condenado à vida

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Seu estado era calamitoso, para usar um termo técnico, real, ponderado, estava em fase terminal, segundos o sustinham entre os outros, teria o tempo de um murmúrio, e para o encorpar de um sentido teria que orientar a voz antes que de vez lhe perdesse o controle; exalou o termo final, em som, o fôlego, pronunciando: bisnagra. Morreu. Quem viveu ficou louco, doido-curiosos queriam entender aquilo, chegaram mesmo a explanar considerações no velório, educados. Dizer loucos e todos será exagero se comparado a um deles, um amigo nem o mais íntimo, mas como os demais postado à beira do moribundo, sem explicações de repente tomado de uma audição sensível que a ele oferecera com clareza a emissão do suspiro mesmo agora e sempre o rememorando. Aos outros fora uma questão interessante, mas passageira; a ele tornou-se uma meta, uma insígnia, um dilema. Ponderavam amigáveis semiabraços: não era nada... devia ser a última palavra em que pensava... ou procurava encaixá-la ou nem sabia o que era... e estava na cabeça justamente pela ignorância... você sabe como ele ficava quando queria brincar com alguma coisa... deixa disso... – inútil; ele não desistia, ou a expressão dentro dele não lhe dava trégua. Seria um início de teoria? Um título de história? Um personagem nomeado, um índio, um agente secreto, uma rainha? Teria achado o sentido da vida, a pergunta certa, seríamos nós bisnagras em relação às portas divinas? Só sei que da palavra mórbida ergueu uma tese revitalizadora, um conceito para sua própria vida até aquele dia um tanto atônita, um tanto anestesiada pela consciência; mudou, com o termo em riste, com a equação que pulsa, com o apoio da dúvida, que seja.
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8fevereiro00
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