condenado à vida

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[...] Por exemplo, em Montroig há magníficos
eucaliptos de casca belíssima. Observo a casca.
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Joan Miró, A cor dos meus sonhos
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Uma boa ideia seria juntar todo mundo para lavar a roupa suja, pôr os pratos na mesa, melhor, jogá-los no solo da cozinha, estilhaçá-los, como seria bom uma briga. Mas logo ao passo em que a ideia parecia passar a estratégia, plano se arquitetando, as pessoas envolvidas pareciam pressentir o seu cheiro, sentiam que o cotidiano as encurralava de um novo modo. Logo se distanciavam, novos compromissos, a hora do trânsito, preciso pegar minhas fotos, ah tenho que ir indo, me deixa. Ele não quis se olhar no espelho com medo de que a discussão seria com os cacos. Controlou-se, e montou um outro projeto: faria uma expedição à cidade; rua a rua cataria indícios, de cada quarteirão escolhido colheria amostragens, por exemplo o pêndulo de um reboco, o desencaixe de um paralelepípedo, um lixo inusitado, um vidro no muro, um vaso, a flor do vaso, o símbolo do capô de um carro depois de amassado no engavetamento, a borracha do salto que a moça não viu soltar-se, umas fezes secas de cachorro, outras de pombo, o tíquete que o passageiro jogou no lado de fora do cesto depois de usada a viagem. Planejou e fez isto mesmo: o reboco, a borracha, o acidente, as amostras do plantio do vaso – mas mal bem acabava, sem querer dando a volta, passando pelo mesmo caminho, encontrava os objetos ou fragmentos de objetos há agora mesmo recolhidos, repostos; o segmento do reboco, crescido, o desnível do paralelepípedo, reposto, o vigor do vaso e seu ser vivo, retomados, a flor desabrochando como gêmea, o símbolo renascido no capô amassado, a borracha nova repondo o salto, agora uma nova ponta no muro, agora o lixo recompleto, agora outros pombos e cachorros e o reexcremento de ambos, agora agora mesmo o tíquete de novo no chão ao lado do cesto por ser lançado do passageiro descontraído. A cidade (e parecia que mais a cada novos arranques) tinha reposição autossuficiente, camada de pele cheia de glóbulos brancos, indetectáveis, indeléveis, que ao menor descuido ou escrachadamente repunha seus menores detalhes. Como conseguir um recurso, uma paz de espírito num meio tão ativo e portanto tão intensamente inanalisável? Porém o resultado da coleta do seu esforço ainda existia, não se dissolvia num outro mundo, ainda se detinha no estado paralelo, os objetos à mão como desde o início tangíveis, inteiros. Pôs-los num saco com cuidado, carregou-os a um galpão arranjado de improviso (na entrada da cidade), espalhou-os um a um sobre o chão, no chão não: num grosso compensado com cortiça, colou-os como um tipo de mosaico. Ergueu o mosaico. O encaixou na parede do fundo, do chão ao teto. Poderia: ver os achados; poderia: se deparar com a colheita; poderia: medir os formatos pesquisar as matérias comparar as coincidências, teria, ao alcance dos dedos, em vias de fato, o mosaico para contemplá-lo ou repô-lo dos pés à cabeça ou pelas avessas ou de cabeçaprabaixo, o mosaico, o mosaico composto (e em si de estilhaços) – o que, sem sombras de dúvida, o faria respirar aliviado ou por outra resgatar o próprio fôlego, já que não atingira realizar o estouro da clareza dos gritos, motivador de tudo.
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21dezembro00
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