condenado à vida

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Neste mundo há uma superfície quadriculada, chão xadrez formado de capitéis de colunas. Elas são retas e altíssimas tocando-se somente nas quinas. O sol precisa passar bem em cima para chegar a iluminar os fundos quadrados de terra. Pessoas há neste planeta; que habitam estas tocas retas, verticais cavernas apenas abertas na tampa, significa: destampadas. Mas como já se disse muito altas. Nenhum quadrado é ocupado por mais de uma pessoa. Muitos, vazios. De modo que – no máximo – cada uma pode ter outras quatro próximas a ela já que cada quina representa o contato à quina de um outro recinto espaçado, já que cada parede é a parede de um espaço compacto de coluna; de modo que no máximo pode ter outras oito numa segunda distância, que é a dos espaços vazados que estão mais próximos aos quatro que circundam o qual ocupa. Estar próximo – ainda que com os doze cubículos individuais ocupados – não significa comunicação; a junção das quinas é firme e muito sem vão e há casos de quem leva décadas até julgar outro espaço além ou mesmo nunca julga. É mais comum que julgue espaço atrás das paredes (onde não há) pois há quem diga que a compacta coluna emite sons e estalidos raros através dos supostos veios de sua matéria. Portanto cada pessoa tem o direito (quando descobre-o, quando sabe-o seu) de ter no máximo quatro pessoas mais próximas e outras oito mas menos próximas e em casos raríssimos outras doze de um terceiro escalão mas estas sim já rarefeitas – claro que há a possibilidade das informações irem se transmigrando e cada ocupante com fidedignidade faça chegar ao alcance de uma segunda quina o conhecimento de uma primeira e assim por diante; mas isto é praticamente inconsiderável. A pessoa pode olhar para cima (se não preferir fazer fendas das quinas, passagens, portas), pode com o recurso de “chaminé” como dizem os alpinistas se apoiar e subir ao esgueirar as costas e os pés umas numa parede e os outros na oposta, chegar até a boca, pisar sobre a chapa de uma das colunas em volta a ser escolhida. Haverá quem faça; que queira depois seguir pulando de chapa em chapa, que se agache nas beiras e pergunte se há alguém e quem é ou quem se julga ser lá embaixo, que procure uma corda ou um laço ou algum cabo de improviso, que dê a dica da chaminé para os que queiram, que não dê trela aos que não queiram, que dê mais conversa ou testemunho aos que sinta que parece que não querem mas querem de fato, que jogue uma moeda no vazio dos buracos para ouvi-las ressoarem um baque surdo, que queira saber até onde vai o mar uniforme de vãos e quadrados cheios que aos poucos se acurva e se perde na vista, que queira ver de onde e como é que é que o sol nasce e se põe, se realmente mesmo é como pensava que fosse quando lá de dentro. Alguém – tudo isso deveria, poderia ser em tom de pergunta, mas como estamos neste espaço... então não seria. Se fosse indagado seria sem graça, sem a “graça” do ser ser condenado à vida, de ser inconsciente, melhor: de não se saber consciente da subida que lhe pode fazer afastar a terra entre os quatro lados.
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6fevereiro01
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