condenado à vida

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Quando, deitado, começar a sentir as ondas de calor se aproximando, e se lembrar de que são sinais do advento – a formação gradual dos raios (lêisers da essência do fogo) em interposição de escudo, trançado, malha não de carne viva mas só da vida de sua vida, soda cáustica, ácida, cretina, bem sobre o peito (está de costas na cama), a 1 centímetro e meio, 2 se tanto, chega-se a provar o sabor de seu bafo, a ver, nítido, mesmo através dos olhos fechados o vermelho negativo do flúor dos raios – e de que tal armadilha, ainda que previsível, ainda que anunciando a chegada, será do tipo que hipnotiza desde o início ainda que pareça dar tempo de fuga, será inflexível no desenho de sua trança, será tão corrosiva que até o ar não quererá alcançá-la na camada de milímetro que a toca, então se lembrará em seguida de que tal malha trará sua função embutida já que ambas não vivem separadas uma da outra, então ambas, função e malha, estarão aptas não só como uma cobra em estado de alerta mas como a alavanca que mantém apto o bote dela, o bote dela a alma dos raios, dos seus cruzamentos, então tais raios servirão como queiram, cumprirão seu serviço – de lhe queimarem até o osso se necessário qualquer movimento, de lhe frigirem a fundo qualquer fôlego exagerado ou sobressalto advindo disso, de lhe fulminarem qualquer excesso, qualquer excesso –; então depois deste interlúdio de recordações começará a vir de fato, a calorescência, as ondas, o trançado, o casamento sempiterno entre malha e função e o vermelho se instalando em peso; então se realçará sua vocação do não-movimento até então impossível; então regulará seus abalos acima de tudo; chegará a cair em sonhos cedendo ao cansaço, mas apesar dos resvalos e das dores nas costas já então em decênios, se surpreenderá vigilando e com seu rendimento e, no máximo, sentirá o cheiro fumegante da ponta dos cílios – fazendo um mínimo sssssssss.... – como já agora está sentindo.
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27março00
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