condenado à vida

.
24
.
.
Arrancaram-lhe a cara como um escalpo e a jogaram no Espaço e lá, vagando, ele se manteve de corpo e alma só cara até que um míssil (teleguiado da Terra contra ela própria) apareceu na sua rota ou sua trajetória é que apareceu na dele e de cara o tomou pelo bico levando-o frontalmente na queda da imensidão geográfica – nunca pensara na velocidade ser tanta – levando-o direto a uma praia mas próximo tomou um desvio levando-o a um mergulho marítimo prosseguindo sem explodir até o fundo onde pararam: enterrados na areia. Sentia os grãos de areia, nos dentes da frente, no rosto, nas pálpebras – e a luz do oceano sobre a nuca (a luz do oceano sobre a sua não-nuca). Passaram-se anos, milênios; mas com um clic ele fez com que fosse num átimo, um infinitésimo Sempre. Quando reabriu os olhos estava sendo içado, o míssil fora resgatado, como relíquia, seria pesquisado, primeiro num laboratório depois num museu. Retrocederia pelo volume d'água, emergiria da correnteza, um guindaste o faria contemplar de cima a visão. Claro, querendo, eu aceito dizer que foi tudo um sonho, mas ao acordar sentiu as dores na cara e quis levantar-se e levou-se para as ruas avenidas estradas querendo recompor-se espalhado em cabeça tronco membros órgãos ossos contaminado-se de si mesmo sendo em tudo a fundo o que pudesse.
.
29março00
.
.
..
.
.

Nenhum comentário: