condenado à vida

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As escadas rolantes subiam em conjunto de seis de um lado, desciam do outro em seis. O vão de cinquenta metros é circundado pela larga varanda balaustrada de titânio aonde as escadas levavam ou de onde saíam. Entre a colunata, vidros; mosaico de cacos em claro, sem ofuscar a disposição do titânio. O chão redondo lá de baixo de superfícies encadeadas de blocos de mármore raro, azuis levemente, um veio, outro, um ou outro esfumaçado. O teto, domo acrílico – de placas sobrepostas preenchendo o círculo, lâminas saindo do centro e espiralando, um couro côncavo e alto se visto de dentro de um bicho transparente e escamoso, ou plúmeo. Entre o chão e o teto claros, sem janelas a parede faz a curva da porta até a mesma, em sua malha de grafite seco rajada de cordas de alumínio escuro, verticais. Alguns basculantes (controlados de baixo em uma das caixas de controle, discretas). A porta simples; larga e da varanda ao solo, mas reta lado a lado, sem tabiques. Sem móveis; pavimento desnudo. Ele fora chamado para a reforma, para o novo “approach” do edifício, então pediu que todos saíssem, e tudo, para ter a dimensão do que é ser nele sozinho, daí concluir com a multidão. Felizmente, propositadamente era um dia luminoso. As mudanças não alterariam muito mas precisava de grandes movimentos, antevia mais escadas e espaçadas e de sentidos alternados, a parede a ser alisada com o seu método de derretimento, as posições da claraboia e se substituído o mecanismo só experimentando primeiro. Sabia que ganharia o contrato (isso já se decidira desde o momento em que lhe fora concedido o pedido de esvaziamento) mas não sabia se seria capaz de agrupar todos os detalhes necessários que antecipado sentia mas ainda não retinha com clareza, não sabia se daria conta de encaixar a chancelaria com elegância, não sabia se o trasladar da fonte sem ser desligada não seria demais para a diretoria ao imaginá-la passando pela porta, não sabia se o acréscimo de convidados em quem confiava não se atritaria com o transporte das escadas que deveria ser feito pela própria empresa; não sabia se iria compor a condução da empreitada, conseguir direcionar os trâmites como no passado o fizera, os trabalhadores (em ordenados e ordem), a lista de chegada, a tabela de contatos, o fornecimento de matéria-prima nem que fosse para os retoques. Admitia não ter sido excesso o pedido de desocupação do salão – o salãozão, enorme – mas admitia estar tremendo e o próprio hálito lhe sussurrava um som de vento em fresta de filme de terror. Fincou os pés no tatame [queria naquele instante que toda a varanda e sua circularidade fosse um tatame onde pudesse um pouco se deitar]. O anel tiniu no capitel do balaústre. Aquela suavidade aguda lhe deu a chance de uma surpresa, era como se conhecesse o som de suas ideias, a fonte de onde respingavam, a sineta que as abonava. Quis mais claro: tirou o anel do dedo e o atirou no mármore, ele descreveu um arco longe e antes de completar o silêncio da queda já ouviu na expectativa os ecos que sairiam do centro: o timbre o mesmo, o mesmo atrito, o mesmo fino espanto fino o espanto, só que propagados. O que lhe deu aquele nítido alento, a exceção de uma saudade ou a movimentação dos astros rangendo mais perto; podia não ser a convicção concreta, mas era a esperança em fibra, tocante, tocável, e o seu desfile nos buracos e saliências do salão quando ele ria. (Tão o primeiro, quite, trouxe a boiada conduzida, ao Seo Siqueira-assu, afinal, em Capiabas, sem arribada, sem dano. Tossisse, a barba grada, no empoeiramento, condenado nisso, mais uns vaqueiros esfalfados. E já de noite: enchida a lua. Então, apalpou de repente no coração a Bici, que notou que amava; que o amor menos é um gosto para se morder que um perfume, de respirar. Tinha o nome dela, levantado sozinho, feito prendida no tope do chapéu branquinha flor.
.......... Desapeava e olhando para trás em frente olhava, Doriano e tal, somenos espantado – do vão do sertão donde viera, a rota nada ou pouco entendida – nem sabendo o que a acontecer. Tendo a perfeita certeza. – João Guimarães Rosa, Sota e Barla)
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25agosto00
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