condenado à vida

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..................................... O fato de os resultados não serem bons não é prova de uma ascendência não divina. Num tal meio “clássico”,
..........................é preciso renunciar ao apoio de qualquer realidade. Que nutriente pode oferecer o pálido humanismo a um impulso
..........................elementar? Fica-se totalmente à mercê das nuvens. Ímpeto puro, sem substância. Montanhas altíssimas, sem base.
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Paul Klee, Diários
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Se o sujeito não agisse assim sentia que quebraria os próprios dentes, não a murro ou ato violento, mas eles mesmos em mero colapso engoliriam-se depois do trincamento em autochoque térmico, então o jeito era refugiar-se a modo de retiro religioso ou escalada a pico nevado de um país exótico ou descoberto finalmente no alto do território que lhe é direito. Não escalou, não rezou; deslocou-se ao que era possível, um barracão a 1 km de onde conheciam que ocupava. Manteve-se recluso por pelo menos... quantos anos? Muitos se pouco, décadas no mínimo. Na volta não foi de imediato mas o passo-a-passo do entendimento foi de um rigor implacabilíssimo: primeiro até o reconheciam, mas depois os cognoscíveis contatos iam se diluindo como a memória caduca ou como a clara que ainda que se apreenda não se pode prender, você... você quem é mesmo... chegou a pensar em complô, estavam de combinação para a vingança, mas a consequência das conversas, as consequentes não-conversas, as dúvidas, os desdobramentos dos e-agora, as expressões veras, as atônitas faltas de referência exigiam a certeza de que a situação era séria, era viva. Corroboraram as presenças físicas como sua consciência teve ainda o espírito de referir: os números telefônicos sem aviso mudados, o aspecto físico dos seus conhecidos ao vivo mudando-se, os seus documentos aos quais há muito não olhava de repente em sua mão: falsos, a sua casa descaradamente com outra fachada, a sua cara com cicatrizes sem registro de traumas enquanto outras varridas de cortes memoráveis, até um dia a gota-d'água de encontrar seu anel não mais de cobre com outro vão com outro peso com outra densidade agora de alguma liga de material plástico. A agonia reincidente, é como se as gengivas crescessem, aflorando na boca; cobririam a arcada, invadindo entre as fendas. O quê, o quê? Uma ação! Colheu papéis, tomou notas, decidiu compor uma obra ao recolher carretéis, ao escrever na costura, ao cobrir cada borda, bordava música, a linha da agulha dançando aos tropéis, traçava estruturas, de emblemas, de iniciais, de sua História, a almejada referência recuperada – uma almejada referência a recuperar-se em relações. Aos trancos e barrancos ainda teve tempo de atar-lhe um diário que quereria a explicar mais. Faz: tem consigo as partes formadas e tem a impulsão de direcionar essa espécie de tapeçaria que crê que erguera do chão à luz tão sonhada e, deseja, lhe reavalie banhando. Ergue os braços e abre os olhos deparando-se com a Desolação. É tão grande que não sabe seu nome, sente-a como um monumento, sem placa, como uma bomba que caída fora mantida ao não ter sido ativada – e no entanto a própria presença, explosiva, lhe estampava na cara toda sua alucinação silenciosa. Segura a obra, junge os retalhos, a aperta tanto que o branco dos dedos amassa; mas com a intenção nos nervos de que não se esquecessem, a intenção dos nervos de que não se esqueçam: a qualquer momento ainda poder abrir as palmas e revelar o que têm, dentro, expondo – oferecê-lo.
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4fevereiro00
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