condenado à vida

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quadragésimo segundo e último
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É uma vitrine pequena, com mais duas em cima outras três embaixo, sendo a desta a coluna do meio já que com outras três de um lado mais três do outro, painel-parede de quadrados envidraçados, a luz passa pelos vidros limpos, quadricula a calçada, o calçamento, a calçada, o prédio do outro lado, os que passam – e ela; ela que, parada a olhar esta (vitrine do centro), repara na coleção de inverno, no atendente que sem querer deixou cair o troco, na blusa de lã trançado especialmente pendurada e com broche no enfeite do boneco novo. De repente sorriu, franziu o sobrolho, virou-se e esse virão salvou-a porque da esquina oposta, detrás de um dos janelões opacos atrás do qual há um bar, saíra um tiro perdido de uma briga que começara e veio a estourar exato na vidraça que olhava e antes na sua própria cabeça se não fosse esse se-virar providencial; deu passos rápidos, se sacudiu de susto e dos destroços mas seguiu sem um arranhão, livrou-se também quando na avenida principal com a linha de trem um vergalhão passou-lhe raspando, quando o cedro despencou podre sobre a ponte frágil do regato logo após a sua passagem, quando o enxame ensandecido de abelhas assassinas passou ao largo mas colado a seus cabelos e não quis farejá-la; foi fazer uma visita na fábrica de fogos, uma faísca, explodiu, mas saíra pelos fundos, foi correndo contar o ocorrido à amiga, encontrou-a estrebuchando, de febre amarela, de erisipela, de peste bubônica, deu passos de costas, saiu ilesa, foi à farmácia ver se achava uma cibalena e a matilha do canil ao lado se desgarrou furiosa, metade só a cheirou, encarou-a, depois seguiu desabalada a outra que já se dispersava pelas outras ruas (O engraçado é que, nos meios-tempos, na correria, foi – foram-se-lhe – nascendo ideias, esboçando histórias, além das que já sugeriam os quadrados de montra quando inocente os olhava com seu pensamento e ela mesma às soltas; como por exemplo a do herói, o herói deveria fazer não sei quê para salvar o mundo, todos à sua volta o olham dubitativamente, ele pergunta: nenhum de vocês acredita que eu possa?, só uma criança nos olhos o olha, lhe diz sim através do olhar sem palavra, o herói renasce como uma vela reinsuflada, diz à criança: você salvou a humanidade... e vai, fazer a ação. Como a do outro homem: à medida que viajava e viajava muito pois era um vendedor autônomo, descobriu que envelhecia mais, mais rápido do que se não; era uma teoria de Einstein ao reverso que se insinuava, ou real como fora teorizada pois nunca chegara à compreensão de fato de uma das teorias einsteinianas; e não só quando viajava: quando veraneava, quando se locomovia, quando se movia; no começo seria o retraimento e retraiu-se, diminuiu as viagens, as caminhadas, as passadas, fixou-se; atarraxou-se; mas depois decide... movente: de novo me locomovo, qu'é que tem minha velhice, envelhecimento não me é nada, tudo o que eu tenho tudo o que eu sou, tudo em que eu estou é o movimento, movimento meu.) ruas e ruas depois atravessou e um táxi não atropelou-a, identificou uma primeira rachadura de ponta a ponta na avenida e ignorou-a, quis ignorá-la, o balão já incendido caiu e se propagou no telhado da sua casa pouco antes de pôr a mão na maçaneta; não viu a roda-gigante quando ela veio às suas costas desprendida, não viu a vasilha de pizza cheia de óleo quente que sem mais nem menos lançaram da cozinha do restaurante, não viu a picareta que depois de caída da carroçaria do caminhão de transporte para indústria ficara fincada em posição de acidente, a roda-gigante fora ouvida mas não a tempo, engolfou-a mas no interstício entre duas traquitanas de cabine o seu corpo saiu ileso, nem a panela nem o óleo dela a atingiram porque no mesmo momento uma mudança abaixava um espelho do andar de cima, ele ficou entre uns e ela recebendo a batida e a queimadura de modo que ela só viu a si mesma se olhando tremendo quando virou ao espelho para ver o que era, a picareta manteve-se fixa mas por mudar de rumo por causa do susto dela nem chegou perto (Como a da moça, história mais amena, mulher que dormindo no seu próprio apartamento, alto, lá pelo treze, dorme e ressona no travesseiro, e chega a água pela janela; superfície de água como numa piscina, transbordando-lhe janela adentro; desperta, percebe, de olhos espremidos resolve se virar para o outro lado; a umidade chega aos pés da cama; então resolvendo sair correndo nada até o vão de entrada, sobe as escadas de emergência aos sobressaltos, alcança o terraço ao qual nunca tinha ido, proibida, vê a cidade submersa, vê a cidade submersa, continua a vendo; alívio para o frio: as toalhas ainda mornas do calor da tarde passada, estendidas no varal pelo síndico. Como a da mensagem, bilhete gravado, cravado em chapa, do urbanista que não se ateve ao luxo de se dar um nome ou a este acinte como talvez pensasse: “As estrelas, assim visíveis por debaixo da atmosfera, são também úteis para relembrarmos nossa condição pequena, para representearmo-nos com a lembrança de que a grandeza da Vida é muito maior, mais ilimitada do que julgamos ou que até então julgávamos. Na cidade, além de tudo, é portanto menor o índice a essa relembrança; pela poluição, e pela sua luz grande, que as apagam. Que as apagam; e é por isso que nós, com a nossa luz própria, precisamos acendê-las ou torná-las reacendidas”.) perto das empresas de alumínio um policial a achou estranha, quis prendê-la, quis intimá-la, quis intimidá-la com sua garrucha e o distintivo folhado de ouro falso ganhado há pouco quando promovido; um raio caiu-lhe sobre a cabeça, do policial, não dela; um esterco infectou meio mundo, um esterco infectou meio mundo foi o que o indigente de olhos agônicos veio-lhe dizendo da porta do cortiço e sujava-a de tinta, de caliça, de serragem conforme ia dizendo e se apegando a ela, e acariciando-a de sofrimento, e dizendo, e escorrendo os dedos no seu vestido, e dizendo, e dizendo; tropeçou (ela tropeçou na ponta de um trapo dele que a fez tropeçar por puxá-lo) caiu sobre uma mureta que não tinha visto que dava acesso a um nível de rua mais baixo, caiu sobre um elefante inflável que um pai levava sobre a cabeça já cheio de presente para o filho, o tal pai reclamou muito e ficou com dor no pescoço e teve ganas de assassiná-la num lampejo, ela caíra também do elefante e seguiu andando (Como a da hora selvagem, hora selvagem é um momento-chave em que o sujeito está pensando, parado entre muitos outros seres, atrasados, aquele desossa um frango vivo e os próprios dedos com os dentes, aquele isola um rinoceronte para fazê-lo asfixiar-se ao respirar só moscas, aquele o agride, o agride, em silêncio mas com os olhos, as pálpebras, os pelos e todos os poros e imóvel, aquele late mas gastou-se tanto que todo ele é um latido tóxico, rito de ódio, arcada nômade; parado o sujeito está pensando no que tem de enfrentar; um outro (por ora isento daquele conteúdo) lhe diz com todo respeito, atento e sincero pelo menos àquele que o escutará: “És capaz, todos nós somos vários, temos a hora-outra, essa hora-outra-coisa, de sangue e esguichamentos, de fúria túrgida, fúria bruta, ou bruta fúria, agora é a tua, é um período, uma etapa... vai”. Como a do cidadão comum, exemplar, digno de ser cortês e com cortesia ser tratado, consideração, que um dia atulhado de aperreios até o tampo ao chegar do serviço teve um clarão de intelecto ao se rever no cubículo ascensitivo do elevador lento, ideia que lhe daria o êxito para continuar não explodindo, não enlouquecendo muito, não morrendo e pôs-la em prática tão logo: mediu as laterais do piso, mandou fazer um vidro blindado não obstante transparíssimo, trocou-o pelo chão chapado do velho elevador até que sempre olhado mas nunca visto, e convocou a população do prédio com todos os pincéis e latas de tinta e para grafites possíveis; pintariam o fosso; pintaram; no lado de fora, na parte de baixo, acoplou holofotes nos quatro cantos, quando o elevador se fechava com gente dentro eles se acendiam e o passageiro morador do veículo assistia ao túnel de cores e figuras e imagens subindo ou descendo conforme descesse ou subisse; acrescentou ainda em todas as placas de VEJA SE O ELEVADOR ESTÁ PRESENTE ANTES DE INGRESSAR uma explicação do tipo este especificamente é desse jeito, assim e assado, prevenindo possíveis medos convulsos ou passageiros cardíacos ou terminantemente contra túneis luminosos.) andando creu estar sendo seguida a partir de um dado trajeto por passos invisíveis cada vez mais e mais altos, os passos a pegariam, cresceriam de volume e ritmo, eles a detectam certeiros, a encontrarão onde que com seus barulhos a induzem a ir, a farão rogar por socorro, um socorro pânico, no qual a boca é cimento, no qual não só o arame mas o Universo é farpado, eles dão os últimos passos e se apresentam, desmascaram-se materializando-se, revelam-se assenhorando-a para o precipício – mas nada disso passam é longe ou esmorecem sonidos chochos ou ecos de um outro caminho, ecos de um outro caminho; na Radial um bonde-fantasma a atropelou mas foi só o outro susto do vento a varando, na transversal uma procissão de ratos cruzou devorando o que encontrava mas pausaram para que ela passasse, do ritual de uma feira religiosa um descompasso se expeliu e a atacaria de pronto se não fosse vê-la assim harmoniosa atravessando a feira (E mais, não só histórias, debuxos delas, lhe vinham, mas também estalavam ou melhor pipocavam porque como pipocas, ideias das mais abstrusas, referências que já não pensava que tinha, por exemplo: epígrafes, sim, nítidas como se do rés da memória desprendendo-se, trechos que a ela pareciam tanto placas, convite de entrada para que as histórias minassem. “Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.” ou “Partimo-nos. Mais não nos vimos. Fui andando, fui pensando, já com outros intestinos. Eu, sobrevivente.” ou aquele que em outros tempos chegara mesmo a querer usar para explorar uns ângulos de si mesma: “Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de vida e de criação”.) atravessando a feira topou com um mal-estar do estômago, não sei se dela, não sei se meu ou de um terceiro que vinha a observando, tomou rápida uma cerveja da tenda de secos e molhados, roubada, mas para uma causa de urgência, de saúde pública, o mal melhorou; as caixas-d'água começaram a estourar como fogos, uma quase a atingiu inteira na rua de saída, saiu seca, seca do seu percurso, queria encontrar o depósito mas quando o encontrou infelizmente já havia sido triturado e felizmente chegara um pouco depois pois se fosse antes também triturada seria; partiu para a descida da encosta (E mais, de um escritor sobre um outro, o qual: “Pois é este o enredo do Castelo: um homem, K., é, ao que se supõe, chamado à aldeia de um castelo e chega uma noite a esse lugar. Quer ser hospedado, mas os que o chamaram não sabem de nada sobre o chamado: não é, portanto, acolhido, embora também não seja propriamente mandado de volta. Toda sua vida posterior – todo o conteúdo posterior do livro – consiste, então, nas tentativas e esforços mil vezes repetidos para ser aceito. Isto é: sua vida toda é um nascimento contínuo, um infindável ‘vir ao mundo’”.) encosta abaixo na margem encontrou o bote não encontrado no depósito – já estava para ela? o bote para ela e por ela amarrado? – deu um chute no dragão (tubarão, peixe-escorpião descomunal) emergindo de um salto louco, pôs de lado a vela em farrapos mas deu atenção à aguada do fundo, mais ainda aos remos que nela boiavam mas irretocáveis para um uso, seu no caso (E mais, não só esses excertos de completos órgãos para novos órgãos completos (as histórias, que talvez mandem indícios para que ela as pesque e as abra numa mesa-papel ou rebata-as em uma língua-oral), não só esses issos mas os seus autores e títulos de origem, em se tratando dos últimos quatro sabe e agora mesmo está ciente de que se trata da águia falando à outra águia acerca de Ahasverus no Viver! de Machado de Assis, de Sobre a Escova e a Dúvida de Guimarães Rosa no seu Tutaméia, de Clarice Lispector em A Bravata de sua Descoberta do Mundo, de Günther Anders em seu Kafka: Pró e Contra sobre Kafka, respectivamente, e quer mais? vêm também uma a uma as páginas exatas das edições que um dia lhe estiveram à mostra e os seus números, 550, 676, 150, 26, respectivamente também – e ela ri, riu constatando, revirando a memória brinquedo nas mãos, imenso, e ri depois de uma curta pausa: porque além do mais num retrocesso resgatou o porquê de ter se virado naquele começo em frente à loja de vitrines – porque de relance tivera visto uma inscrição na parede do lado de lá da rua atrás de si que no brilho do vidro aparecia ao contrário pelo reflexo, era um E trocado no início e uma espécie de exclamação sem pingo no fim, chegara a ler de frente ao virar mas só agora há pouco nesses segundos lembrava-se: 'CABOU-SE; 'cabou-se fora o que picharam no muro, um 'cabou-se de letras grossas de betume, o 'cabou-se assim, cabal, com apóstrofo. Ri e rema, rema e ri, como uma ampulheta sem reservas, como um parêntese não se fecha, como as suas pupilas filmando a ilha que deixa [tudo isso se passava na ilha, se já não se disse], a ilha que deixa a ruir, a ruir e rema, geleira quente desmontada, penedos dando ondas, fragmentos e espuma, ronco de trovoada, para baixo, afundando a toda, ela olha, ela lembra, rema, ri, sente as falanges calejadas as falanges calejadas os calos são benéficos ela quer crer e diz, ela, de frente para o naufrágio, ela de frente para o seu caminho arrastado na água, ela na noite na lida na ida de vestido liso ela: que ainda haveria de ser mãe, avó, bisa, tátara.
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21e2e3agosto01
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