condenado à vida

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I, a prova
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Primeiro, o que é primeiro?, aquela inclusão, ser incluso, consumação do verbo, a ser, ser/estar, o que é um ponto: dois, o seu estado dentro e o entorno, depois o crescimento, em decorrência a ininterrupção disso, sentir-se líquido, sentir-se em líquido, líquida respiração, ir se excedendo para o sólido, descobrir-se ramo, ramos (em conjunto), desvendar-se – vestindo-se – como se fosse em bolsos em bolsos em bolsos, a bolsa sendo, espécie de oco ocupado, embora os próprios conceitos, oco, ocupado, são experimentados agora; ser experimento; o calor morno (o morno é a medida exata), o ajuste o acomodamento, a ambientação que apalpa, a alma em face a face, o testemunho, prático, e no centro um labirinto e o primeiro ponto, talvez o verdadeiro primeiro, pul... sam, pul... Para continuarem só que agora de ajuste tanto e tanta rama e justiça habitada a pressão cede o calor vira a liquidez se desgarra – num instante –, a luz, luz que coisa é isso, a brutalidade faz parte pois está-se com ela no momento, o grito para apesar de tudo, o grito para abrir o prosseguinte, o som saído no ar diferente (o primeiro ar do mais novo tempo).
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II, à prova
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Adalgisa mandou dizer: venham que eu estou afrontada, a dor no baço está que é uma coisa, já vejo tudo errado, assim como o Seu Pedro sem tempo de aviso, imaginou o bilhete, ah já vou tarde?, similarmente: Abel e Mário Júnior, quando a última onda que veriam subiu, Anacleta a menina de brinco de visgo, quando a sua roupa ia pegar fogo depois da explosão, Maria Silvana Sá, a senhora muito deitada naquela antepenúltima respiração da cama do hospital, o Jorge que depois da topada viu-se indo de testa na ponta aguda de pedra no chão, o Lucas, o garoto de sardas, que depois das 12h e 17min passou a sentir que o vírus que se-lhe-inoculara era e estava a mais do que pensava estar e ser, a Paula Helena que na sua expedição à mina deixou cair a lanterna e teve de relance a última visão que foi o sangue da palma cortada na fenda pois a lanterna caíra por causa da queda dela mesma, o boi, antes da pancada, o torturado, antes de dizer nunca, o acróbata de piscina, antes da pancada da nuca na cambalhota em queda ao sair do trampolim, o senhor atravessando a rua (ônibus), o garoto na overdose entusiasmada (enfarto), a turista imprecavida (dormiu profundamente na praia), ou então aquele meu primo de quinto grau que não via há meses, que na hora H irracionalmente lembrou de um poema que jamais julgara ainda estar na cabeça e não foi só como se o relesse mas como se de alguma forma também soubesse que estivesse sendo lido por todos aqueles: Morte a princípio / nos apercebemos dela / é deleite imortal está além / de nosso entendimento foi sempre assim. // Agora pela última vez possamos ter consciência. // Que nada e nada acabou dando errado. / Jamais é uma questão de crença. / É a lacerante e perpétua / brevidade da dor. – todos, todos por um momento (oco vento?) sentiram o sopro do que não puderam deixar de dizer que é: eterno – eternidade – este exatamente este breve estado perpétuo, lateja-dor, em si.
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24fevereiro01
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(poema de Richard Otram em “À espera de um eco: sobre a leitura de Richard Outram”, No Bosque do Espelho, Alberto Manguel, trad. Pedro Maia Soares - Death at first / it is borne in upon us / it is immortal delight it is past / our understanding it was ever thus. // Now for the last time may we be made aware. // That nothing and nothing went wrong. / It is never a question of belief. / It is the harrowed lifelong / brevity of grief.)
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