condenado à vida

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Para variar copiava uma frase – parecia-lhe que passava a vida ou a vida servia para passá-la copiando frases – copiava e durante a cópia morreu. Era não sei quê acerca de Epicuro, o filósofo grego que escreveu não sei quantos livros antes de Cristo e restaram poucos, trechos, fragmentos, mas discípulos, e um “engenho humano” multiplicado no tempo, na esteira dos anos (nas esteiras), semeado, invadindo outros homens o reinventando, em outros escritos, pensamentos, forças de vontade, traduzida em textos os quais um ou outro copista se mete a transcrever – como ele com aquele ali por exemplo na hora da morte. Faz-se necessário distinguir o verdadeiro prazer, estável, dos prazeres que resultam em pesares ou partem de carências, movendo-se entre insatisfações. – era o período do parágrafo sobre o qual ele tombara sem ter terminado e por essa ocorrência casual, arbitrária do acaso, em meio à ação banal da rotina, ele sem querer influenciara muitos, pelo menos aos poucos que o encontraram, daí a outros poucos, mais poucos, e poucos, talvez mais do que com o todo que acumulara durante a vida copiando. Porque as poucas, duas ou três pessoas que se depararam com seu corpo morto, quiseram entender, ver o momento, resgatar o ocorrido ou achar indícios do lapso. E investigaram tudo – a superfície possível; o corpo emborcado, os papéis por debaixo, se estavam amassados, em que ordem que estavam, como, o que estava escrito. Leram o escrito. Sentiam novos lapsos – só que não-mortos se olhavam uns aos outros e se surpreendiam de estarem vivos. Refletiam novos impérios, refaziam velhos concertos, assistiam a um sumiço, para achá-lo... foram algumas das frases que surgiram a um ou outro. Chegaram a desenterrar a caneta do peito e cuidaram da morte com cuidado – a morte do copista ainda vivo – sentindo mesmo um outro gosto no valor arraigado do enterro. Não sei se chegaram a pôr flores, não sei se houve túmulo ou laje e eles a reformaram depois de tantos anos exposta ao ar livre; sei que criaram novos enfeites, de todo toque surgia um jeito novo que os enfeitava, mudaram todo o cemitério. Isso tudo porque ele morrera antes do estável, nem copiara a frase inteira: Faz-se necessário distinguir o verdadeiro prazer [...] – e o tombo. Faz-se necessário distinguir o verdadeiro prazer... e o ponto – propagando nos outros.
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19junho00
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