condenado à vida

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No grau de velocidade que se executa não é possível saber se é redonda, se se arredonda quando roda, se tem cerdas como postulam, se é de arestas-lâmina, quatro, um só quadrado vazado ou vários, interpostos como camas-de-gato de arames e pontas – tudo é possível (possivelmente tudo, a soma dos palpites já que os boatos não são absolutamente criados): a peça saiu do seu início (o seu início não é localizado ou zável mas sua existência ei-la é um fato aceito, orgânico) a peça saiu do seu início e desde aí com sua veloz acuidade sobredita segue o seu tiro; irá rebater sempre, se na direção do céu volta ao perder o impacto, roçou a nuca de Olofertes ao sair do cabeleireiro quase a degolá-lo, ricocheteou num prédio e chispou sobre um mercado cheio, chegou aos pés da cama de ferro de Juliana e levantou a ponta do travesseiro em que sua cabeça estava, bateu em dois dos duzentos alicerces da ponte de concreto a ligar à cidade baixa, por pouco não cortou cerce as pernas de Luís quando saltou ao descer da rampa, fez um floreio por influência do vento no candelabro do restaurante egípcio, ia mas desviou-se a troco de outra lufada acertar de frente a arcada de Matilda enquanto escovava os dentes diante do seu espelho preferido no banheiro, mergulhou no lago e foi revidada do fundo, se não fosse por dois pinos do estacionamento atingiria o peito de Arturo quando levava no garfo a polpa do seu ovo frito à boca enquanto comia na lanchonete. A peça rasga a carne com a facilidade de faca sobre espuma, de helicóptero na névoa fina, de precipitações sobre a luz do dia, essas pessoas correram risco e nem chegaram a cogitar, nem chegaram a intuir o rabo da sombra de um perigo, o perigo de no lapso perder a vida. A peça continua, zunindo, a zunidora (mas tão rápida que não a ouvem). Continua, apesar das ocorrências particulares, dos clímaces nas redondezas, na cidade, no país e no planeta em que continua a existir – por exemplo, aquelas pessoas (que, aliás, eram conhecidas entre si diga-se de passagem) praticamente num mesmo dia aconteceu de estarem distantes mas vivenciarem cada uma extremos tangíveis. Luís no meio da tarde acendeu todas as luzes, abriu todas as portas de armário e gavetas, sentou-se afastado da mesa e ficou olhando; Matilda arreou seu cavalo e saiu com ele a galope, ao que parece reta, sem planos; Juliana cortou seus balanços da casa de campo, fez uma fogueira com os despojos, fez novos e pendurou-os, cortou os novos e lançou-os no fogo, fez outros novos e pendurou-os, cortou e alimentou a fogueira, assim seguindo, ad infinitum enquanto pudesse; Arturo cercou a cerca viva do vizinho, cercava-a tanto para que a casa sufocasse, o vizinho não estava e quando chegou e foi conversar disse-lhe que a casa era sua, não dele, ao que o vizinho retorquiu mas não havia argumento, para ele era logiquíssimo, o vizinho cedeu um olhar compassivo e acendeu um cigarro feito plateia e à espera da polícia chegar; Olofertes quis arrancar sua conta bancária, sacar cada níquel, esvaziar a poupança, sangrar a conta-corrente, se possível também as de quem estivesse em volta, no mínimo incitar a que o fizessem, no mínimo que vituperassem o gerente ou mandassem o banqueiro-mor às favas, detalhe: Arturo não tinha nem nunca teve conta bancária. Não que, depois de anos, tenham se encontrado agindo de tal forma pela peça ter-lhes compartilhado o caminho. Há infindos casos, e a todo tempo vivos, de seres quer com peça quer sem peça passando perto no passado, agindo tão ou mais estranhamente, vendo-se vivendo-se em situações antes tão díspares e agora de suas próprias naturezas, não-impossíveis. A peça compartilhou e compartilha caminhos – compartilhará, incessantemente. Consta, segundo um depoimento, a visão do cavalo de Matilde, sozinho, cavalgando de passagem num campo.
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8fevereiro01
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