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Você está no fantástico instante. É este, em que dentro do fosso as frestas se umedecem, em que os nódulos dos troncos se movem imperceptíveis mas se movem, em que as pétalas rangem. O fantástico instante é este. Em que teu pulmão vai e vem no comando do que insabe-se. E a mesa é de lei, e a floresta a sente-se, e em Katoomba há um azul pelo suor dos eucaliptos com a luz do sol que o vara e decompõe-se-lhe. Você está no fantástico instante. (Na 23 de Maio, que é uma avenida grande com muitas faixas que vivem cheias, naquele lugar em que há um paredão o homem passa entre ele e a via, na calçada estreita, de chapéu e roupas finas com uma sacola velha, de cabeça baixa anda, a contrafluxo dos carros; talvez consiga se proteger da zoada, engrossar a roupa fina, ignorar a fumaça (essa mesma que os meus pais mastigam na sucessão dos dias ele mastiga), talvez consiga com força ser couraça – para viver; para viver se deter da vida; para sobreviver.) O instante é fantástico porque, grande, se prolonga em cadeias de portas iminentes. É o mar a se abrir agora. É os perfumes ao mesmo tempo na Terra. É a Terra a ser vista da nave que do alto dos seus quase 30.000 km/h assiste além da atmosfera aos continentes passando, à marcha dos pores do Sol e nasceres, e o astronauta da janela vê aquela tênue faixa na curva do horizonte e pensa no tudo de que dispomos, no que talvez não seja tão tudo: delicado. Mas – Deus – que leve, que tanta beleza. (É claro que a educação, o ensino, há de ser maravilhoso e talvez seja basicamente a coisa mais importante do mundo; que lugar é melhor, mais divertido, interessante, prazeroso, do que no que há descobertas, experiências, busca do saber e crescimento? ou por outra que lugar pode causar mais achados experimentos saberes, do que no que haja a diversão a efervescência do prazer e do que interessa?; mas a escola é versus a Escola, a escola instituída faz da Escola uma pilhéria, um pesadelo público, com muito sono; faz da alegria dos conheceres uma grande chatice e um beco oco – e quem diz isso, esses apelos, frases inúteis, não sou eu nem ninguém, é da mão de um anônimo, com uma tinta mista de giz e carvão com sangue no paredão límpido do órgão ACERTOS CORRECIONAIS PARA A SISTEMATIZAÇÃO DO TEOR EDUCATIVO.) O instante fantástico é uma flor – é a percepção desta flor – é a passagem a tal percepção – e a consciência e comoção por isso. É o pode ser: este silvo, esta noite chamando, fogueiras de São João, o acorde do acordeão que tanto arrebata incontinenti o meu amigo; o meu camelo – que de certa forma tenho no deserto distante – o meu medo – que me equilibra o estado ácido de meus ossos vivos – o meu selo para pôr no grande envelope – e procurar a caixa de correio cuja abertura condiga. Depois parei, disse: ouvistes? Tanto quanto nosco você está no instante fantástico. (Sim, podem haver os acidentes trágicos, as notícias de choque, o tumor repentino tão incrivelmente duro, condigno no seu obscuro compromisso; obscuro? ...a dúvida, o martírio de praxe, de decênios de séculos a passarem como anáguas, a donzela está no campo de batalha e muitas balas rasgaram, moribunda, confusa, cega de olhos desesperados continua a se estender em semicírculos; haverá dores lancinantes, principalmente o expectar de outras, engatilhadas... os mais que momentos os períodos ruins à espreita... ou o perfeito amargo, o Grão-Fado.) Que fantástico instante é este! Está nos rochedos, em cada polegada do corpo que tens de presente, no sorriso – no fato de ires explicá-lo e sorris junto –, está, aqui entre a gente: nos mistérios avante, no Novo ao vivo, bem disposto, ao alcance, ao alcance como quando mesmo sem óculos é possível, contemplar por exemplo esta copa de árvore, do dia claro, e estes globos, estes pontos, cristais aéreos, é como a “estrutura da luz”, a estrutura da luz, pessoalmente. Você está presente neste instante, fantástico, aberrante de intenso, sem termos que o defina a não ser completamente, sem trincheira, só de estacas-nuvem – ou arames-espuma. (A crise energética no país não é só no Brasil mas em todos, é mundialmente; e está escrito, está em todas as consciências de um modo ou de outro: crise energética – o que poder-se-ia tomar pelo menos em mais de um sentido mas é do elétrico mesmo que os jornais tratam; bom saber, pelo menos saber, de longe, roçadamente, porque não-luz, porque não-água, e mais difícil é imaginar o mundo sem Luz e Água do que sem Tempo. Crise... do latim crise; alteração a que sobrevém doença, agravamento, apendicite, estrupeio.) Você está no instante. O instante fantástico és-te, o fantástico instante és este. Que som, que olor, que sensação de toque; um pomo, uma passagem, pranchetas a postos, banho quente, frios revigorantes, beijo, o amor pode ser de verdade. Faça-se o já sem limites, suprima os parêntesis, siga direto, liso, em sobre-e-sob os mais relevos, grãos por dentro, lascas de xisto, pontes do submundo, abismos do alto, asas, topes, calcanhares. Flor. Danças e fôlego; só riso. Você está no fantástico instante... Você está no fantástico instante. Você, no fantástico instante.
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maio.01
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