dezembros

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........................................................................................................................................ Meus olhos molhados
........................................................................................................................................ Insanos, dezembros
........................................................................................................................................ Mas quando me lembro
........................................................................................................................................ São anos dourados
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Tom Jobim/Chico Buarque, Anos Dourados
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Amanhã é dezembro. Fim de fogos, ano novo, rojões apontam; a árvore da vida ainda está florida apesar de tudo?; se loucos fôssemos bateríamos a cabeça, como loucos não somos batemos a cabeça assim mesmo pois cidadãos é o que somos; rever os reflexos – retomar os entulhos (do terminal de lixo de mil quilômetros) – repassar os trajetos dos mapas perdidos (ou resgatar os trajetos dos mapas ultrapassados) – passar pelo túnel do mesmo mergulho. Líquido. Esvai-se da mão janeiro fevereiro março. Carnaval do tempo; sambando em silêncio. Dezembro. Dezembros, dezembros, dezembros, digo. Desmembro. ..... (enquanto samba em silêncio)
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30.11.99
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Pronto, já é dezembro, estamos no seu corpo, seu corpo vitorioso de chegar a tanto, e daí, nada de novo, é o encanto rotineiro, o embasbacado decoro público em que vem diário sobrescrito, bah, socorram não socorram, dá no mesmo, a criança vai morrer, é negra e tem o nariz escorrendo, está no abandono com'um sem-teto que é, as migalhas desta minha casa não vão para ela vão para o lixo (o lixo de mil quilômetros), mas, porém, hab!, bah ao contrário, há sempre uma dessas conjunções esperancivas, possíveis à espreita, temos novos anonovos, o futuro abriu-se para a porta do controle, os meses são um colar onde pérolas pinguem, gota-a-gotejeiam sua delicadeza de frêmito, exorcizam, sacolejam, invocam, abrem alas para um outro período, com exceção a quando faltar espaço quando dão asas a perguntas, haverá mesmo ânimo na sucessão das contas que nos conjugam? que nos embalam em elo, que nos encadeiam em harmonia que nos harmonizam em cadeia? haverá, mesmo?
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1.12.99
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Com a luz de Sol que não é do meio-dia mas da cozinha à noite vazia mas forte branqueando até as mais frestas, escreve-se uma notícia do mundo, imaginariamente sobre o próprio mundo, como uma faixa de avião planando. Pode ser as terríveis CHUVAS DA VENEZUELA, a NEVE NA ARGÉLIA, os assassinatos em todos os estados não só palestino; pode ser a emoção excepcional de um aniversário quando os trovadores cantam, a de um gol de Copa do Mundo revisto pelo efeito de qualquer forma mágico do sistema televisivo, a moça que passa agora na rua como numa praia e solitária passa o Natal as festas o ano-novo e tanto quanto a multidão do Times Square antes da virada também faz parte do teu contexto, mundo. Pode ser o grito do cotidiano. Pode ser todos os cães do mundo, dormindo, para que os homens ouçam. Ouçam os sons finos que eles computam, ouçam-se a si mesmos e a tremenda ingenuidade opaca que já nem se esmurra sob o sentido disso, ouçam o sentido de polir seu bafo. Pode ser uma notícia de Tóquio. Qualquer dia o recado de um físico deixará claro que o longe e o perto são de outro modo e, por exemplo, eu ou aquele bêbado revoltado que foi pra Bahia poderemos dizer somos todos nipos e somos todos mulatos. Ou o físico já expede recados a torto e a direito e se dissolvem – nos nossos olhos, naqueles veios pequenos das pálpebras que a nosso comando se fecham, abrem, fecham, abrem, fecham; nas águas de março que agora em dezembro venezuelam, que agora em dezembro nevam na Argélia, que agora em dezembro, agora mesmo, em dezembro (se revoltam como o bêbado). Pode ser um oi, pode ser um até logo – pode ser. Pode ser um tiro – sempre abrupto, interrompendo, atropelando. Pode ser um feliz ano-novo! Embora a consciência saída da ressaca de Manhattan explodindo se pergunte o que feliz significa e o que quer dizer o novo. Embora perguntemos – ou para isso mesmo. A notícia, luzidia como a perfeição sutil de uma teia, noticia a condição de sermos – sermos, sermos, estica o seu arame, balança o seu móbile, planetário, e pede que sejamos mais, e depois nos dá um beijo.
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29.12.99
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Dezembro se precipita como as precipitações atmosféricas. Átimo-esferas: a graça da útil beleza pode estar na rapidez da roda, da fortuna, do trem de carga, da lágrima perolada, da casa sobre rodas. Daquele camundongo que mal passa com pressa, passou agora mesmo, atrás do milênio. A graça é... seria mesmo, pegar um carro que não precisaria ser grande em motor mas sim em um aparelho de som honesto, e sair pela estrada a rodar alto a Tábua, A Tábua de Esmeralda, já que a viagem “separará a terra do fogo e o sutil do espesso docemente com grande desvelo e assim com a força das coisas superiores e das coisas inferiores terá por esse meio a glória do mundo do mundo e toda obscuridade fugirá de si”.
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4.12.00
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Havia anotado há umas dúzias de dias para pôr aqui no dia 31 de dezembro: “tantas lembranças se perdem da própria vida (a esta mesma) – às vezes vem um perfume ou uma quebra de esquina e volta tudo, uma parte dele que parecia perdida –, se é assim, se já é assim com aqui, como lembrar das outras vidas que dizem que a gente teve outrora?” Mas agora: 31 de dezembro – em que tudo se finda (não a Vida), em que se exaure o último dia desse tal de milênio segundo este calendário que nos encara, em que as horas (para não deixar de falar delas) escorrem doudas como nunca [doudas como num verso de Castro Alves por exemplo], em que o dia continua digno como sempre com sua correnteza à mostra, em que aposta está a porta de todas as portas com suas fechaduras não sabemos até que ponto disponíveis; em que corre o rio o rio corre corre (embora esgotos, lodo): calo a boca impreterivelmente, não tenho língua. (Passa mais um velho avião do aeroporto.) Tantas lembranças se perdem na própria vida (nesta mesma) – às vezes vem um perfume ou uma quebra de esquina e volta tudo ou uma parte dele que parecia perdida –, se é assim, se já é assim com aqui, como lembrar das outras vidas que dizem que a gente teve outrora? Como lembrar desse caroço de fogo, manga ígnea, imensa carnaúba possível, meu fruto que trago comigo na palma no peito ou na serra de todos os órgãos, e não conheço?
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31.12.00
* Trovões rugem. Desculpem: rojões..
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