condenado à vida

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Seu olho se abriu naquela manhã como um sol para a luz do dia. Tudo já havia ajeitado de antevéspera; o capote, a capa, as chaves sobre a mesa, prato e talher lavados e enxutos e guardados no armário com o copo, seco. Sai da cama; pontualmente. Na hora de pôr o chapéu, que era a última peça depois da arma no coldre sob o paletó no colete, percebe-o imediatamente roído por inteiro no seu entorno. De raiva pega uma haste do encosto de sua cadeira de ferro, encurva-a, e prega no coco que sobrara com uma mistura de graxa e cola instantânea e banha em lata, sem se sujar. Sai finalmente. À chegada no prédio – no grande vão livre interno de muitos elevadores ao qual os andares abrem sacadas até o telhado – espera à porta de um dos muitos (elevadores) e quando este se abre antes de dar o passo sente o tinir violento que faz tremer sua testa: uma moeda fora caída lá de cima e lhe atingiria em cheio se não fosse a nova moldura sobre os cabelos. Abaixou-se para catar o elemento logo parado na parte de dentro do elevador ainda aberto; abaixara-se e – kstrank! – as portas duplas com outra violência se fecharam no momento mesmo de sua cabeça no caminho; mas a haste em aro evitou o aperto, mesmo o esmagamento, e do obstáculo encontrado as portas voltaram a, corrediças, abrir-se. Com o abalo que enfim não deixara de ser um, caiu para trás depois de dois passos em desequilíbrio ao tentar levantar-se rápido, caiu justo onde os degraus da larga escada de incêndio se iniciavam, iria de nuca na quina: mas a moldura nova com sua férrea curva evita o atrito que fatalmente lhe fraturaria o crânio o pondo indefinidamente leso por anos, em sono. Três acidentes de a um só tempo salvo: moeda/elevador/ tombo, tranco da queda dela, tranco das portas, tranco do tombo, e de a um só tempo não, sim por uma só peça: a haste em curva nova, seu ferro da cadeira em casa enxertado ao resto do chapéu danificado em redondo. Salvo por um rato, portanto (fora evidentemente um rato, o rato esporádico do seu apartamento que ressurgira àquela noite para roer unicamente o seu chapéu). E quem sabe não sendo acidente o primeiro: a moeda a chapa a pequena massa metálica pode não ter caído mas ter sido caída lá de cima com mira, sabe-se lá por quem e qual razão imaginável. Não sem antes realizar seu compromisso – recuperou-se dos choques, tomou aquele mesmo elevador e subiu com a arma e chapéu e sua roupa r'espanada – no fim da tarde já havia requerido o B.O. e pretendia oficializar um processo triplo pelas três consequências culpáveis. Via-se a sair da delegacia resmungando o que só adiante lhe viria à consciência ao rememorar: ah a vida como é falsa, parece absurda, ridícula, por mais qu'eu me ponha em pé e passe a planejar seus lances. No boletim por extenso a justiça da ocorrência: Salvo por uma aba.
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28junho01
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