condenado à vida

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As primeiras notícias não poderiam ser além de boatos, não passariam disso, se tanto, mas de tanto confirmarem-se repetirem-se infiltrarem-se nos lugares mais improváveis, tropeçando, trombando nos comentários, ficava claro que cedo ou tarde seriam fato: o evacuamento geral tornava-se urgente, sua data iminente cada vez mais chegava. À tal hora de tal e tal mês e dia todos os seres humanos deveriam estar rigorosamente dentro de suas casas – os que não as tivessem, que arranjassem. Haveria então um comunicado televisivo e/ou radiofônico ou telepático ou de outros meios explicando a Importância Premente – os carentes de veículos comunicativos, que os arranjassem. Sim, era indiscutível a realidade, mas desde o início, e crescentemente, ele desconfiou daquilo como de um atentado. Iria negar e não iria ficar em casa por todos os diabos. Não ficou. Na hora do comunicado todos os que o ouviram morreram. Sedentos, não se sabe se no início ou se por ouvi-lo inteiro, morreram. Só, começou a andar e de rua em rua dobrada mais e mais foi indo; aos poucos que como ele vagavam dirigia-se, mas assustavam-se e no choque que os repelia chegava a ter um pensamento plausível, quem sabe pros outros ele também era um assustado. Naquele dia, um dia escuro – lembraria-se muito, nitidamente por muitos anos – saiu em busca de um sinal telefônico que ainda não tocava, saiu em busca de mais sinais sonoros que não fossem só os dos ratos, saiu em busca de um reservatório qualquer de água: potável.
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29janeiro00
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