condenado à vida

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19
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À vista I
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Depois de um estalo vermelho foi como se caísse a força, a energia dos seus olhos desfez-se como uma coisa fácil, como a vida frágil diante de um tiro. Já estava escuro – estava deitado em sua cama de bruços prestes a entrar na sonolência, ainda aceso – mas mesmo assim abrindo os olhos na noite não mais percebia a penumbra sempre com alguma luz que naturalmente, tão naturalmente que há muitos anos já passava batido, era até então capaz de perceber. Até agora há pouco, até agora mesmo; há um segundo atrás eu podia. Dali em diante estava cego. Levantara-se no desespero, acendera o interruptor pois a memória dos dedos ainda via o caminho do abajur mas nada, sem discussão, uma porta bruta cerrada a seco, cem mil quilos de chumbo no cristalino, um escuro soberbo, sarcástico, altivo, sem cara. Tateou – e já sentia o tato mais sensível. Os sons, mínimos, muito altos. O gosto de estar sozinho. Perguntava por que isso por que isso por que isso, e sabia sustentar perguntando, no futuro até onde fosse, onde fosse cabível um vislumbre, mas só muito aos poucos também soube da necessidade de um espaço entre as lanças das perguntas, para que de onde justamente pudesse rebater a resposta, para que houvesse um campo onde plantar a semente cega dela, por que isso – pausa – por que isso – pausa – por quê?
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À vista II
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Só lá pela página cem, cento e não sei quê, foi que percebi a impressão das letras não tão boa quanto se devia. Era uma impressão barata como dessas antigas de há poucos anos, rápidas para vender rápido. As frases parecem dizer estou apática, me deram um sedativo, me cobriram com a venda e o manto invisível que viabilizam a magia de não ver. Leio ainda e o livro inteiro é legível mas neste pé; neblina de falas, nódoa de língua, pálida gráfica. Até quando a leitura é possível se vai assim sumindo, sumindo, enfraquecida pela morte da tinta? Até quando os sinais ou a voluta que os liga é visível se vai sofrendo a perda de força por uma aquarela maldita? Lê-se; as letras estão dispostas para ler-se. “A comunicação ainda está disponível”, é o que o foco julga e consegue antever, entrelinhas.
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6janeiro00
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