condenado à vida

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Primeiro tropeçou na escada e depois no estabanamento dos gestos o desequilíbrio fez com que sentasse o cotovelo na quina do console. Abriu, mas passou um remédio no corte e quando já ia seguindo deixou cair o vidro e estava descalço: cortou o pé. A própria enlambuzada do acidente tratou em parte e infecção não era preocupante, de modo que lavou a situação (carpete e corte) e se meteu pelo corredor em direção ao quarto para de uma vez por todas vestir-se. Na varanda (não chegou perto) viu um vulto e ouviu um barulho e teve de aproximar-se, encontrou em pedaços o vaso dos vizinhos que o enviaram sem aviso pela briga que ebuliam naquele instante. Quase caiu pois ao se apoiar na grade para reclamar ela ruiu nas bases, era chumbada! ainda teve tempo de pensar pois ao puxar para arrumá-la em vez disso ela se arrebentou de vez e ele de fato caiu. Era só um andar. Por sorte passava um jardineiro com seu carrinho cheio de um metro quadrado de terra e grama, ele caiu sobre o jardineiro não o machucando mas xingando-o muito (quero dizer, sendo muito por ele xingado), espanou o espirro dos torrões e já que também por sorte já estava vestido pois vestira-se antes do vulto, encetou no rumo da casa de sua irmã, incontinenti, sem encarar o jardineiro – não sentira que seria um dia ruim mas agora estava certo, mal acordara e lhe subiam os sintomas de uma crise nervosa, necessitava uma mão, consolação fraternal, ou não tão fraternal, se não fosse a irmã seria o padeiro, se a padaria fechada roubaria um pão, se não desse jeito poderia mesmo cortar caminho, invadir a delegacia e desabafar acusações contra as injustiças zombeteiras do dia. Chegou na irmã, era logo ali; mas na entrada muitos carros de polícia, será que é porque eu pensei na delegacia?, a curiosidade acumulando, cordão de isolamento, empurro-não-empurro, os olhos sedentos de um auê. Fôra à noite: um ou mais vândalos arrombaram o apartamento, em silêncio não sabiam como, retalharam-na todo o corpo, os pedaços espalhados, cada membro em um cômodo, coisa horrível. Pensou logo na irmã mas se tratava de uma vizinha do andar de cima – vizinhos, vizinhos... –, a irmã não estava, conseguiu se esgueirar do rebanho porque os repórteres logo o enxamaram quando o viram sair do prédio e finalmente deu numa rua vazia. Parou um pouco. Se esquecera do porquê que fora aonde a irmã morava. Mas começou a se lembrar do para que acordara naquele dia, do para que vinha acordando nos últimos dias durante as muitas semanas. A lembrança aos poucos se encorpava, lhe exauria a dúvida e o cansaço e a arrogância dos transtornos atabalhoados. Primeiro era a impressão de uma escada, depois uma sensação de equilíbrio que a pintava de rosa, ou azulava o fundo de onde se erguia destacando em contraste a sua forma... Trah! O impacto interrompeu tudo; um tijolo – saído sabe lá de onde – caíra seco e violento à sua direita no mesmo chão; as lascas formando um círculo, parte dele o atingindo, a barra da calça e o sapato marrons. A redondeza do rasto provava que ele caíra reto – mas reto? Ele olhou para cima e em cima o reto só indicava um céu azul, azul diferente daquele que até agora há pouco nele ressurgia, mas azul. Silêncio de novo. Olhou para baixo, para a linha normal, em frente. Perdera novamente o que lembrava? Perdia. Mas o nervoso passara; e a bílis da revolta; e aquele atabalhoo, trambolho, tropeço em qualquer coisa. Porque começou a considerar – o desenho de uma lógica – que o maremoto da sequidão daquele dia não impedia: queria, no fundo queria, que ele retomasse a sua escada, que ele recuperasse todo o sentido ao que ela ainda não conduzia. Parado na rua, ainda vazia, ele passava a perceber o marulho da vida das pessoas saindo pelas janelas e sentia que levemente oscilava, o lado de dentro com os pés só na ponta, o balanço do sentimento sem sujeira, o tremor, sem brocha sem tacha, lhe reapresentando os dias no corredor da rua. (De G. Rosa, ibidem: Temeu que também os vaqueiros vissem a poeireira, nem nuvem conforme abelhas enxames, lhe dando dúvida. Tão então, se isso dos outros receava, não era sinal de que devia somente continuar a seguir, por diante, aquela própria serra diretiva, como pelas apagadas linhas de um documento? Obedecendo a segredas coisas assim o espiritado da boiada – o balanceio.)
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25agosto00
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