condenado à vida

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Quando passou a sentir a pressão – primeiro fora um leve raspão, depois como se um índex exorbitante se apresentasse pousando as digitais nas suas costas, primeiro mais no alto, na nuca, depois descendo ao centro daí ao lombo todo, se alastrando, por igual, do atlas às nádegas – passou a evitar aproximação de muros, de placas baixas, de becos interruptos, de postes, de troncos, obstáculos repentinos, enfim, de fins frontais. Pressentia chegar a hora em que a força o espocasse por estar de frente a qualquer massa. Assim – logo se presume – foi ficando mais conflituosa sua relação com as existências do mundo, com as coisas. Se desviava das casas, escapava de longe dos objetos móveis, como pessoas, mesmo num campo andava de lado por segurança. Mesmo de lado ia andando menos, e menos e menos ia ao tolhimento extremo de parar: havia a massa do ar, a massa do próprio fôlego, tudo era massa. Caramujo – caramújico – (em si cálcio, em si valva, em si voltas que a concha dá) quis não querer mais para não ter prejuízo, quis o fim da dor do vai ou vem impossível, quis apenas o fim. Mas se tinha em si mesmo o impulso vivo, ativo e intransferível, como uma rede não retém o líquido; se por mais que quisesse não ser, não deixava de ter um pulso (querer era pelo menos pulsar, no mínimo) – transferiria, deixaria correr, a impressão do fura-bolo: faria (praticamente neutralizando o fazer) com que a opressão do dedo se transformasse em motor dos seus percursos, com que lhe motivasse conhecer os seus caminhos. Pensou nisso respirando fundo, e a própria ingestão de ar novo já era a descompressão de um sentido rítmico.
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30maio00
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