condenado à vida

.
28
..
Túnel imenso, cidade, rio reto. Sintético assim se traduziu o instante já que o fluxo era tamanho, mas para os nossos sentidos simples mortais seria preciso declarar-se em mais termos, tais como: a cidade era enorme, o túnel, subterrâneo a ela, atravessava no centro, grosso, quer dizer, largo, mas grosso quer dizer também de parede espessa; uma só pois cilíndrica, só deixando passar o escuro, com uma única luz bem no fundo – de entrada? de saída? de mera lanterna, de prata, de fundo falso... (?) –, pode-se se sentir o lodo e o encaixe dos grandes monolitos se encurvando; embaixo, o rio – um rio raso no chão reto do túnel como desses de esgoto só que puro; fluindo; sem respingos. De repente vem lá da frente um afluxo monstruoso de líquido, o mesmo do raso rio só que agora tonitruoso para todos os lados de ondas se chocando e chocando outras muitas entre várias em muito menos de um mililitrossegundo, os milésimos incoercíveis do estouro. A água avassalando o lodo. A água arrastando até o aroma úmido e alisando os rochedos. A água a que não escapa tudo. E a correnteza baixa, não baixa, não sei se passa; e a consciência que presenciava, com seus olhos ou ela toda um olho, resiste; levitada, ao teto do túnel, mal se molha..
31maio00
.
.
.
.
.

Nenhum comentário: