condenado à vida

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O rolante carro de boi poderia ter uma câmera na roda, que – sobe, desce, mas mantendo uma só direção na tangente – revelaria aos outros de nós a visão em que transpasse, mas não tem, então cego presencia, passa pelo que acontece e depois – lembra, esquece? – leva com ele na inconsciência que gira: é um barranco, ao prumo cortado para a estrada atravessar, a parede de chão levantado, poroso, com algumas raízes, cupins, um ou outro toco, aqui já retapado um mundo de formigas outrora devassado num talho, tem um ponto, mais grosso, ponto mais ponderável, ainda nem buraco, bócio do terreno, talvez pequenamente mexa alguns grânulos. (Aproxima-se o carro.) Agora é visível, os grânulos esfarelam, a abertura começa a mover-se, se não é um vento que a abre, se não é uma mão, invisível como o vento. (O carro range de frente. O seu madeiro redondo, sol de sombra ambulante, na frente.) A tampa de terra aproveita e se desmonta, a toca disfarçada recebe o terremoto e se mostra, sai para o meio-dia e vê a sombra passageira, produz numa escala mínima uma outra tremedeira, sua. E o que guarda para a vida: do seu assombro sai em um minuto, em um pouco de segundos, a haste de uma violeta em precisa ação à estrada (e ao meio-dia e à roda e aos barulhos) abre suas pétalas, imediatamente desabrocha, veio do enrosco e já sabe o que é ser bela, trêmula. Perfuma, respira (só lá, na afeição de humanos se acanha, não larga mais cheiro, nunca mais quis se revelar). (O carro já foi, levando com ele seu campo de terreno em que estrondetroveja.) A violeta fica. Não tem mais sombra, mas tem o meio-dia, e barulhos sempre tem. Sonidos que ela escuta; o calor gostando de tocá-la. Vem a anta. A anta não vem da direção contrária da carroça nem da em que vinha: a anta cruza a pista, vem da ribanceira oposta. Se aproxima (agora sim como o carro de boi, mas no seu trote de quatro pernas, e um pouco mais ligeira) para e olha nos olhos a violeta. Está com fome. Mas não vai comê-la. A anta sabe (e sabe que a violeta sabe – uma o sentiu no bafo e a outra no bafo oloroso do seu perfume) que ambas morrerão na terra, e a tempo, na devida divisão de fatores. Agora era a vida, a hora de olhar em frente – ao que a anta viera e fazia, sem querer mas sendo como a roda, como ela um bocadinho, igualmente se ia, na virada de costas expediu uma brisa a dar na maior ventania até então para a planta, seguiu, dessa vez na saída, pela estrada, em que direção? A violeta, pensei que fossem meses semanas dias, emurcheceu dali a horas, as pétalas secas e descoloridas e encarquilhada caiu, o talo um naco de nada, mas não até então, até então reluziu e se inseriu da terra aberta, teve a visão, a polinização pressentida, as fibras e a pequena aderência trocando sua respiração com a Terra, o hálito quente como o de uma besta, como a quilômetros alguém a sentiu numa floresta (dois gnomos, antenas?), como a anta, tanto quanto e como ela, como agora mesmo anda e está intacta, até quando a brisa lhe for mais intensa e não vai querer de saber respirar. (Valesse-lhe, nem, andar escondida nos matos, ressabiando os descampados. Sem longe, sem triz, ao grado de um Iô Isnar, em sórdido folguedo: condenada viva. – Rosa, Tapiiraiauara).
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25agosto00
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