempo na Terra. É a Terra a ser vista da nave que do alto dos seus quase 30.000 km/h assiste além da atmosfera aos continentes passando, à marcha dos pores do Sol e nasceres, e o astronauta da janela vê aquela tênue faixa na curva do horizonte e pensa no tudo de que dispomos, no que talvez não seja tão tudo: delicado. Mas – Deus – que leve, que tanta beleza. (É claro que a educação, o ensino, há de ser maravilhoso e talvez seja basicamente a coisa mais importante do mundo; que lugar é melhor, mais divertido, interessante, prazeroso, do que no que há descobertas, experiências, busca do saber e crescimento? ou por outra que lugar pode causar mais achados experimentos saberes, do que no que haja a diversão a efervescência do prazer e do que interessa?; mas a escola é versus a Escola, a escola instituída faz da Escola uma pilhéria, um pesadelo público, com muito sono; faz da alegria dos conheceres uma grande chatice e um beco oco – e quem diz isso, esses apelos, frases inúteis, não sou eu nem ninguém, é da mão de um anônimo, com uma tinta mista de giz e carvão com sangue no paredão límpido do órgão ACERTOS CORRECIONAIS PARA A SISTEMATIZAÇÃO DO TEOR EDUCATIVO.) O instante fantástico é uma flor – é a percepção desta flor – é a passagem a tal percepção – e a consciência e comoção por isso. É o pode ser: este silvo, esta noite chamando, fogueiras de São João, o acorde do acordeão que tanto arrebata incontinenti o meu amigo; o meu camelo – que de certa forma tenho no deserto distante – o meu medo – que me equilibra o estado ácido de meus ossos vivos – o meu selo para pôr no grande envelope – e procurar a caixa de correio cuja abertura condiga. Depois parei, disse: ouvistes? Tanto quanto nosco você está no instante fantástico. (Sim, podem haver os acidentes trágicos, as notícias de choque, o tumor repentino tão incrivelmente duro, condigno no seu obscuro compromisso; obscuro? ...a dúvida, o martírio de praxe, de decênios de séculos a passarem como anáguas, a donzela está no campo de batalha e muitas balas rasgaram, moribunda, confusa, cega de olhos desesperados continua a se estender em semicírculos; haverá dores lancinantes, principalmente o expectar de outras, engatilhadas... os mais que momentos os períodos ruins à espreita... ou o perfeito amargo, o Grão-Fado.) Que fantástico instante é este! Está nos rochedos, em cada polegada do corpo que tens de presente, no sorriso – no fato de ires explicá-lo e sorris junto –, está, aqui entre a gente: nos mistérios avante, no Novo ao vivo, bem disposto, ao alcance, ao alcance como quando mesmo sem óculos é possível, contemplar por exemplo esta copa de árvore, do dia claro, e estes globos, estes pontos, cristais aéreos, é como a “estrutura da luz”, a estrutura da luz, pessoalmente. Você está presente neste instante, fantástico, aberrante de intenso, sem termos que o defina a não ser completamente, sem trincheira, só de estacas-nuvem – ou arames-espuma. (A crise energética no país não é só no Brasil mas em todos, é mundialmente; e está escrito, está em todas as consciências de um modo ou de outro: crise energética – o que poder-se-ia tomar pelo menos em mais de um sentido mas é do elétrico mesmo que os jornais tratam; bom saber, pelo menos saber, de longe, roçadamente, porque não-luz, porque não-água, e mais difícil é imaginar o mundo sem Luz e Água do que sem Tempo. Crise... do latim crise; alteração a que sobrevém doença, agravamento, apendicite, estrupeio.) Você está no instante. O instante fantástico és-te, o fantástico instante és este. Que som, que olor, que sensação de toque; um pomo, uma passagem, pranchetas a postos, banho quente, frios revigorantes, beijo, o amor pode ser de verdade. Faça-se o já sem limites, suprima os parêntesis, siga direto, liso, em sobre-e-sob os mais relevos, grãos por dentro, lascas de xisto, pontes do submundo, abismos do alto, asas, topes, calcanhares. Flor. Danças e fôlego; só riso. Você está no fantástico instante... Você está no fantástico instante. Você, no fantástico instante.
.
maio.01
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
................................ na vasta areia
.
................................ catar os vidros
.
................................ para de novo outras
.
................................ ampulhetas
.

4.11.10
.
.

.


.


.


.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.