condenado à vida

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A casa, ilha como todas, tem à sua extrema direita o famoso corredor por onde passam as pessoas ilustres, inatingíveis, ligando as torres de TV ao centro da cidade; à esquerda está o muro, alto, grosso, forte, do começo até o fundo; de trás vem o barulho das avenidas sucessivas, o movimento, a vida andarilha dos povos (vários porque a cada dia morrem muitos e nascem outros); na frente há a passagem da porta e das janelas e a outra sucessão: das grades – abrir uma é acionar outra que, aberta, automatiza uma outra que acionará mais outras como garantia. De cima ouve-se o ruir dos trovões, de quando em quando, mesmo com o céu liso; mas o mais frequente são os helicópteros, como se chegando, avisando, à beira de virem no campo visível – depois engraçadamente o que passa é um transatlântico, ou milhões de canoas, ou uma galera solitária, e de todos veem-se os cascos, límpidos, e da galera, por exemplo, a pontuação dos remos na água (a água só visível pela impressão das remadas). Embaixo é a terra intransponível, de duros centímetros, duríssimos – mas logo abaixo há os quilômetros de lodo, flácido, massamundo só musgo, e barro, que não balançam nem um pouco o chão da casa mas têm sempre a iminência de balançá-la. De ruí-la. Como o excesso das avenidas, como a sordidez das hastes das grades, do muro, como o desgaste da passagem pelas pessoas, como a chuva que desce do céu limpo por entre os barcos, às vezes pelos helicópteros que não chegam. A casa mantém-se – a casa pode ser demolida num átimo – a casa que pode ser pulverizada imediatamente mantém-se. Até quando? ela não se pergunta, ela quer manter-se, ela não está para considerações dissonantes. Ela quer, na vibração da sua nota, sustentar suas vigas, ela quer, na tensão da sua corda sob a travessia, arejá-las, ela pensa, numa escala futura, vir a ser o que um pouco já é por pensar: entre tantas trancas uma arapuca às avessas.
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17abril00
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